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Acne escoriada: causas, diagnóstico e abordagem terapêutica

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A acne escoriada representa uma condição dermatológica particular caracterizada pela manipulação compulsiva de lesões acneicas, resultando em erosões, crostas e cicatrizes persistentes.

Embora inicialmente se apresente como uma forma de acne vulgar, sua evolução é marcada pela interferência comportamental do paciente, frequentemente associada a distúrbios de ansiedade, depressão ou transtornos obsessivo-compulsivos.

Predominante em mulheres jovens, essa entidade clínica transcende a esfera cutânea e reflete uma complexa interação entre fatores dermatológicos, psicológicos e sociais, tornando-se um desafio terapêutico relevante para o manejo multidisciplinar.

Dessa forma, reconhecer sua importância é fundamental para evitar sequelas estéticas permanentes e promover uma abordagem integrada que contemple tanto o tratamento da pele quanto o suporte emocional do indivíduo.

Epidemiologia da acne escoriada

A acne vulgar é uma das dermatoses mais frequentes, sobretudo em adolescentes e adultos jovens, com prevalência estimada entre 35% e 90% nessa faixa etária. O início costuma ocorrer entre os 7 e 12 anos, podendo persistir até a terceira década de vida ou até mesmo surgir na idade adulta. Enquanto a acne na adolescência é mais prevalente em homens, após a adolescência, há predomínio entre mulheres. A frequência tende a diminuir progressivamente com a idade, mas ainda é relevante em indivíduos acima dos 30 anos.

O transtorno de escoriação da pele, por sua vez, frequentemente relacionado à acne escoriada, apresenta prevalência variável nos estudos, oscilando entre 1,6% e 3,4% na população geral. Em contextos clínicos, estima-se que cerca de 2% das consultas dermatológicas estejam associadas a essa condição. Além disso, o transtorno de escoriação da pele tem predominância marcante no sexo feminino, com uma razão mulher-homem de aproximadamente 8:1, e o início geralmente ocorre na adolescência ou no início da vida adulta, com pico na faixa dos 20 anos.

Assim, a acne escoriada configura-se como uma manifestação clínica de impacto relevante, resultante da interação entre a alta prevalência da acne vulgar e o comportamento de escoriação compulsiva, especialmente em mulheres jovens, com repercussões significativas para a saúde dermatológica e psicossocial.

Causas da acne escoriada

A acne escoriada resulta da interação entre a fisiopatologia da acne vulgar e o comportamento compulsivo de manipulação cutânea.

A acne vulgar é uma doença inflamatória da unidade pilossebácea, desencadeada por múltiplos fatores. Entre eles, destacam-se:

  • Hiperqueratinização folicular, que leva à formação de microcomedões;
  • Hipersecreção sebácea estimulada por andrógenos;
  • Colonização do folículo pelo Cutibacterium acnes;
  • E a subsequente resposta inflamatória.

Além disso, esse processo é agravado por predisposição genética, alterações hormonais, resistência à insulina, dieta de alta carga glicêmica, consumo de laticínios, estresse e até traumas repetitivos na pele.

Os andrógenos têm papel central, uma vez que aumentam a atividade das glândulas sebáceas, criando um ambiente propício ao crescimento do C. acnes. Essa bactéria, por meio de enzimas e fatores de virulência, estimula respostas imunes inatas e adaptativas, intensificando a inflamação.

No caso específico da acne escoriada, soma-se a isso o componente comportamental. O transtorno de escoriação da pele, classificado como um comportamento repetitivo focado no corpo, leva o paciente a cutucar, espremer ou arranhar lesões de acne de forma compulsiva. Esse hábito não apenas perpetua a inflamação, como também causa traumas mecânicos adicionais, favorecendo o aparecimento de lesões mais graves, cicatrizes e manchas residuais.

O transtorno de escoriação da pele está frequentemente associado a comorbidades psiquiátricas, como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno dismórfico corporal, ansiedade e bulimia. Nessas situações, estímulos emocionais negativos e alterações no circuito neural relacionado ao controle de impulsos funcionam como gatilhos para a manipulação cutânea.

Portanto, a acne escoriada é uma condição multifatorial:

  • Biológica, pela patogênese clássica da acne;
  • Comportamental, pelo ato repetitivo de escoriação;
  • Psicossocial, pela influência de fatores emocionais e comorbidades psiquiátricas que perpetuam o ciclo de agressão cutânea.

Diagnóstico da acne escoriada

O diagnóstico da acne escoriada é eminentemente clínico e deve contemplar a avaliação dermatológica minuciosa associada a uma investigação cuidadosa dos aspectos comportamentais do paciente.

Avaliação dermatológica

No exame físico, observam-se as lesões típicas da acne vulgar, como comedões abertos e fechados, pápulas, pústulas e, em alguns casos, nódulos, distribuídas principalmente na face, dorso e ombros. Contudo, diferentemente da acne comum, as lesões apresentam sinais de manipulação constante, com crostas, escoriações lineares, úlceras superficiais e cicatrizes atróficas ou hipertróficas resultantes do ato repetitivo de cutucar a pele.

Acne escoriada: pápulas escoriadas acompanhadas de erosões e diversas máculas hiperpigmentadas, resultado do hábito crônico de manipular lesões de acne desenvolvidas. Fonte: UpToDate, 2025.

A anamnese deve explorar a cronologia do surgimento das lesões, a intensidade dos sintomas, possíveis fatores desencadeantes, histórico familiar de acne e o grau de sofrimento emocional associado ao quadro.

Embora exames laboratoriais não sejam, em regra, necessários para o diagnóstico, eles podem ser úteis quando há suspeita de alterações hormonais, como nos casos de hiperandrogenismo ou síndrome dos ovários policísticos, ou em quadros graves, como a acne fulminante, que exigem investigação complementar.

Investigação de aspectos comportamentais

Paralelamente, deve-se investigar o transtorno de escoriação, caracterizado pela manipulação repetitiva da pele que leva a lesões, cicatrizes e até infecções secundárias. De acordo com o DSM-5, o diagnóstico requer que o paciente apresente comportamento de cutucar a pele de forma recorrente, com tentativas malsucedidas de controlar o hábito, gerando sofrimento clínico significativo ou prejuízo social, sem que a condição seja explicada por outra doença dermatológica ou psiquiátrica.

Ademais, a avaliação clínica deve considerar também a exclusão de dermatoses que cursam com prurido ou lesões semelhantes, como dermatite, sarna ou prurigo nodular. Para complementar, podem ser aplicadas escalas específicas, como a Skin Picking Scale ou o Milwaukee Inventory for the Dimensions of Adult Skin-Picking, que ajudam a medir a gravidade e os padrões de comportamento.

Dessa forma, o diagnóstico da acne escoriada exige uma abordagem integrada, combinando o reconhecimento das manifestações cutâneas da acne com a avaliação criteriosa do comportamento de escoriação, sempre levando em conta o impacto psicossocial da condição.

Abordagem terapêutica da acne escoriada

A acne escoriada representa um desafio terapêutico, pois envolve não apenas o tratamento das lesões cutâneas, mas também a abordagem do comportamento compulsivo de manipulação da pele. Portanto, o manejo deve ser individualizado e multidisciplinar, unindo dermatologia e psiquiatria.

O primeiro passo é trabalhar a adesão e a conscientização do paciente, explicando a natureza do transtorno, o impacto do ato de cutucar e a importância do autocontrole.

No âmbito dermatológico, trata-se a acne de base conforme sua gravidade com opções que incluem:

  • Retinoides tópicos.
  • Peróxido de benzoíla.
  • Antibióticos tópicos/orais.
  • Isotretinoína.
  • Terapias hormonais quando indicadas.

Além disso, complicações como infecções secundárias ou ulcerações podem necessitar de antibióticos tópicos/sistêmicos, curativos protetores e, em alguns casos, corticosteroides tópicos ou intralesionais para controlar inflamação e prurido. Para cicatrizes residuais, recursos como laser e procedimentos estéticos podem ser considerados.

No aspecto psiquiátrico e comportamental, são fundamentais estratégias que auxiliem no controle do impulso de escoriação. Nesse contexto, terapias não farmacológicas incluem:

  • Terapia cognitivo-comportamental.
  • Terapia de reversão de hábitos.
  • Escrita expressiva.
  • Terapia de aceitação e compromisso.
  • Psicoterapia de grupo.
  • Modalidades digitais de autoajuda.

Do ponto de vista farmacológico, podem ser utilizados antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), que demonstraram eficácia no tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo. Ademais, utiliza-se ansiolíticos em casos de comorbidades ansiosas e antipsicóticos atípicos em pacientes com delírios.

Em casos refratários, pode-se recorrer a procedimentos de neuromodulação, como a estimulação magnética transcraniana, e em situações específicas, adotar terapias complementares (ioga, biofeedback, exercícios).

Assim, o tratamento da acne escoriada exige uma abordagem combinada:

  • Controlar a acne de base e prevenir complicações cutâneas.
  • Manejar os aspectos comportamentais e psiquiátricos.

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Referências

  • Park, K. K.; Koo, J. Skin picking (excoriation) disorder and related disorders. UpToDate, 2025.
  • Sutaria, A. H.; Masood, S.; Saleh, H. M.; Schlessinger, J. Acne vulgar. National Library of Medicine, 2023.
  • Thiboutot, D.; Zaenglein, A. L. Pathogenesis, clinical manifestations, and diagnosis of acne vulgaris. UpToDate, 2025.

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