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Amnésia global transitória: causas, diagnóstico e prognóstico

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A amnésia global transitória (AGT) é uma condição neurológica súbita, marcada pela perda temporária da memória recente (amnésia anterógrada) e, em menor grau, da memória remota (amnésia retrógrada), geralmente afetando indivíduos de meia-idade e idosos.

Com duração limitada, variando de 1 a 24 horas, o episódio caracteriza-se por desorientação temporal e repetição constante de perguntas, embora a identidade pessoal e outras funções cognitivas permaneçam preservadas. De curso benigno e autolimitado, a AGT não associa-se a sequelas neurológicas permanentes ou a risco aumentado de doenças graves, como acidente vascular cerebral ou epilepsia. O diagnóstico é essencialmente clínico, dispensando exames na maioria dos casos.

Dada sua relativa frequência em serviços de emergência, o reconhecimento rápido e preciso do quadro é fundamental para oferecer segurança ao paciente, evitar investigações desnecessárias e reforçar o papel da equipe multiprofissional no manejo adequado dessa síndrome.

Fisiopatologia e causas da amnésia global transitória

A fisiopatologia da amnésia global transitória (AGT) envolve, principalmente, disfunções no hipocampo e no lobo temporal mediobasal, regiões cerebrais fundamentais na formação de novas memórias episódicas.

Estudos de neuroimagem funcional e estrutural confirmam que essas áreas apresentam alterações durante os episódios de AGT, especialmente os neurônios da sub-região CA1 do hipocampo, que são altamente sensíveis ao estresse metabólico, como hipóxia e isquemia.

Além disso, pesquisas demonstram alterações na conectividade funcional entre o hipocampo e outras regiões cerebrais, como o giro cingulado, áreas pré-frontais e parietais.

Os mecanismos que explicariam a origem da amnésia global transitória (AGT) ainda são motivo de debate, já que não há uma causa única consensual. Todavia, diversas teorias foram propostas, incluindo:

  • Alterações vasculares, tanto arteriais quanto venosas.
  • Fenômenos relacionados à enxaqueca, como a depressão cortical alastrante.
  • Eventos epilépticos.
  • Fatores psicogênicos.

No entanto, nenhuma dessas explicações consegue justificar de forma completa e consistente todas as manifestações clínicas observadas na AGT. Por isso, muitos especialistas consideram que, apesar da apresentação clínica relativamente uniforme, a AGT seja uma síndrome de origem multifatorial, com diferentes causas possíveis dependendo do paciente.

Isquemia arterial

A amnésia global transitória apresenta algumas semelhanças com o ataque isquêmico transitório (AIT), como o fato de ambos provocarem sintomas neurológicos de curta duração e serem mais comuns em idosos.

Apesar das semelhanças, a AGT não está ligada a um maior risco de recorrência ou de acidente vascular cerebral (AVC), como ocorre com o AIT.

Congestão venosa cerebral

Hipótese baseada na associação de eventos desencadeantes como manobra de Valsalva, atividade vigorosa dos braços e imersão em água fria, que poderiam causar refluxo venoso e pressão aumentada nas veias jugulares internas, comprometendo o retorno venoso do hipocampo.

Fenômeno migranoso

A enxaqueca, conhecida por causar sintomas neurológicos transitórios como auras, tem sido considerada uma possível causa da AGT. Isso se deve à depressão cortical alastrante, um fenômeno de despolarização neuronal e glial que pode levar à liberação de glutamato no hipocampo. Além disso, estudos apontam que pessoas com AGT têm maior probabilidade de ter histórico de enxaqueca, sugerindo uma possível associação.

Por outro lado, há limitações nessa teoria. Por exemplo, a enxaqueca costuma afetar pessoas mais jovens e apresenta caráter recorrente, enquanto a AGT ocorre, em geral, em idosos e como um evento isolado.

Epilepsia

Embora a amnésia transitória possa ocorrer durante algumas crises epilépticas, a epilepsia não é considerada causa da AGT. As crises epilépticas costumam ser breves, durando minutos, e se repetem, enquanto a AGT dura horas e geralmente é um evento isolado.

Além disso, exames de EEG realizados durante episódios de AGT não mostram atividade epiléptica, o que diferencia as duas condições.

Transtornos psicossomáticos

Fatores emocionais, traços de personalidade ansiosa e estressores agudos podem atuar como gatilhos em alguns casos. Embora a AGT seja reconhecida como uma condição neurológica, o componente psicológico pode contribuir para sua manifestação em determinados pacientes.

Outras hipóteses

Há indícios de envolvimento de alterações neuroendócrinas (como elevação de cortisol ou secreção inapropriada do hormônio antidiurético), lesões cardíacas (elevada troponina) e alterações neuroquímicas (como elevação de enolase específica do neurônio), embora esses achados sejam esporádicos e ainda careçam de comprovação como causas primárias da AGT.

Quadro clínico da amnésia global transitória

Como já mencionado, a amnésia global transitória caracteriza-se por episódios súbitos e bem delimitados de perda de memória, principalmente anterógrada, com dificuldade em formar novas memórias durante o evento.

Os pacientes costumam apresentar desorientação temporal e fazem perguntas repetitivas, embora mantenham a memória imediata e a capacidade para realizar tarefas aprendidas previamente. Além disso, a amnésia retrógrada pode ocorrer, variando em extensão, mas as memórias semânticas e procedurais geralmente permanecem preservadas.

Ademais, o exame neurológico é normal, sem sinais focais, e outras funções cognitivas, como linguagem e alerta, são mantidas. Sintomas associados, como dor de cabeça, náuseas, tontura e ansiedade, podem ocorrer em uma parte dos casos.

Os episódios duram em média cerca de seis horas, resolvendo-se completamente em até 24 horas, com recuperação gradual da memória anterógrada e redução da amnésia retrógrada, que costuma ficar limitada ao período imediatamente antes do evento.

Em muitos casos, eventos precipitantes são identificados, como estresse emocional, esforço físico intenso, manobra de Valsalva, dor intensa, alterações posturais, entre outros. A maioria dos episódios inicia-se pela manhã, logo após o despertar, e recorrências são incomuns, ocorrendo em uma pequena porcentagem de pacientes.

Diagnóstico da amnésia global transitória

O diagnóstico da amnésia global transitória é clínico, não existindo exames específicos que confirmem a condição. A observação detalhada do início súbito dos sintomas por uma testemunha confiável, junto com uma avaliação neurológica completa, é essencial para distinguir a AGT de outras doenças.

Para confirmar o diagnóstico, o paciente deve apresentar:

  • Início abrupto de dificuldade para formar novas memórias (amnésia anterógrada), frequentemente manifestada por perguntas repetitivas e possível amnésia retrógrada leve.
  • Ausência de traumatismo craniano ou alteração da consciência.
  • Manutenção da identidade pessoal.
  • Ausência de sinais neurológicos focais.
  • Duração dos sintomas entre 1 e 24 horas.

Além disso, é importante excluir antecedentes de epilepsia ou convulsões recentes, assim como o uso atual de anticonvulsivantes.

Em geral, pacientes com quadro típico de AGT não necessitam de exames complementares extensos além de testes básicos laboratoriais (glicemia e eletrólitos) e toxicológicos para exclusão de causas alternativas.

Entretanto, quando há dúvidas sobre o diagnóstico, o paciente deve ser melhor investigado. Nesses casos, a ressonância magnética cerebral é o exame mais relevante, que costuma mostrar alterações características (lesões pontuais na região CA1 do hipocampo) entre 24 e 72 horas após o episódio.

O eletroencefalograma (EEG), por sua vez, geralmente é normal na AGT, ajudando a diferenciar a condição de amnésias associadas a crises epilépticas. Por fim, reserva-se a análise do líquor para casos em que se suspeita de infecção ou inflamação cerebral.

Prognóstico da amnésia global transitória

A amnésia global transitória geralmente ocorre como um evento isolado, apresentando um bom prognóstico com pouca morbidade ou mortalidade associada.

Recorrências podem acontecer, com taxas variando entre 2,9% e 26,3%, e a maioria dos pacientes recorrentes apresenta até três episódios. Dessa forma, episódios frequentes ou múltiplos devem levar à reavaliação do diagnóstico.

Fatores ligados a maior risco de recorrência incluem idade mais jovem no primeiro episódio, sexo feminino, duração mais curta dos eventos e histórico de enxaqueca, enquanto fatores cardiovasculares e eventos precipitantes não parecem influenciar.

No longo prazo, a maioria dos estudos não observa aumento significativo no risco de mortalidade, epilepsia, AVC ou demência após a AGT, embora algumas pesquisas indiquem maior incidência de depressão, epilepsia e demência em pequenos grupos de pacientes.

Além disso, há evidências que sugerem déficits cognitivos residuais subclínicos em alguns pacientes, especialmente na memória e atenção, que podem persistir por meses ou anos após o episódio, embora os resultados sejam variados entre os estudos.

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Referências

  • Mahler, M. E. Transient global amnesia. UpToDare, 2024.
  • Nehring, S. M.; Spurling, B. C.; Kumar, A. Transient Global Amnesia. National Library of Medicine, 2024.

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