Oligoâmnio, oligoidrâmnio ou oligo-hidrâmnio é definido como a diminuição do volume de líquido amniótico, sendo classificado quantitativamente como valores abaixo de 300 a 400 mL.
Fisiopatologia
No início da gestação, o líquido presente na cavidade amniótica é principalmente composto do ultrafiltrado do plasma materno. Ao iniciar o segundo trimestre, a composição do líquido amniótico se torna semelhante ao plasma fetal devido à difusão do líquido extracelular que ocorre através da pele do feto. Assim, ao atingir 20 semanas de gestação, ocorre a queratinização da pele fetal, dessa forma, a fonte de líquido amniótico passa a ser formada, principalmente, pela urina do feto e do fluido pulmonar. Enquanto que a reabsorção do líquido é feita através da deglutição fetal, reabsorção intestinal e das trocas feitas através da superfície das membranas que revestem a face fetal da placenta, o cordão umbilical e parede uterina. Em suma, o volume do líquido amniótico é determinado pela quantidade de fluido que entra e sai da cavidade amniótica. Ou seja, a urina fetal, a produção de fluido pulmonar e a deglutição fetal do próprio líquido são os fatores que irão contribuir para o balanço final do volume de líquido amniótico. Dessa forma, ao ocorrer distúrbios fetais que comprometam algum desses processos irá, consequentemente, atingir certo volume de líquido amniótico.
Um exemplo é quando há restrição do crescimento fetal (RCF), no qual a hipóxia crônica acarreta a redistribuição do débito cardíaco que, em decorrência disso, haverá diminuição do fluxo sanguíneo renal e do volume urinário fetal.
Etiologia
Em aproximadamente 30% dos casos não é possível identificar a causa do oligoâmnio. Há diversos fatores que podem ser associados à etiologia, dentre eles fetais, maternos, placentários, farmacológicos, por exemplo, vide tabela 1.
| Tabela 1. Etiologia do oligoâmnio |
| Fetais | RCFAnomalias congênitasAnomalias cromossômicasPós-datismoRuptura de membranas ovularesÓbito fetal |
| Maternos | Síndromes hipertensivasColagenoses/SAFDiabetes com vasculopatiaInsuficiência placentáriaPré-eclâmpsiaDesidratação |
| Placentários | Descolamento prematuro da placentaSíndrome de transfusão feto-fetal |
| Fármacos | Inibidores da sínteses de prostaglandinasInibidores da enzima conversora de angiotensina |
| Idiopática |
Diagnóstico
Geralmente, a suspeita clínica irá acontecer ao realizar o exame físico na paciente e for observado que o fundo de útero é menor do que o esperado para a idade gestacional, além disso, a percepção das partes fetais também poderá ser evidente ao realizar a palpação. Outra forma de suspeita de oligoâmnio ocorre quando a paciente informa que houve perda de líquido, situação que acontece, por exemplo, na ruptura das membranas ovulares.
O oligoâmnio pode ser diagnosticado por meio do ultrassom tanto de maneira subjetiva quanto de maneira semiquantitativa.
A avaliação subjetiva é dependente da experiência de quem está observando. Neste caso, ao analisar o USG é possível visualizar a presença de pequena quantidade de líquido amniótico entre a parede uterina e as interfaces fetais. Além disso, também pode ser observado pequenas partes fetais bastante “aglomeradas”.
Em contrapartida, a avaliação semiquantitativa inclui o cálculo do Índice de Líquido Amniótico (ILA) e a medida do Maior Bolsão Vertical (MBV).
O ILA é a divisão da cavidade uterina em quatro quadrantes no qual utiliza-se a cicatriz umbilical materna como o ponto de intersecção entre duas linhas imaginárias para obter os planos sagital e axial. Em cada quadrante mede-se o diâmetro vertical do maior bolsão de líquido amniótico. As quatro medidas são somadas, obtendo, dessa forma, o ILA (tabela 2).
A medida do MBV é o diâmetro vertical do maior bolsão de líquido amniótico em uma área que está livre das partes fetais e do cordão umbilical. Essa técnica é preferível quando há gestações múltiplas ou quando o fundo uterino não ultrapassa a cicatriz umbilical (tabela 3).
Assim, o diagnóstico ultrassonográfico de oligoâmnio pode ser maior bolsão de líquido amniótico < 2 cm ou ILA ≤ 5 cm.
| Tabela 2. Classificação do volume de líquido amniótico de acordo com a medida do ILA |
| Índice de líquido amniótico | Classificação |
| ≤ 3 cm | Oligoâmnio grave |
| ≤ 5 cm | Oligoâmnio |
| 5,1 a 8 cm | Reduzido |
| 8,1 a 18 cm | Normal |
| > 18 cm e < 25 cm | Aumentado |
| ≥ 25 cm | Polidrâmnio |
| Tabela 3. Classificação do volume de líquido amniótico de acordo com MBV |
| Diâmetro do maior bolsão de líquido amniótico | Classificação |
| < 1 cm | Oligoâmnio grave |
| < 2 cm | Oligoâmnio |
| ≥ 2 e < 3 cm | Reduzido |
| 3 a 8 cm | Normal |
| > 8 e ≤ 12 cm | Polidrâmnio leve |
| > 12 e ≤ 16 cm | Polidrâmnio moderado |
| > 16 cm | Polidrâmnio grave |
Tratamento
O tratamento depende não só da investigação para determinar a etiologia do quadro como também a idade gestacional em que foi diagnosticado o oligoâmnio.
1) Hidratação Materna: é necessário investigar desidratação materna e/ou hidratação subótima, uma vez que são situações passíveis de intervenção. Assim, a realização de hidratação com soluções hipotônicas parece ajudar a reduzir a osmolaridade materna e a concentração de sódio resultando na condução do fluxo de água no sentido materno-fetal, havendo melhora não só no quesito hidratação mas também da perfusão uteroplacentária.
2) Amnioinfusão: é a realização de amniocentese para infundir soro fisiológico na cavidade amniótica. De acordo com a literatura, deve-se infundir um volume entre 40 a 640 mL. É importante saber que esse procedimento também pode ser realizado com o intuito diagnóstico, uma vez que, ao aumentar a quantidade de líquido dentro da cavidade amniótica, são criadas melhores condições para a realização do ultrassom e ainda para o objetivo terapêutico fetal.
3) Reparo do defeito: ainda é um procedimento considerado experimental. Neste caso, tem sido utilizado fibrina, plaquetas e crioprecipitados na tentativa de vedar o defeito nas membranas fetais nos casos em que o oligoâmnio é decorrente de rotura prematura de membranas ovulares (RPMO).
4) Quando indicar a resolução da gestação?
- Feto estiver com maturidade pulmonar comprovada
- Provas de vitalidade fetal alterada, independentemente da maturidade fetal, entretanto, após a viabilidade
- Idade gestacional ≥ 37 semanas
- Restrição do crescimento fetal (RCF)
- Oligoâmnio grave (ILA < 3,0 cm)
Prognóstico
O prognóstico depende da etiologia, gravidade, idade gestacional e duração do oligoâmnio.
No primeiro trimestre, o oligoâmnio é um achado de mau prognóstico, com altas chances de ocorrer perda gestacional precoce. No segundo trimestre, o prognóstico depende da etiologia e da quantidade de líquido amniótico. A redução do volume de líquido amniótico pode provocar anormalidades tanto anatômicas quanto funcionais no feto, a citar malformações esqueléticas, contraturas e hipoplasia pulmonar. Além de ocorrer com maior frequência o óbito fetal/neonatal. Já no terceiro trimestre, ocorre uma relação inversa entre o volume de líquido amniótico e o desfecho desfavorável da gestação. Os desfechos desfavoráveis englobam a compressão do cordão umbilical, aspiração meconial e a insuficiência uteroplacentária.
Outro fator prognóstico é a duração do oligoâmnio. Assim, pacientes com etiologia idiopática na redução do volume de líquido amniótico em idade gestacional precoce apresentam maior probabilidade de desfecho perinatal desfavorável quando comparadas àquelas que apresentam o achado tardio de oligoâmnio na gestação.
Autor(a): Erika Araújo dos Santos – @erikamarcelly ou @sanar.residenciaunirv
Referências:
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CUNNINGHAM, F. G. et al. Obstetrícia de Williams. 23 ed. Porto Alegre: AMGH, 2021. 1328 p.
FEBRASGO. Tratado de Obstetrícia. Revinter, 2000.
REZENDE, J. Obstetrícia. 11ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.
ZUGAIB, Marcelo. Obstetrícia. 3a ed. Barueri, São Paulo: Manole, 2016 e alterações.
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