INTRODUÇÃO
Naturalmente as células de determinado tecido armazenam no seu interior, substâncias fundamentais para a manutenção de sua funcionalidade, os locais de acúmulo variam desde o próprio citoplasma até organelas especializadas, como o complexo de Golgi e o Retículo Endoplasmático. Não raro, as células também podem armazenar não só componentes fundamentais, mas também substâncias exógenas. Nos dois casos, deve haver um controle desse armazenamento, uma vez que a célula pode ser destruída por um processo de degeneração, caso o acúmulo intracelular não seja equilibrado.
A célula pode armazenar, em excesso, constituintes normais, como: água, lipídios, carboidratos e proteínas. Constituintes anormais sejam endógenas ou exógenas, no primeiro caso, destaca-se: produtos de sínteses anormais ou produtos metabólicos; no segundo caso destaca-se: minerais e produtos de agentes infecciosos. Além desses tipos de acúmulos pode-se citar os pigmentos, como melanina, hemossiderina, bilirrubina, pigmentos de carvão e lipofuscina. Portanto, esses acúmulos podem representar pouca ou nenhuma ameaça, mas também podem gerar riscos gigantescos, a depender da toxicidade.
A deposição anormal no interior da célula, geralmente está relacionado a algum processo entrópico que causa ou pode causar dano ao organismo, destacam-se: mutações genéticas na produção de proteínas que provoca um acúmulo no retículo endoplasmático rugoso; produção de uma substância endógena natural, mas metabolismo insuficiente para removê-la; mutações genéticas que causam problema no transporte ou na secreção de substâncias normais, gerando seu acúmulo; depósito de substâncias exógenas anormais, uma vez que a célula não possua enzimas necessárias para a degradação dessas.
ACÚMULO DE LIPÍDIOS
Caracterizada pelo acúmulo de triglicerídeos no interior das células, pode haver manifestação, no coração, nos rins, mas principalmente no fígado. O Acúmulo pode ser representado em formas de enormes vacúolos dentro do citoplasma que influenciam toda estrutura celular, em casos extremos pode desenvolver-se um quadro inflamatório capaz de proporcionar o ambiente ideal para a propagação de hepatites, cirroses e até câncer (fígado). A esteatose resulta de uma desproporção entre o transporte e a oxidação dos lipídeos, podendo ser oriunda de contato com toxinas, desnutrição proteica, diabetes melito, obesidade e anoxia.
Diversos mecanismos atuam sobre o acúmulo de triglicérides no fígado. Os ácidos graxos livres no tecido adiposo ou oriundos da alimentação são enviados aos hepatócitos para passarem pelo processo de esterificação, no qual são convertidos em colesterol ou fosfolipídios ou transformados em corpos cetônicos por meio da oxidação. Alguns desses ácidos graxos são sintetizados a partir do acetato. A liberação desses triglicérides nos hepatócitos requer o transporte de proteínas específicas para o deslocamento do sangue para os tecidos.
A ausência desse transporte vai gerar o acúmulo de triglicerídeos no fígado e, assim, prejudicar o metabolismo deste. Em casos de acúmulos leves, pode não haver prejuízo funcional à célula, mas em casos mais graves pode haver até morte celular.

FONTE: https://www.ufrgs.br/patologiageral/tag/esteatose-hepatica/
ACÚMULO DE PROTEINAS
O acúmulo de proteínas no interior da célula aparece, frequentemente, como gotículas eosinófilicas arredondadas, vacúolos, ou agregados citoplasmáticos, podendo se manifestar em forma de glóbulos, de cristais e até acúmulos amorfos. Há casos de acúmulos no espaço extracelular.
Dentre as causas, pode-se destacar: proteinúria, que induz a reabsorção nas células do túbulo proximal do néfron; transporte e secreção defeituosos que proporcionam uma falha no dobramento proteico e consequente acúmulo no Retículo Endoplasmático; Agregação de proteínas anormais, que podem se depositar nos tecidos e interferir no funcionamento celular.
Há, também, o acúmulo de proteínas no interior dos alvéolos, a causa pode estar relacionada à produção de um anticorpo direcionado contra a proteína que realiza a quebra do surfactante, substância normalmente produzida nos pulmões. A proteinose alveolar pode estar relacionada ao contato com toxinas, poeiras inorgânicas, infecções, alguns tipos de câncer e imunossupressores.

FONTE: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C3%BArbios-pulmonares/doen%C3%A7as-pulmonares-intersticiais/proteinose-alveolar-pulmonar
ACÚMULO DE GLICOGÊNIO
Acúmulo da reserva de energia, geralmente oriundo de uma anormalidade no metabolismo da glicose ou glicogênio. Esse acúmulo se manifesta com o aparecimento de vacúolos claros no interior do citoplasma que podem evoluir para lesão e morte celular. A diabetes melito é o principal distúrbio no metabolismo da glicose.

FONTE: http://anatpat.unicamp.br/lamdegn1.html
ACÚMULO DE PIGMENTOS
Podem ser normais das células ou adquiridos por via exógena. Os pigmentos exógenos são adquiridos de forma especial, o mais comum é a poeira de carvão encontrado na queima de combustíveis fósseis. Quando inalado, o carbono é absorvido pelos macrófagos presentes no interior dos alvéolos e transportados pelos canais linfáticos até a região traqueobrônquica. O acúmulo desse pigmento deixa o pulmão e os linfonodos com uma coloração escura (antracose). Um caso bem comum que o leitor pode reparar são as tatuagens, nas quais se usa um pigmento exógeno, inserido na pele e assim fagocitados pelos macrófagos na derme, onde permanecerão, naturalmente, até o fim da vida.
Os pigmentos podem, também, ser endógenos como, principalmente, a lipofuscina que é insolúvel, uma vez que é composta por lipídios e fosfolipídios formando complexos com proteínas. Esse pigmento não é prejudicial à célula, no entanto sua presença demonstra lesão por radicais livres e peroxidação lipídica, geralmente observada em células que sofrem alterações regressivas, além disso possui um aspecto castanho- amarelado, no citoplasma celular, como pode ser observado na lâmina abaixo:

FONTE: http://anatpat.unicamp.br/nptsubependimoma1a.html
CALCIFICAÇÃO PATOLÓGICA
É a deposição anormal de sais de cálcio no tecido, em conjunto com quantidades menores de ferro, magnésio e outros minerais. A calcificação pode ocorrer em tecidos que estão morrendo, calcificação distrófica, ocorre a despeito de níveis normais de cálcio sérico e na ausência de danos ao metabolismo do cálcio. Já em tecidos normais, a deposição de cálcio, calcificação metastática, pode ser oriunda de hipercalemia secundária ou algum dano no metabolismo do cálcio.
CALCIFICAÇÃO DISTRÓFICA
A calcificação distrófica, encontrada principalmente em tecidos no processo necrótico, está presente em focos de necrose enzimática da gordura, em ateromas da aterosclerose, em valvas cardíacas danificadas, entre outros. O aspecto da deposição pode ser visto macroscopicamente e se manifesta como um depósito arenoso.

FONTE: http://anatpat.unicamp.br/lamdegn25.html
CALCIFICAÇÃO METASTÁTICA
A calcificação metastática pode ocorrer amplamente no corpo, mas atua mais severamente nos tecidos da mucosa gástrica, rins, pulmões, artérias e veias. O ponto em comum a esses tecidos é que todos excretam ácido e, portanto, possuem um armazenamento alcalino que predispõe ao acúmulo maciço de cálcio. O aspecto da calcificação metastática é semelhante ao da distrófica.
Geralmente o acúmulo de sais minerais não causa problemas, mas o acúmulo maciço em órgãos específicos, como os pulmões pode causar achados radiológicos e sintomas respiratórios, já depósitos no rim podem culminar em nefrocarcinoses por exemplo.

FONTE: https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/66/o/Calcifica%C3%A7%C3%B5es_Patol%C3%B3gicas_2014.pdf
AUTOR: Rian Barreto Arrais Rodrigues de Morais
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O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS
- Robbins & Cotran Patologia – Bases Patológicas das Doenças
- Proteinose Alveolar. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-pulmonares-e-das-vias-respirat%C3%B3rias/doen%C3%A7as-pulmonares-intersticiais/proteinose-alveolar-pulmonar
- Calcificações Patológicas. Disponível em: https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/66/o/Calcifica%C3%A7%C3%B5es_Patol%C3%B3gicas_2014.pdf
- Acúmulos intracelulares. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5401993/mod_resource/content/1/Acumulos.pdf
- Manual de Patologia. Disponível em: https://assets.fmit.edu.br/arquivos/biblioteca/arquivos/manual-de-patologia.pdf