O Alzheimer é uma doença neurológica crônica, que provoca a morte precoce de neurônios cerebrais, afetando a memória e outras funções. Uma série de estudos publicados nos últimos anos comprovam a relação entre níveis elevados de açúcar no sangue e um aumento significativo do risco de desenvolver esta patologia.
O que é o Alzheimer ?
O processo natural de envelhecimento causa mudanças no corpo humano. Em relação ao sistema nervoso, essas mudanças podem causar algum nível de diminuição da memória, aprendizagem e autonomia, sem afetar significativamente as funções cerebrais. A doença de Alzheimer é um dos subtipos de “Demência”, doenças que causam um dano exacerbado das estruturas cerebrais cognitivas, importantes para a linguagem, memória, raciocínio e destreza. Sua evolução é crônica e a frequência de seus sintomas no indivíduo aumenta conforme o passar dos anos.
Nesta enfermidade, os neurônios perdem as conexões entre si, degenerando a comunicação, metabolismo e reparo celular, resultando na morte desta células. O hipocampo e o córtex entorrinal (áreas relacionadas à memória) são os primeiros locais a sofrerem dano. Posteriormente, regiões cerebrais responsáveis pela linguagem, raciocínio e comportamento social são afetadas. Finalmente, o indivíduo acometido perde a habilidade de viver de forma autônoma e independente.
Por que o açúcar é um grande fator de risco ?
A fisiopatologia da doença envolve a depleção de neurotransmissores do cérebro (mensageiros químicos que regulam os sinais entre células nervosas), principalmente a acetilcolina (importante para a cognição). Há o depósito de proteínas anormais (beta-amiloide) no cérebro, onde ao redor se acumulam células nervosas mortas. Soma-se a isso, a acumulação de novelos neurofibrilares (proteínas insolúveis) dentro das células. Esses depósitos prejudicam a comunicação e regeneração do tecido nervoso humano.
Uma revisão bibliográfica publicada no Journal of Diabetes Investigation analisou 28 estudos e mais de 89 mil pacientes diabéticos, e concluiu que este tipo de paciente possui 73% mais risco de desenvolver demência de qualquer tipo, 56% a mais de desenvolver demência do tipo Alzheimer e 127% a mais de demência do tipo vascular, quando comparado à população não diabética. A diabetes propicia alterações vasculares, efeitos tóxicos devido a hiperglicemia sanguínea, resistência insulínica no tecido cerebral e a formação de Advanced glycation end-products ou AGE (Substâncias que aceleram a deposição de proteínas beta-amiloides nos neurônios, responsáveis pela doença). Além disso, essas substâncias estão associadas a maiores níveis da proteína “tau”, um componente essencial para a formação das placas beta-amiloides e emaranhados neurofibrilares nocivos.
Outro estudo, coordenado pela pesquisadora da Universidade de Nova Iorque, Dra. Melissa Schilling e publicado na revista Journal of Alzheimer’s Disease, estabelece que pacientes diabéticos possuem o dobro de chances de serem acometidos pelo Alzheimer, e que indivíduos que fazem uso de insulina também possuem maior risco de desenvolver a doença. Estudos recentes vem estabelecendo a relação entre a “hiperinsulinemia” e a demência. Schilling explica que a enzima que degrada a insulina é a mesma que degrada proteínas amilóides (cujo acúmulo contribui para o desenvolvimento do Alzheimer). Indivíduos que não possuem a insulina corporal em níveis adequados, como determinados tipos de diabéticos, consequentemente não eliminam a proteína amiloide do corpo de forma satisfatória. Adicionalmente, pacientes que fazem uso de insulina exógena para o tratamento de diabetes podem possuir níveis acima do necessário da mesma no sangue, fazendo com que a enzima degradadora seja consumida inteiramente para a degradação da insulina e não sendo utilizada para a metabolização das proteínas amiloides maléficas. A pesquisadora alerta para o fato de que não é necessário ter diabetes para apresentar a hiperinsulinemia, e isto é fenômeno comum em pacientes pré-diabéticos, que apresentam níveis elevados da insulina no sangue devido ao alto consumo de açúcar, mas ainda não são considerados portadores da diabetes.
Como identificar os sinais da doença ?
Os sintomas evoluem gradualmente ao longo dos anos, e podem ser sutis no início, como perda de memória recente ou alterações no humor que antes não acometiam o paciente. Confusão mental, dificuldade de reconhecer padrões áudio-visuais, alterações no sono ou episódios de delíro também podem ocorrer em fases iniciais. Em fases mais avançadas, a perda de memória é mais evidente, onde o indivíduo esquece de acontecimentos e dados do passado distante. Além disso, progressivamente vai perdendo a autonomia para realizar atividades cotidianas, como se alimentar ou vestir-se. Irritação, apatia e comportamento inapropriado em situações sociais podem também se revelar mais agudamente nas fases mais tardias.
O componente familiar, como histórico de casos em parentes é um dado importante que deve ser levado em consideração para a suspeita. É mais comum em pessoas acima de 65 anos, principalmente quando associado ao sedentarismo, má alimentação, tabagismo e exposição a metais pesados devido à atividade profissional. O diagnóstico definitivo é feito por um neurologista, que realizará uma série de testes comportamentais, exames de imagem e sangue para excluir outras demências.
Conclusão
As demências acometem cerca de 1 milhão de pessoas no Brasil, e em três décadas esse número irá quadruplicar, o que representará metade da população idosa do país, de acordo com um estudo da Universidade Federal de Pelotas. Juntamente, a Organização Mundial da Saúde afirma que 6,2% dos brasileiros possuem diabetes, apresentando um aumento de 61% dos casos entre 2008 e 2018. O Brasil ocupa o quarto lugar mundial dentre os países com mais pessoas diabéticas. O quadro alarmante indica que estes números não tendem a diminuir e a prevenção é o principal método de controle para o evoluir da doença. O Ministério da Saúde recomenda o exercício físico de forma constante, cessão do tabagismo e etilismo, manter uma alimentação estritamente saudável e controlada, além de estimular o cérebro com leituras e exercícios cognitivos (como desafios matemáticos ou aprender um novo idioma). A melhor maneira de evitar as consequências do Alzheimer continua sendo o controle máximo de seus fatores de risco.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
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