Um padrão universal primário
nas abordagens assistenciais nos estabelecimentos de saúde é a verificação dos
sinais vitais, sendo a pressão arterial (PA) um parâmetro de grande relevância.
É definida como a força exercida pelo sangue na parede dos vasos e serve como
indicador bastante importante caso esteja aumentado ou diminuído em comparação
aos valores considerados normais e/ou aceitáveis. Por exemplo, uma elevação brusca poderia indicar um quadro de
crise hipertensiva, uma hipotensão poderia representar um choque hipovolêmico
dentre diversos outros cenários possíveis. Ou seja, a obtenção correta dos
valores da pressão arterial é de extrema importância.
Durante a formação do médico, geralmente no
início da graduação, os futuros profissionais aprendem a obter o valor da
pressão arterial e, aparentemente o que seria um procedimento relativamente
simples, acaba sendo, de certa forma, menosprezado. Isso foi confirmado pelo
Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) em sua avaliação
no ano de 2018 aos médicos recém-formados,
que apontou que surpreendentes 69% de um total de 3174 participantes, não
sabiam as diretrizes para uma correta aferição da pressão arterial1.
Não obstante, um ano antes, em 2017, a American
Medical Association (AMA) havia publicado um estudo que corroborava a
constatação do CREMESP, no qual reuniu 159 estudantes de medicina onde apenas 1
deles executou corretamente todos os elementos em um teste de verificação da
pressão arterial².
LEIA:
Apenas 1 em cada 159 estudantes de medicina sabe aferir a pressão corretamente
Na sétima Diretriz Brasileira de Hipertensão
Arterial, elaborada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), encontramos
as recomendações para que se realize uma correta aferição da pressão arterial.
Podemos distingui-la em dois momentos, sendo o primeiro de preparo do paciente e o segundo de realização da medição, tendo em cada um deles diferentes etapas a
serem seguidas conforme transcritas abaixo:
Preparo do paciente:
- Explicar o procedimento ao paciente e deixá-lo em repouso de 3 a 5
minutos em ambiente calmo. Deve ser instruído a não conversar durante a
medição. Possíveis dúvidas devem ser esclarecidas antes ou depois do procedimento. - Certificar-se de que o paciente não está com a bexiga cheia, praticou
exercícios físicos há pelo menos 60 minutos, ingeriu bebidas alcoólicas, café, alimentos
ou se fumou nos 30 minutos anteriores. - O paciente deve estar sentado, com pernas descruzadas, pés apoiados no
chão, dorso recostado na cadeira e relaxado. O braço deve estar na altura do
coração, apoiado, com a palma da mão voltada para cima e as roupas não devem
garrotear o membro. - Medir a PA na posição de pé, após 3 minutos, nos diabéticos, idosos e em
outras situações em que a hipotensão ortostática possa ser frequente ou
suspeitada.
Etapas para a realização da medição
- Determinar a circunferência do braço no ponto médio entre acrômio e
olécrano; - Selecionar o manguito de tamanho adequado ao braço (vide quadro mais
abaixo); - Colocar o manguito, sem deixar folgas, 2 a 3 cm acima da fossa cubital;
- Centralizar o meio da parte compressiva do manguito sobre a artéria
braquial; - Estimar o nível da pressão arterial sistólica (PAS) pela palpação do
pulso radial*; - Palpar a artéria braquial na fossa cubital e colocar a campânula ou o
diafragma do estetoscópio sem compressão excessiva*; - Inflar rapidamente até ultrapassar 20 a 30 mmHg o nível estimado da PAS
obtido pela palpação*; - Proceder à deflação lentamente (velocidade de 2 mmHg por segundo)*;
- Determinar a PAS pela ausculta do primeiro som (fase I de Korotkoff) e,
após, aumentar ligeiramente a velocidade de deflação*; - Determinar a pressão arterial diastólica (PAD) no desaparecimento dos sons (fase V de Korotkoff)*;
- Auscultar cerca de 20
a 30 mmHg abaixo do último som para confirmar seu desaparecimento e depois
proceder à deflação rápida e completa*; - Se os batimentos
persistirem até o nível zero, determinar a PAD no abafamento dos sons (fase IV
de Korotkoff) e anotar valores da PAS/PAD/zero*; - Realizar pelo menos
duas medições, com intervalo em torno de um minuto. Medições adicionais deverão
ser realizadas se as duas primeiras forem muito diferentes. Caso julgue
adequado, considere a média das medidas; - Medir a pressão em
ambos os braços na primeira consulta e usar o valor do braço onde foi obtida a
maior pressão como referência; - Informar o valor de
PA obtido para o paciente; - Anotar os valores
exatos sem “arredondamentos” e o braço em que a PA foi medida.

* Itens realizados exclusivamente na técnica auscultatória. Reforça-se a necessidade do uso de equipamento validado e periodicamente calibrado.
A diretriz pondera ainda algumas observações
pertinentes a grupos especiais como crianças, idosos, gestantes e obesos:
- Crianças: é recomendada a verificação da pressão arterial como
parte do atendimento pediátrico primário em toda avaliação clínica após os três
anos de idade, pelo menos anualmente, devendo respeitar as padronizações
estabelecidas para os adultos, porém a interpretação dos valores obtidos devem considerar
idade, sexo e altura, conforme tabelas específicas; - Idosos: alterações próprias do envelhecimento, como o
desaparecimento dos sons durante a deflação do manguito, resultam em valores
falsamente baixos para a PAS ou falsamente altos para a PAD, provocando uma
variação da PA neste grupo, sendo a Monitorização Ambulatorial da Pressão
Arterial (MAPA) uma ferramenta muito útil em uma análise ao longo de 24 horas; - Gestantes: segue a mesma metodologia recomendada para adultos,
reforçando que ela também pode ser medida no braço esquerdo na posição de
decúbito lateral esquerdo em repouso, não devendo diferir da obtida na posição
sentada e considerar o quinto ruído de Korotkoff para a PAD; - Obesos: para não haver superestimação da PA nesse grupo, se
orienta utilizar manguitos mais longos e largos e, em braços com circunferência
superior a 50 cm, onde não há manguito disponível, pode-se fazer a medição no
antebraço com ausculta do pulso radial.
Mediante essas observações, percebemos que há um
equipamento apropriado para cada paciente dependendo do grupo que esteja
inserido (etapa 2 da realização da medição). O quadro abaixo destaca melhor
esses detalhes:
Dimensões do manguito de acordo com a circunferência do membro.

Evidentemente que as recomendações citadas até
aqui referem-se ao procedimento de rotina, no consultório, mas existem também
protocolos específicos para a aferição da pressão arterial fora do consultório
como a Medição Residencial da Pressão Arterial (MRPA) e o MAPA que não vou me
aprofundar, porém recomendo fortemente a consulta à diretriz da SBC³ para mais detalhes.
É praxe que os pacientes/clientes passem pela triagem antes de serem atendidos no consultório e sua pressão arterial já tenha sido aferida por outro profissional, entretanto, o médico não pode ser omisso e desprezar esse procedimento, pois muitas vezes faz-se necessária sua comprovação, comparação ou até mesmo a própria obtenção, uma vez que nem sempre contará com o auxílio de outro profissional. Ressalto que, mais que aferir respeitando a diretriz da SBC, o importante é não chegar a valores que não correspondam a real condição do paciente, que podem induzir, inclusive, ao erro de conduta.
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