Ácido fólico: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
O ácido fólico, conhecido também como vitamina B9, é uma vitamina de propriedade hidrossolúvel que desempenha papel essencial para várias funções metabólicas no organismo humano.
Dentre seus papéis, a síntese e o reparo do DNA na formação de células sanguíneas e no desenvolvimento celular se destacam como funções importantes e que precisam ser conhecidas.
No contexto do acompanhamento gestacional, a suplementação com ácido fólico é uma das medidas que melhoram os resultados gestacionais, bem como o controle do diabetes mellitus e o cuidado com agentes teratogênicos.
Estudos mostram que o uso de suplementação com ácido fólico e de ferro em pacientes com baixa e média renda em países em desenvolvimento está associada à diminuição de taxas de baixo peso no nascimento e tamanho inferior ao esperado para idade gestacional. Quer saber mais sobre o tema? Continue lendo esta publicação.
Metabolismo e funções primárias do ácido fólico
O ácido fólico, uma vitamina do complexo B, desempenha um papel crucial no metabolismo celular, especialmente na síntese e reparação do DNA.
Como coenzima, está envolvido na transferência de grupos metil de um composto para outro, desempenhando um papel fundamental na formação de células sanguíneas e no crescimento de tecidos.
Absorvido principalmente no jejuno e convertido em sua forma ativa (tetrahidrofolato) – responsável pelas suas ações na síntese de ácidos nucleicos e de aminoácidos como a metionina.
Funções primárias
Por conta desse mecanismo, conseguimos agrupar as funções primárias do ácido fólico. São elas:
- Síntese de DNA e RNA (ácidos nucléicos);
- Eritropoiese (produção dos glóbulos vermelhos);
- Prevenção de defeitos do tubo neural aberto;
- Atuar no ciclo da metionina e da homocisteína.
Devido a tamanha importância funcional, a deficiência do ácido fólico é uma situação que precisa ser identificada e corrigida depressa, principalmente em gestantes e mulheres na idade fértil com intenção de engravidar em breve.
A gravidez e o desenvolvimento fetal
Durante a gestação, sabe-se que o uso do ácido fólico previne defeitos abertos do tubo neural no feto, como a espinha bífida e a anencefalia.
Para prevenir esses defeitos, deve-se recomendar o ácido fólico 1 mês antes da gestação e continuado nos 2 primeiros meses de gravidez. Além disso, não deve-se ingerir o ácido fólico em associação com outras vitaminas.
Quando ingerido com outros suplementos vitamínicos, devido ao seu metabolismo, pode ocorrer uma superdosagem que terá ação teratogênica – isto é, ser danoso ao desenvolvimento do feto.
A dose a ser orientada como prevenção dos defeitos do tubo neural é de 400 µg, de forma geral.
Contudo, para pacientes com histórico de meningomielocele, anencefalia e em uso de medicamentos antiepilépticos/anticonvulsivos como a carbamazepina devem utilizar dose pré-concepcional de 5mg/dia.
Riscos da falta de ácido fólico
Durante a gestação, o corpo da mulher naturalmente se torna mais carente de ácido fólico, sendo necessário realizar a reposição para suprir as demandas. Isso ocorre por alguns fatores do metabolismo do ácido fólico nesse contexto, como:
- Diminuição da absorção;
- Inadequação da utilização;
- Maior demanda do organismo.
Por isso, existe uma série de riscos envolvidos quando essa vitamina está em níveis deficitários.
A deficiência de ácido fólico pode levar a algumas condições clínicas, tais quais:
- Anemias – principalmente a megaloblástica;
- Má formação fetal – principalmente neurológica;
- Aumento do risco de complicações na gravidez;
- Aumento do risco de doenças cardiovasculares e distúrbios neurológicos.
É preciso destacar que essa deficiência é encontrada em mulheres que não consomem vegetais de folhas verdes, legumes e proteína animal.
Relação entre baixos níveis de ácido fólico e o desenvolvimento de doenças do sistema nervoso central
Baixos níveis de ácido fólico têm sido associados a distúrbios neurológicos, como depressão, demência e problemas cognitivos; além de poder aumentar o risco de acidente vascular encefálico (AVE) e doenças neurodegenerativas.
Como já falamos, o uso ajuda a evitar os defeitos do tubo neural aberto e, por isso, é tão importante que as gestantes sejam devidamente acompanhadas e informadas sobre a necessidade de seguir o plano indicado.
Quando falamos de deficiência do ácido fólico, além da forte relação com o aspecto nutricional dos indivíduos, precisamos pensar em outras possíveis causas, tais como:
- Etilismo
- Gemelaridade
- Doenças inflamatórias intestinais em atividade
- Uso de medicamentos antiepilépticos/anticonvulsivantes
Como reconhecer a deficiência de ácido fólico?
Devido a anemia megaloblástica ser a condição clínica mais associada a deficiência de ácido fólico, seus sintomas são comuns aos da anemia, incluindo:
- Palidez;
- Dispneia;
- Tontura/vertigem;
- Alterações de humor (como irritabilidade);
- Sensação de fraqueza.
Para além desses sintomas, é possível encontrar diarreia, anorexia, perda ponderal e até depressão em casos em que a deficiência se encontra em estágio mais avançado.
Na perspectiva laboratorial, microscópicamente pode ser detectada a hipersegmentação de neutrófilos e eritrócitos jovens com volume aumentado. A eritropoiese megaloblástica é um outro achado possível.
Como tratar a deficiência de ácido fólico?
A base do tratamento para deficiência de ácido fólico é fazer a reposição desse elemento e reforçar orientações nutricionais que incluem o consumo de legumes, vegetais de folha verde e proteína animal.
A partir do uso de 1mg/dia, já é possível observar benefícios a partir do 4º dia da reposição com a normalização de plaquetas, leucócitos e reticulócitos.
Contudo, é válido ressaltar que essa reposição deve ser acompanhada ainda pela reposição de ferro de forma concomitante.
Interações medicamentosas e reações adversas
Alguns medicamentos como anticonvulsivantes, podem interferir na absorção ou na utilização do ácido fólico pelo organismo. Reações adversas podem incluir náuseas, irritabilidade, insônia e distúrbios gastrointestinais, embora sejam mais comuns em doses elevadas (acima de 15mg/dia).
Diante das reações adversas, pode ser utilizado em associação com o metotrexato na tentativa de diminuir tais efeitos.
As principais marcas informam que essa é uma substância contraindicada absolutamente para crianças menores de 12 anos de idade, sendo essa a única contra indicação conhecida até o momento.
É preciso ainda se certificar se o paciente possui intolerância ou alergia à lactose, pois alguns fabricantes incluem esse elemento no desenvolvimento do medicamento, bem como alguns corantes.
Em quadros de superdosagem, está recomendada a adoção de medidas para tratar apenas os sintomas manifestados.
São alguns medicamentos que podem reduzir a absorção do ácido fólico:
- Ácido aminosalicílico;
- Antiácidos;
- Estrogênios;
- Bloqueadores dos receptores H2;
- Carbamazepina.
São medicamentos capazes de reduzir os níveis de ácido fólico:
- Fenobarbital e outros antiepilépticos;
- Primidona;
- Aspirina;
- Cicloserina;
- Fenitoína;
- Metotrexato.
Além disso, é importante saber que o uso pode provocar algumas alterações em exames laboratoriais, tais como alteração dos níveis glicêmicos, glicosúria, transaminases, ácido úrico, creatinina, bilirrubina e sangue oculto nas fezes, por exemplo.
Orientações sobre como indicar a dosagem adequada para a paciente
A dosagem varia de acordo com a idade, condições de saúde e, especialmente, num quadro de gravidez.
Recomenda-se suplementar com 400 a 800 µg/dia para mulheres em idade fértil e em casos de intolerância ou qualquer contraindicação pode-se considerar o metilfolato.
Dessa forma, pacientes com anemia perniciosa ou deficiência de vitamina B12 podem ter dificuldade em metabolizar o ácido fólico. Sendo assim, nesses casos, a suplementação pode ser ineficaz ou até prejudicial, e a correção da deficiência de vitamina B12 é crucial.
Outro caso especial é o de mulheres com histórico de filho(s) anterior com defeito do tubo neural, pois essas devem receber doses superiores de ácido fólico – 4mg/dia, nesse contexto.
Assim, é indispensável alertar os pacientes sobre a interrupção do tratamento por contra própria e seus efeitos no retardo do tratamento da anemia megaloblástica que pode estar associada a deficiência dessa substância.
Além disso, é necessário observar alguns sintomas que podem surgir diante de uma superdosagem, como:
- Náuseas e vômitos;
- Distensão abdominal;
- Flatulência;
- Alteração de paladar;
- Rash cutâneo;
- Alterações do padrão do sono e do nível de consciência;
- Surgimento de comportamento psicótico.
Resumo rápido sobre o uso do ácido fólico
O uso do ácido fólico é recomendado como tratamento da deficiência de ácido fólico associado ou não a anemia não apenas em gestantes, mas em outras populações como adultos e idosos.
Especialmente na gestação, essa substância é utilizada devido a seu papel preventivo em relação a defeitos do tubo neural aberto durante o período pré-concepcional e periconcepcional.
Portanto, é muito útil para prover um ambiente adequado para o desenvolvimento do sistema nervoso central do feto, especialmente no primeiro trimestre da gestação, além de reduzir complicações na gravidez.
Além disso, sua função na eritropoiese e seus benefícios para a saúde materna são outros aspectos que reforçam a importância de seu uso.
Quer se preparar para prática clínica e dominar conteúdos vitais para a saúde da mulher?

Sugestão de leitura complementar
Esses artigos também podem ser do seu interesse:
- Deficiência de Folato: entendendo os conceitos básicos | Colunistas – Sanar Medicina
- Médicos recebem alerta para estimular consumo da vitamina | (cfm.org.br)
- Como utilizar o ácido fólico no período gestacional? – BVS Atenção Primária em Saúde
Veja também o vídeo do Dr. Pedro Caron sobre ácido fólico:
Referências
- OLIVEIRA, r. g. d; Blackbook clínica médica: Medicamentos e rotinas médicas. 2. ed. SP: LTDA, 2014. p. 206-206/535-535.
- ZUGAIB, Marcelo e FRANCISCO, Rossana Pulcineli Vieira. Zugaib obstetrícia. Barueri, SP: Manole, 2020.
- Tratado de Ginecologia FEBRASGO – 1. ed. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
- HALL, Guyton &; Tratado de fisiologia médica. 13. ed. SP: Elsevier, 2017. p. 899-899.
- BOGLIOLO; Patologia. 9. ed. RJ: Koogan, 2016. p. 378-378/1006-1006.