A anemia ferropriva é a responsável pela maior parte das anemias encontradas e estáassociada a mais de 60% dos casos de anemia no mundo. Trata-se de um processo patológico no qual a concentração de hemoglobina (Hb) contida nos glóbulos vermelhos se encontra abaixo dos valores esperados (inferior a -2DP), tornando-se insuficiente para atender às necessidades fisiológicas exigidas de acordo com idade, sexo, gestação e altitude.
Esta patologia afeta o crescimento e o desenvolvimento da criança, como, por exemplo, o desenvolvimento de habilidades cognitivas, comportamentais, linguagem e capacidades motoras. Ainda, predispõe a cáries dentárias, a alterações na imunidade, paladar e apetite, a uma resposta alterada ao estresse metabólico e alterações no desenvolvimento audiovisual.
O ferro é um mineral vital para a homeostase celular. É essencial para o transporte de oxigênio, para a síntese de DNA, metabolismo energético e para a síntese da molécula de hemoglobina. A deficiência deste mineral pode acontecer por vários fatores, como os fatores genéticos, infecções e deficiência na ingestão do mineral.
Há dois tipos de ferro nos alimentos: ferro heme (origem animal, sendo mais bem absorvido) e ferro não heme (encontrado nos vegetais. Seus alimentos fonte são: carnes vermelhas, principalmente vísceras fígado e miúdos, carnes de aves, carne suína, peixes e mariscos, hortaliças folhosas verde-escuras e leguminosas, como o feijão e a lentilha.
Recomenda-se, na mesma refeição, a ingestão de alimentos ricos em vitamina C (encontrados em frutas cítricas como laranja, acerola, limão), alimentos ricos em ferro não heme para aumentar a biodisponibilidade e alimentos ricos em vitamina A (disponível em frutas como mamão e manga, e em hortaliças como abóbora e cenoura).
Profilaxia da anemia ferropriva em crianças
A suplementação de ferro de forma preventiva é necessária durante a gestação e nos primeiros 2 anos de vida, pois, nessa fase, as necessidades do corpo são muito elevadas. A quantidade diárianecessária varia de acordo com a fase da vida.
De acordo com o Programa Nacional de Suplementação de Ferro do Ministério da Saúde, crianças entre 06 e 24 meses devem ser suplementadas com sulfato ferroso na dosagem de 1mg/kg peso/dia. Associado a isso, é orientada a amamentação materna exclusiva até os 6 meses de idade e, a partir disso, deve ser implementada a alimentação complementar saudável com adequada quantidade e biodisponibilidade de Ferro.
No caso de lactentes nascidos pré-termo ou com baixo peso (menor de 1500g), recomenda-se a suplementação com 2mg/kg/dia de ferro a partir do 30º dia até os 12 meses. Para os prematuros com baixo peso (entre 1000g e 1500g), recomenda-se a suplementação de 3mg/kg/dia até os 12 meses. No caso de recém-nascidos com menos de 1000g, recomenda-se 4mg/kg/dia.
Após o 1º ano de vida, a suplementação em todos os casos reduz-se para a dose de 1mg/kg/dia por mais 12 meses. Para crianças entre 2 e 12 anos residentes em regiões com prevalência de anemia ferropriva superior a 40%, recomenda-se suplementação profilática com ferro elementar diferenciada (30mg/ dia).
É importante salientar que crianças em aleitamento materno exclusivo só devem receber o suplemento a partir do sexto mês de idade. Se o bebê não estiver em aleitamento materno exclusivo, poderá ser realizada a partir dos quatro meses de idade, juntamente com a introdução dos alimentos complementares.
Também devemos estar atentos as crianças e gestantes com doenças que cursam por acúmulo de ferro (exemplo: doença falciforme, talassemia, hemocromatose), pois estas devem ser acompanhadas individualmente para avaliar qual é a viabilidade do uso do suplemento de sulfato ferroso.
Considera-se a complementação de ferro oral a essas crianças, porque apresentam igual chance de desenvolverem anemia ferropriva na fase de crescimento. E as crianças menores de um ano que recebem leite de vaca in natura ou fórmula inadequada estão em situação de risco nutricional para anemia ferropriva e devem ser avaliadas precocemente quanto à necessidade de suplementação.
Diagnóstico da anemia ferropriva na criança
Alguns sinais clínicos da anemia podem passar despercebidos, dentre eles: palidez cutâneo-mucosa, queda na curva de peso, apatia, irritabilidade, escleras azuladas, redução da capacidade de atenção e déficits psicomotores. A SBP recomenda que uma triagem seja feita aos 12 meses de idade em todos os pacientes, com o hemograma, contagem de reticulócitos e ferritina.
O primeiro estágio de deficiência é a diminuição dos depósitos de ferro no fígado, baço e medula óssea, podendo ser diagnosticada pelos níveis séricos de ferritina, que possui forte relação com o armazenamento de ferro nos tecidos. Valores de ferritina menores que 12μg/L em crianças menores de 5 anos indicam depleção da reserva corporal de ferro.
No segundo estágio, são utilizados para diagnóstico a própria redução do ferro sérico, aumento da capacidade total de ligação da transferrina (>250-390μg/dl) e a diminuição da saturação da transferrina (<16%).
E o último estágio, o terceiro, ocorre quando há diminuição dos níveis séricos de hemoglobina, hematócrito e alterações hematimétricas.Segundo a OMS, o ponto de corte para anemia são níveis de hemoglobina menores que 11,0g/dl para crianças menores de seis anos e gestantes.
Classicamente, a anemia ferropriva se manifesta por hipocromia, com o HCM (Hemoglobina Corpuscular Média) abaixo de 25pg, associada na maioria das vezes à microcitose, com VCM (Volume Corpuscular Médio) menor que 75fl. O RDW (RedCellDistributionWidth), que indica o grau de anisocitose da amostra de sangue examinada, sugere fortemente a anemia ferropriva quando seu valor é superior a 20%.
Tratamento
O objetivo do tratamento da anemia ferropriva deve ser o de corrigir o valor da hemoglobina circulante e repor os depósitos de ferro nos tecidos onde ele é armazenado. Deve ser pautado na orientação nutricional para o consumo de alimentos fonte e reposição de ferro – por via oral – com dose terapêutica de 3 a 5 mg/kg/dia de ferro elementar para crianças de, no mínimo, oito semanas.
A suplementação deve ser continuada visando a reposição dos estoques de ferro, o que varia entre dois a seis meses ou até obtenção de ferritina sérica maior que 15μg/dL (ressalvando a importância de alcançar os valores esperados entre 30 e 300μg/dL). Dentre os diversos tipos de sais de ferro disponíveis para a suplementação destacam-se o sulfato ferroso, o fumarato ferroso e o gluconato ferroso.
Além da suplementação via oral, a reposição parenteral de ferro é recomendada em casos excepcionais, como os de hospitalização por anemia grave (após falha terapêutica do tratamento oral), necessidade de reposição por perdas sanguíneas, doenças inflamatórias intestinais, quimioterapia, diálise ou após cirurgias gástricas com acometimento do intestino delgado, devendo sempre ser solicitada avaliação de especialista experiente para uso prévio.
A transfusão sanguínea somente está indicada em crianças com hemoglobina inferior a 5g/dl ou com sinais de descompensação cardíaca. Nessas situações, é aconselhável a utilização de 10 ml/kg de concentrado de hemácias, em venóclise lenta, e monitoramento dos sinais vitais.
Autora: Amanda Oliveira Barbosa
Médica pela UFJF Campus Governador Valadares
Instagram: amanda.obarbosa