Anemia:
- é definida como concentração de hemoglobina abaixo do segundo desvio-padrão da média da distribuição da hemoglobina para população da mesma idade e sexo, vivendo na mesma altitude.
A OMS, define anemia como:
- Hb < 11 g/dL para menores de 5 anos e gestantes;
- Hb < 11,5 g/dL para crianças de 6 a 12 anos;
- Hb < 12 g/dL para crianças de 12 a 14 anos e mulheres;
- Hb < 13 g/dL para homens adultos.
- Crianças abaixo de 6 meses, até o momento não há unanimidade no ponto de corte de hemoglobina.
Anemia fisiológica:
- é a causa mais comum de anemia no período neonatal.
- Processos fisiológicos normais costumam causar anemia normocítica-normocrômica nos recém-nascidos de termo e pré-termo.
- Anemias fisiológicas geralmente não requerem extensa avaliação ou tratamento.
Anemia Fisiológica do RN:
- Como ocorre?
- O aumento da oxigenação que ocorre com a respiração normal após o nascimento causa elevação abrupta do nível de oxigênio nos tecidos, resultando em retroação negativa sobre a produção de eritropoetina e eritropoese. Essa redução na eritropoese, assim como o tempo de vida mais curto dos eritrócitos neonatais (90 dias versus 120 dias em adultos), faz a concentração de hemoglobina cair nos primeiros 2 a 3 meses de vida (geralmente hemoglobina de 9 a 11 g/dL.
- A Hb permanece estável nas semanas seguintes e depois sobe lentamente no 4º ou no 6º mês, secundariamente à estimulação da eritropoetina que se refaz.
Anemia fisiológica em prematuros:
- É mais pronunciada, ocorrendo mais cedo e com um nadir mais baixo em comparação a crianças nascidas a termo. Essa condição também é chamada anemia da prematuridade.
- Possui um mecanismo semelhante àquele que provoca anemia em crianças nascidas a termo causa anemia em prematuros nas primeiras 4 a 12 semanas.
- Eritropoetina mais baixa, a vida-média mais curta das hemácias (35 a 50 dias), o crescimento rápido e as flebotomias mais frequentes contribuem para o menor nadir de Hb em prematuros.
- A anemia da prematuridade afeta mais comumente crianças < 32 semanas de gestação.
- Quase todas com doença aguda e extremamente prematuros (< 28 semanas de gestação) desenvolverão anemia que é grave o suficiente para exigir transfusão de eritrócitos durante a hospitalização inicial.
Para lembrar, o significado:
- Nadir: representa o ponto mais baixo da curva de contagem das células sanguíneas)
CONDUTAS:
- ANAMNESE: (o que deve ser questionado)
- Idade da criança e idade de início da anemia
- Esses dados muitas vezes já podem permitir direcionar o diagnóstico, como, por exemplo, a menor frequência de anemia ferropriva abaixo dos 6 meses de idade, desde que o lactente tenha nascido a termo e com peso adequado. Nesse período da vida ocorrem as anemias por incompatibilidade ABO ou RH, as infecções, esferocitose, deficiência enzimática, talassemias, eritroenzimopatias, aplasia pura da série vermelha, e aquelas decorrentes de hemorragias (intraútero, placenta prévia, descolamento prematuro da placenta).
- Alimentação:
- Tempo de aleitamento materno;
- Introdução de novos alimentos;
- Consumo de alimentos fonte de ferro, vitamina B12 e/ou ácido fólico (uma vez que carência desses componentes podem desencadear anemia ferropriva ou megaloblástica, respectivamente)
- Hábito intestinal/urinário (diarreia, acolia, sangramento nas fezes, colúria).
- Uso de medicamentos, como anti-inflamatórios não hormonais ou o ácido acetilsalicílico, podem favorecer perdas sanguíneas.
- Outra questão importante é a possível exposição a drogas/tóxicos, uma vez que pode ocorrer aplasia ou hemólise secundárias ao uso dessas substâncias.
- No que se trata de Antecedentes pessoais:
- Condições de gestação e parto, icterícia neonatal, necessidade ou não de fototerapia, internações, cirurgias e transfusões recebidas.
- EXAME FÍSICO:
- Avaliar o estado geral da criança, grau de palidez, estatura e peso (exemplo: anemia Fanconi pode cursar com baixa estatura),
- Pressão arterial (hipertensão pode apontar para doença renal);
- Fácies (atípica, dismorfologias, boça frontal);
- Crânio (macrocrania, macrocefalia, microcefalia);
- Olhos (dismorfologia, amaurose, catarata, nistagmo – exemplo: osteopetrose pode apresentar amaurose durante a evolução);
- Pele (pigmentações, petéquias, hemangiomas),
- Mucosas (glossite, estomatite angular, icterícia).
- O baço pode estar aumentado nas anemias hemolíticas ou no hiperesplenismo.
- Examinar a genitália, pois a presença de hipospádia pode ocorrer na anemia de Fanconi.
- Extremidades, verificar presença de dor à palpação de segmentos ósseos (leucemia, tumores, doenças inflamatórias/infecciosas).
- Anormalidades esqueléticas podem sugerir, por exemplo, anemia de Fanconi.
- AVALIAÇÃO LABORATORIAL:
- Hemograma completo;
- Contagem de reticulócitos;
- Fornece dados a respeito do nível de produção de hemácias. A contagem de reticulócitos diminuída leva a pensar em anemias hipoproliferativas e, quando elevada, em anemias hiperproliferativas, como as anemias hemolíticas.
- Análise da morfologia das hemácias;
- O volume corpuscular médio (VCM) < 80 fl pode estar associado a deficiência de ferro ou talassemia e, mais raramente, a envenenamento por chumbo. As anemias megaloblásticas estão associadas a VCM > 103 fl.
- Avaliação dos índices hematimétricos.
- São úteis na avaliação inicial de uma anemia de etiologia desconhecida, embora não sejam específicos, muitas vezes ajuda na determinação da causa da anemia.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS:
CAMPOS JÚNIOR, D.; BURNS, D. A.R. Tratado de pediatria: Sociedade Brasileira de Pediatria 3. ed. Barueri, SP: Manole, 2014.
WALTER, A.W. Anemia perinatal, Manual MSD, 2019. Disponível em: < https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/pediatria/dist%C3%BArbios-hematol%C3%B3gicos-perinatais/anemia-perinatal >. Acesso: 02 de jul. 2021