Os acidentes por animais peçonhentos, principalmente os acidentes ofídicos, foram incluídos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na lista de doenças tropicais negligenciadas. Devido ao alto índice de notificações, esse agravo foi incluído dentre os que são de Notificação Compulsória do Brasil, ou seja, todos os casos devem ser notificados à autoridade de saúde competente.
Animais peçonhentos
Conceitua-se como animais peçonhentos aqueles que possuem glândulas de veneno, o qual é injetado com facilidade, seja por meio de ferrões, dentes ocos ou aguilhões. Como exemplo desses animais, pode-se citar: aranhas, escorpiões, serpentes, abelhas, lacraias e arraias.
Diferentemente, os animais ditos venenosos apesar de produzirem veneno, não possuem o aparelho para inoculá-lo. dessa forma, o envenenamento ocorre de forma passiva por meio do contato, da compressão ou pela ingestão.
Epidemiologia
Gráfico 1: Acidentes com Animais Peçonhentos no Brasil, entre o ano de 2018 e 2021
Acidentes ofídicos
Os acidentes ofídicos são o envenenamento em decorrência da picada de serpentes.
No Brasil, há quatro grupos de serpentes que possuem relevância médica, sendo o botrópico, cuja sua principal representante é a jararaca, o acidente mais comum e em segundo lugar está o acidente crotálico, no qual inclui-se a cascavel. No que tange à letalidade, o acidente causado por cascavel é classificado como o pior.
A divisão dos acidentes ocorre em quatro tipos, sendo eles:
- acidentes botrópicos: serpentes dos gêneros Bothrops e Bothrocophias – jararaca, jararacuçu, urutu, caiçaca, comboia;
- acidentes crotálicos: serpentes do gênero Crotalus – cascavel;
- acidentes laquéticos: serpentes do gênero Lachesis – surucucu-pico-de-jaca;
- acidentes elapídicos: serpentes dos gêneros Micrurus e Leptomicrurus – coral-verdadeira.
Acidente botrópico
O veneno desse tipo de acidente possui três principais ações:
- Proteolítica: causa atividade inflamatória intensa nas proximidades da picada. Nas horas seguintes, há dor (intensidade variável), eritema, edema e flogose, podendo estender-se até a raiz do membro. Nos dias seguintes a lesão evolui para equimoses, bolhas e necrose. Deve-se estar atento para a síndrome compartimental e uma possível fasciotomia. Os efeitos no local da picada podem gerar déficit funcional do membro ou até mesmo amputação;
- Coagulante: há a ativação de fatores de coagulação com consumo de fibrinogênio, plaquetas e formação de fibrina intravascular;
- Hemorrágica: compromete a integridade do endotélio vascular. Em conjunto com a ação coagulante, o paciente pode apresentar algumas hemorragias, como: hematúria, epistaxe, hemorragia digestiva e gengivorragia.
Em acidentes leves, as manifestações locais (edema, sangramento, eritema e dor) podem ser discretas ou até mesmo ausentes, assim como as manifestações sistêmicas (hemorragia, choque e anúria), para as situações leves a soroterapia antiofídica recomendada é de 2 a 4 ampolas.
Já nos acidentes moderados, as manifestações locais são evidentes e as sistêmicas ausentes, e aplicam-se de 4-8 ampolas de soro. Nos casos graves, há manifestações intensas (equimose, bolha e necrose) e as sistêmicas estão presentes, necessitando de 8-12 ampolas.
Acidente crotálico
O efeito das diversas toxinas presentes no veneno crotálico causam ação neurotóxica, miotóxica e coagulantes a nível sistêmico, enquanto o efeito local é mínimo.
- ação neurotóxica: efeito neuroparalítico que inicia na cabeça e progride craniocaudalmente; paciente apresenta fácies miastênica, com ptose palpebral, visão turva, diplopia e oftalmoplegia. Além disso, pode ocorrer paralisia do palato mole, diminuição do reflexo do vômito e disfagia.
- ação miotóxica: lesões das fibras musculares, com elevação da mioglobina e excreção urinária; mialgias generalizadas, mioglobinúria e hematúria; elevação de CK, LDH, TGO e TGP. Pode evoluir para insuficiência renal aguda e eleva o risco de óbito.
- ação coagulante: há consumo de fibrinogênio e aumento de TP e TTPA. Pode ter a presença de sangramentos discretos.
Acidente laquético
Mais restritos à região Norte, esses acidentes têm por característica a ação proteolítica, coagulante, hemorrágica e neurotóxica. Nos primeiros 30 minutos o paciente apresenta dor intensa no local, edema, sangramento profuso onde ocorreu a picada, sudorese intensa, dor abdominal e rebaixamento do nível de consciência. Além disso, há efeitos vagomiméticos, tais como diarreia, bradicardia, hipotensão e choque.
Todo acidente laquético deve ser considerado grave, no qual além da administração do soro antiveneno, precisa-se focar na estabilidade hemodinâmica do paciente com infusão de volume, uso de atropina e inotrópicos a fim de evitar a evolução para o choque.
Acidente elapídico
É o mais raro dos acidentes ofídicos no Brasil. O veneno possui ação neurotóxica, sendo que o paciente apresenta náuseas, vômitos, sudorese, ptose palpebral, fácies miastênicas, oftalmoplegia, disfagia, além de paralisia muscular e respiratória. Não é evidente a lesão no local da picada, mas o paciente pode apresentar dor e parestesia discreta.
Especialmente nesse tipo de acidente deve-se estar preparado para a insuficiência respiratória, portanto, ofertar oxigênio, ventilação não invasiva e invasiva. Tendo em vista que o aparecimento dos sintomas pode ser tardio, o paciente deve ser mantido em observação pelo período de 24 horas.
Tratamento para acidentes ofídicos
O tratamento é realizado com a administração do soro antiofídico específico para cada tipo de acidente, assim como conforme a gravidade apresentada. A aplicação do soro é por via endovenosa, diluído ou não, em solução fisiológica ou glicosada.
Quadro 1. Número de ampolas de soro antiofídico indicado para cada tipo de gravidade do acidente
Acidentes escorpiônicos
Em nosso país as espécies de relevância médica são: Tityus serrulatus (escorpião amarelo) encontrado entre a Bahia e o Paraná, o qual apresenta boa adaptação ao meio urbano e é o responsável pelos casos de maior gravidade. T. bahiensis (escorpião marrom) que distribui-se por todo território nacional, com exceção da região Norte, e T. stigmurus mais comum na região Nordeste.
O veneno provoca a liberação de neurotransmissores, como catecolaminas e acetilcolina; no geral, os acidentes tendem a ser leves e os casos mais graves são mais presentes em crianças e na população idosa.
A principal manifestação local é a dor, a qual pode ser acompanhada de parestesia, eritema e sudorese. Nos casos graves, o paciente ainda pode apresentar sintomas neurológicos, miose ou midríase, priapismo, aumento de secreções, bradicardia, insuficiência cardíaca, edema agudo de pulmão, choque, convulsões e coma.
Na abordagem a esses pacientes deve-se solicitar hemograma, glicemia, potássio, sódio, amilase, creatinoquinase e eletrocardiograma. Nos quadros graves solicita-se, também, troponina e ecocardiograma.
Tratamento para acidentes escorpiônicos
Para os acidentes leves o tratamento pode ser realizado com a aplicação de anestésico local e manter o paciente em observação pelo período de 4 a 6 horas.
Em acidentes moderados indica-se a aplicação de 2 a 3 ampolas de soro antiveneno. Já no que tange aos acidentes graves deve-se aplicar 4 a 6 ampolas. Tanto nos casos moderados, quanto graves os pacientes devem ser monitorizados por, no mínimo, 24 a 48 horas.
Acidentes por aranhas
No Brasil, as aranhas que têm importância em saúde pública pertencem a três gêneros:
- Loxoceles (aranha-marrom): como não são agressivas, os acidentes ocorrem quando o animal é comprimido contra o corpo. A picada é quase imperceptível. As manifestações clínicas caracterizam-se pela forma cutânea, na qual o paciente apresenta dor de pequena intensidade e o local acometido pode apresentar palidez mesclada com áreas de equimose (“placa marmórea”). Já na forma cutâneo-hemolítica, o paciente pode ter hemólise intravascular, sendo a principal complicação a injúria renal aguda. O quadro clínico pode ainda incluir febre, mal-estar geral, fraqueza, náuseas, vômitos e mialgia.
- Phoneutria (aranha-armadeira): são bastante agressivas e podem saltar uma distância de até 40 cm. O sintoma mais frequente é a dor imediata, de intensidade variável. Outras manifestações incluem edema, eritema, parestesia e sudorese no local da picada.
- Latrodectus (viúva-negra): não são agressivas. Dentre os sintomas estão dor no local da picada, suor generalizado e alterações na pressão arterial e nos batimentos cardíacos.
Tratamento para acidentes por aranhas
Quadro 2. Número de ampolas de soro antiaracnídico de acordo com a gravidade do paciente
Autor: Liamara F. Scrovonski
Instagram: https://www.instagram.com/liamara_scrovonski/

Referências
SINANWEB – Acidente por Animais Peçonhentos. http://portalsinan.saude.gov.br/acidente-por-animais-peconhentos. Acesso em 23 de Janeiro de 2022.
Alves, BIREME /. OPAS /. OMS-Márcio. Picadas de insetos e animais peçonhentos – parte 1 | Biblioteca Virtual em Saúde MS. https://bvsms.saude.gov.br/picadas-de-insetos-e-animais-peconhentos-parte-1/. Acesso em 23 de Janeiro de 2022.
Acidentes por Animais Peçonhentos». Ministério da Saúde, https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-peconhentos/acidentes-por-animais-peconhentos-o-que-fazer-e-como-evitar. Acesso em 23 de Janeiro de 2022.
Acidentes por aranhas». Ministério da Saúde, https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-peconhentos/acidentes-por-aranhas. Acesso em 25 de Janeiro de 2022.
BRASÍLIA. GERSON OLIVEIRA PENNA. et al (ed.). Guia de Vigilância Epidemiológica. 2009. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_epidemiologica_7ed.pdf. Acesso em: 25 jan. 2022.
MARCHINI, Júlio Flávio Meirelles; NETO, Rodrigo Antônio Brandão. Acidentes relacionados a animais peçonhentos. In: VELASCO, Irineu Tadeu et al, (ed.). Medicina de Emergência: Abordagem Prática. 14ª. ed. Barueri: Manole Ltda, 2020. cap. 115, p. 1548-1560. ISBN 9788520462553.
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