O aleitamento materno é uma prática recomendada e estabelecida pelas organizações em saúde devido aos inúmeros benefícios imunológicos, psicológicos e sociais para o binômio mãe-filho. Contudo, com o advento da atual pandemia pela COVID-19, gerou-se um debate acerca da possível transmissão do vírus pelo leite materno ao lactente, assim como surgiu uma discussão ponderando os benefícios e os riscos do aleitamento materno no atual cenário de pandemia. A respeito disso, deve-se levar em consideração o bem-estar e a segurança da mãe e do lactante no momento de decisão sobre permanecer com o aleitamento ou postergar.
1. Evidências sobre a prática da amamentação em meio a pandemia
O aleitamento materno é um ato de suma relevância para a saúde da mãe e da criança, considerando os benefícios, a exemplo da redução da morbimortalidade infantil, do menor risco de alergias, menor probabilidade de doenças crônicas na fase adulta, aumento do vínculo afetivo mãe-filho, entre outros. Além de reduzir os riscos de psicopatologias pela mãe no período do puerpério. Por isso, sociedades de saúde mundial estabelecem a recomendação de aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade para a criança, visando um desenvolvimento saudável.
Contudo, desde a instalação da pandemia pelo Sars-Cov-2, iniciou-se o debate acerca da transmissão vertical pelo aleitamento materno. Com isso, muitos estudos foram realizados buscando encontrar essa correlação. Atualmente, ainda se tem estudos controversos em relação a indicação ou não do aleitamento materno pela mãe suspeita ou confirmada com o diagnóstico de Covid-19.
Entretanto, apesar dessas divergências, as maiores recomendações são de que o aleitamento materno deve continuar a ser realizado, desde que a mãe opte e esteja em um quadro clínico favorável para fazer essa oferta do leite, haja vista que as evidências são de que não há transmissão do Sars-Cov-2 pelo leite materno ao lactente.
Esses indícios foram obtidos por pesquisas que realizaram testes como o RT PCR, em amostras de leite materno, que obtiveram resultados negativos. Além disso, outros estudos realizaram a testagem de Swab Nasofaringe em mães com o diagnóstico de Covid-19, obtendo resultado positivo, porém quando realizado a testagem do leite materno, obteve-se resultado negativo.
Já outros estudos que apresentaram mãe e bebê com diagnósticos positivos, ao ser testado o leite materno não foi constatada a presença viral, indicando que a infecção de ambos possa ter sido por meio de uma terceira pessoa infectada a qual eles entraram em contato.
2. Recomendações a respeito do aleitamento materno na pandemia
A partir dessas evidências, é recomendado que o aleitamento materno permaneça sendo realizado e estimulado. Para isso, faz-se necessário algumas medidas de prevenção e higiene, tendo em vista que apesar da transmissão vertical não estar comprovada, a transmissão por gotículas, secreções e objetos contaminados ainda pode ocorrer:
- Uso de máscara cirúrgica no momento da amamentação
- Evitar falar, tossir ou espirrar durante a mamada
- Trocar a máscara quando estiver úmida, a cada mamada ou ao tossir e espirrar
- Limpar as superfícies próximas à mãe
- Higienização das mãos com água e sabão antes e após o contato com o lactente
- Quando não possível a higienização com água e sabão, realizar a limpeza com álcool a 70%
Em contraposição, se a mãe optar por não amamentar, a decisão deve ser respeitada sendo orientado a mãe realizar a extração do leite manual ou por meio de bombas, para que seja ofertado in natura ao filho, por copo, xícara ou colher. Para a ordenha deve-se atentar para as seguintes orientações de higiene:
- Uso de máscara no momento da retirada do leite
- Higienização das mãos antes e após o processo
- Limpar efetivamente as bombas após o uso
Destaca-se que a oferta do leite deve ser feita por uma pessoa que está saudável e que recebeu orientações de como fazer o procedimento de forma correta. Na impossibilidade de fazer a coleta do leite, deve-se recomendar a busca de leite materno nos bancos de leite humano.
Em relação ao contexto hospitalar, a recomendação prevalente é permanecer com o contato pele a pele precoce e a amamentação na primeira hora de vida do recém-nascido. Entretanto, se a mãe estiver sintomática ou tenha tido contato com uma pessoa sintomática ou com diagnóstico por Covid-19, o aleitamento e o contato físico precoce só poderão ser feitos após a higienização da parturiente, com o banho no leito, troca de máscara, touca, camisola e lençóis.
3. Conclusão
Estabelece-se, portanto, que o aleitamento materno pode continuar sendo realizado no contexto atual de pandemia, já que os benefícios superam os riscos, tanto pela não confirmação de transmissão vertical pelo leite materno, quanto pelo conhecimento de que a criança possui uma menor probabilidade de infecção pelo Sars-Cov-2 e uma maior probabilidade de prognóstico leve ou assintomático.
Referências
Aleitamento materno em tempos de covid-19 – recomendações na maternidade e após a alta – https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/05/22467f-NA_-_AleitMat_tempos_COVID-19-_na_matern_e_apos_alta.pdf
Recomendações para amamentação no contexto do covid-19: uma revisão integrativa – https://acervomais.com.br/index.php/saude/article/view/6982/4477
Perguntas frequentes – amamentação e covid-19 – https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/08/20200810_N_20200807NfinalFACAmamentacaoeCOVID1966649330922523577_5036660980636280742.pdf
Manejo da amamentação de mães infectadas com covid-19: uma revisão da literatura – https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJHR/article/view/28923#:~:text=De%20maneira%20geral%2C%20%C3%A9%20necess%C3%A1rio,de%20contamina%C3%A7%C3%A3o%20do%20rec%C3%A9m%2Dnascido.
Autor: Thayane Thais Pantoja Ferreira
Instagram: @thaypantoja
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