A nutrição no início da vida
desempenha papel importante na origem de diversas doenças de adultos, como
diabetes tipo 2, hipertensão, obesidade e síndrome metabólica; portanto,
práticas adequadas de alimentação devem ser estabelecidas no período neonatal e
seguidas continuamente através da infância e da adolescência até a vida adulta.
É de extrema importância uma abordagem multidisciplinar entre médicos,
enfermeiros, nutricionistas e consultores de lactação para que a alimentação
inicial seja bem-sucedida e eficaz.
É de grande importância conhecer
as definições de aleitamento materno adotadas pela Organização Mundial da Saúde
(OMS) e reconhecidas no mundo inteiro. Sendo assim, o aleitamento materno
costuma ser classificado em:
- Aleitamento materno exclusivo – quando a
criança recebe somente leite materno, direto da mama ou ordenhado, ou leite
humano de outra fonte, sem outros líquidos ou sólidos, com exceção de gotas ou
xaropes contendo vitaminas, sais de reidratação oral, suplementos minerais ou
medicamentos. - Aleitamento materno predominante – quando
a criança recebe, além do leite materno, água ou bebidas à base de água (água
adocicada, chás, infusões), sucos de frutas e fluidos rituais. - Aleitamento materno – quando a criança
recebe leite materno (direto da mama ou ordenhado), independentemente de
receber ou não outros alimentos. - Aleitamento materno complementado –
quando a criança recebe, além do leite materno, qualquer alimento sólido ou
semissólido com a finalidade de complementá-lo, e não de substituí-lo. - Aleitamento materno misto ou parcial –
quando a criança recebe leite materno e outros tipos de leite.
A alimentação deve ter início
logo após o nascimento, a menos que haja alguma contraindicação médica. A
Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria
recomendam o aleitamento materno exclusivo por livre demanda (e sem restrições
de horários e de tempo de permanência) durante os primeiros seis meses e
aleitamento materno complementado até os dois anos de vida.
O sucesso da introdução do
aleitamento depende de vários fatores, como a orientação sobre a mamada,
técnica correta de pega, práticas e políticas de aleitamento materno no
hospital, cuidados rotineiros e oportunos durante o acompanhamento e apoio
familiar. Além de ser um processo que envolve interação profunda entre mãe e
filho, as vantagens do aleitamento materno são bem documentadas (Tabela 1) e as
contraindicações são raras (Tabela 2).
Graças a inúmeros fatores
existentes no leite materno que protegem contra infecções, como IgA secretora,
lactoferrina, caseína, fatores de crescimento, nucleotídeos, ocorrem menos
mortes entre as crianças amamentadas. Estima-se que o aleitamento materno
poderia evitar cerca de 13% das mortes em crianças menores de 5 anos em todo o
mundo, por causas preveníveis. A proteção do leite materno contra mortes
infantis é maior quanto menor é a criança.
Constatou-se que a amamentação
protege contra diarreia, principalmente nos países de baixa e média renda. Além
de evitar a diarreia, a amamentação também exerce influência na gravidade dessa
doença. Crianças não amamentadas têm um risco três vezes maior de desidratarem
e de morrerem por diarreia quando comparadas com as amamentadas.
A proteção do leite materno
contra infecções respiratórias foi demonstrada em vários estudos realizados em
diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil. Assim como ocorre com a
diarreia, a proteção é maior quando a amamentação é exclusiva nos primeiros
seis meses. Além disso, a amamentação diminui a gravidade dos episódios de
infecção respiratória.
Estudos mostram que a amamentação
exclusiva nos primeiros meses de vida diminui o risco de alergia à proteína do
leite de vaca, de dermatite atópica e de outros tipos de alergias, incluindo
asma e sibilos recorrentes.
Houve redução ainda de 25% na
chance de desenvolver sobrepeso ou obesidade mais tarde na infância,
adolescência ou fase adulta em indivíduos amamentados. Em uma revisão da OMS
foi concluído que os indivíduos amamentados apresentaram pressões sistólica e
diastólica mais baixas (-1,2mmHg e -0,5mmHg, respectivamente), níveis menores
de colesterol total (-0,18mmol/L) e risco 37% menor de apresentar diabetes tipo
2.
Além do leite materno conter todos os nutrientes essenciais para o crescimento e o desenvolvimento ótimos da criança pequena, ser mais bem digerido, quando comparado com leites de outras espécies, já estão bem estabelecidos os benefícios para a mãe. Existe uma associação entre aleitamento materno e redução na prevalência de câncer de mama.
Estima-se que o risco de contrair a doença diminua em 4% a cada 12 meses de duração de amamentação. A amamentação é também um excelente método anticoncepcional nos primeiros seis meses após o parto, desde que a mãe esteja amamentando exclusiva ou predominantemente e ainda não tenha menstruado.
O leite materno é capaz de suprir
sozinho as necessidades nutricionais da criança nos primeiros seis meses. A
partir de seis meses, recomenda-se a introdução de alimentos complementares que
devem prover suficientes quantidades de água, energia, proteínas, gorduras, vitaminas
e minerais, por meio de alimentos seguros, economicamente acessíveis e que
sejam agradáveis à criança. Tais alimentos complementares possibilitam a
transição da amamentação para a dieta da casa e também são importantes por
motivos nutricionais e relacionados ao desenvolvimento.
Por volta dos seis meses de vida
a criança já tem desenvolvidos os reflexos necessários para a deglutição, como
o reflexo lingual, sustenta a cabeça, facilitando a alimentação oferecida por
colher, tem-se o início da erupção dos primeiros dentes e desenvolve ainda mais
o paladar.
A Sociedade Americana de
Pediatria faz recomendações para a introdução dos alimentos complementares:
- Introduza
apenas um ingrediente alimentar por vez e não introduza novos alimentos por 3-5
dias para observar a tolerância. - Escolha
alimentos que forneçam nutrientes e sejam capazes de suprir as necessidades
energéticas. - Garanta
a ingestão adequada de cálcio. - Limite
a quantidade de suco de fruta: 120-180ml/dia para crianças de 1 a 6 anos e
240-360ml/dia para crianças a partir dos 7 anos. - Introduza
alimentos variados até o lactente completar um ano de vida para ajudar no
estabelecimento de hábitos saudáveis.
A Aliança Mundial para Ação em Amamentação ressalta que “em um mundo repleto de desigualdades, crises e pobreza, a amamentação é o alicerce da boa saúde ao longo da vida para crianças e mães.”


Autora: Ingrid Morselli, Estudante de Medicina.
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