O contexto
da gravidez, principalmente para as mães de primeira viagem, é envolto em
mitos, opiniões e muitas dúvidas acerca de como cuidar da criança. Ao
nascimento, infelizmente, essas questões apenas se multiplicam, destacando-se
uma em especial: a alimentação.
Diante
disso, cabe ao profissional da saúde explanar acerca desse novo mundo adentrado
pelas mães, pegar nas mãos delas e recitar o dogma: “Aleitamento materno
exclusivo até os 6 meses de idade”. As demais questões são mais fáceis.
A Organização
Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde (MS) recomendam o aleitamento
materno (AM) exclusivo (apenas leite materno direto da mama ou ordenhado) até
os 6 meses de idade, a partir de quando podem ser adicionados alimentos sólidos
ou semissólidos, a fim de fazer a transição alimentar, de forma que o
aleitamento complementado se estenda até os 2 anos de idade ou mais.
Nessa ótica,
mesmo todas as evidências científicas provando a superioridade do aleitamento
sobre outras formas de alimentar a criança, a maioria delas não é amamentada
por 2 anos ou mais e não recebe leite materno exclusivo nos primeiros 6 meses.
De fato, o
AM possui inúmeros benefícios, como a redução da mortalidade na infância, a
proteção contra diarreia, infecções respiratórias, alergias, a promoção do
crescimento e do desenvolvimento cognitivo, entre outras.
Então, se esses ganhos são tão claros e
relativamente bem divulgados pelos profissionais de saúde, por que ainda
existe, no contexto brasileiro, uma dificuldade de se adotar a amamentação de
forma adequada?
Para se
entender essa questão, demanda-se uma análise mais profunda do acompanhamento
no puerpério. Durante o primeiro ano de vida, pediatras e médicos de família
são os profissionais que mais investem tempo com a mãe e a criança, podendo ter
acesso, além do exame do bebê, ao contexto da família, sua cultura, objetivos e
dificuldades no que concerne ao puerpério, especificamente sobre a amamentação.
As barreiras ao aleitamento, normalmente, podem se enquadrar em duas categorias:
1. Fatores Externos
2. Fatores Intrínsecos
Os fatores
externos dizem respeito a situações ou atitudes que podem prejudicar o
aleitamento, enquanto que fatores intrínsecos são aqueles que estão fora do
controle da mãe e do médico. Contudo, apesar da inabilidade de anular estes
fatores, o entendimento acerca de sua existência já atua em um processo
curativo sobre o protagonismo da mãe na amamentação, dando-lhe empoderamento
sobre a situação.
Dentre as queixas mais ressaltadas nesse assunto, destaca-se a dificuldade de equilibrar o retorno ao mercado de trabalho pelas mulheres, muitas vezes de forma precoce, com a amamentação, uma vez que várias delas atuam como chefes de família ou têm importante papel na renda familiar.
Apesar de a legislação brasileira de proteção ao AM ser uma das mais avançadas do mundo (licença-maternidade, direito à garantia de emprego, pausas para amamentar, entre outras) essa dificuldade permanece, principalmente pelo fato de várias mães encararem e, de certa forma, serem ensinadas historicamente que a amamentação se configura como um processo isolado e totalmente independente.
Associada à
essa realidade, estudos realizados por Yourkavitch et al e Fernandez et
al mostraram que as condições de pobreza e a via de parto cesária ou
vaginal assistida, respectivamente, influenciam de forma negativa na qualidade
da amamentação, em que existe menor tempo de aleitamento e início antecipado da
introdução da alimentação complementar.
Como visto,
as barreiras ao aleitamento são muitas, incluindo as questões que estão fora do
controle do médico, como a condição socioeconômica que a família está inserida
e a via de parto selecionada. Frente a isso, é possível intervir nessa
realidade ou ela está fadada ao fracasso?
Na
realidade, os pontos principais de atuação do profissional da saúde nessa
situação podem ser resumidos em dois:
1. Informação
2. Apoio
Apesar de ser crescente o número de informações e programas educacionais voltados para o puerpério e AM, é preciso rever se de fato as informações mais importantes estão chegando às mães e como elas estão chegando.
Compreensivelmente, as queixas e dúvidas vão se desenvolver, e ,em um ambiente de estresse, muitas mães podem seguir um conselho da vizinha ou da mãe leigas de passar um creme caseiro ou tomar uma “garrafada” para tratamento de fissuras no mamilo por exemplo, do que seguir o conselho do médico do posto de “colostroterapia”, sem explicação, em uma consulta com pouco investimento da relação médico-paciente, após horas de espera pelo atendimento. Essa falta de comunicação fácil e de qualidade pode abrir margem para a baixa adesão do aleitamento e início de uma alimentação inadequada.
Outro ponto essencial é o apoio. Principalmente em relação às mães de primeira viagem ou às que não podem oferecer atenção em tempo integral aos seus bebês, uma rede de apoio é mais que necessária. Esse suporte pode ser oferecido pela participação da família, quando possível, sendo muito interessante para aliviar a sensação de isolamento e facilitar a promoção do aleitamento.
Essa introdução familiar pode se desenvolver por meio do englobamento do parceiro ou da avó, que talvez não se sintam parte do processo de cuidado da criança, principalmente no que tange à amamentação.
Esses grupos de suporte também podem ser ofertados por intermédio de rodas de conversa e apoio de gestantes e puérperas, nas Unidades Básicas de Saúde, como já ocorre em vários municípios brasileiros, a partir de inúmeras iniciativas.
À exemplo da Rede Cegonha: um programa do Sistema Único de Saúde de apoio à gestação e ao puerpério, em que apresenta em um de seus campos de atuação, o auxílio à amamentação e informações sobre alimentação complementar. Configura-se como uma abordagem muito interessante que abraça os dois pilares resolutivos das barreiras da amamentação: a falta de informação e de apoio.
Vale
ressaltar que sempre se deve ter em vista os fatores intrínsecos que podem
prejudicar a adesão à amamentação, como as condições socioeconômicas da
família, a via de parto instituída, o nível educacional, entre outros. A
presença destes agravantes deve estimular a equipe de saúde a oferecer uma
maior atenção à mãe e à criança, a fim de promover os objetivos da OMS.
Apesar das recomendações da OMS e do MS, nós, profissionais da saúde, estamos falhando em alcançar os objetivos propostos e abrindo espaço para a propagação da alimentação inadequada dos lactentes. Essa situação ressalta-se como um problema comunitário, uma vez que põe em prova o desenvolvimento tanto físico quanto mental das crianças.
Como visto, o investimento em informação de qualidade e apoio às mães e à família, baseada em uma boa relação médico-paciente, são imperativas para a promoção de saúde nesse conceito em questão das barreiras na amamentação.
Autor: Gabriel Peres, Estudante de Medicina
Intasgram: @gabriel.dlucas