Tudo que você precisa saber sobre os tipos de acidentes com animais peçonhentos e condutas!
Os animais peçonhentos são um grupo de animais que produzem peçonha (veneno) e são capazes de injetar o veneno – através de dentes, ferrão e etc – na presa ou no predador.
Os acidentes peçonhentos mais frequentes no Brasil são com serpentes, aranhas e escorpiões. Mas esses, não são os únicos: há também os acidentes com abelhas, mariposas, formigas, lacraias e águas-vivas.
O acidente, seja ele com serpente ou com escorpião, possui condutas padronizadas que requerem um conhecimento médico á cerca do animal responsável por tal feito, sendo muito das vezes necessário um atendimento rápido para salvar a vida do paciente.
Acidentes ofídicos
Os acidentes ofídicos são aqueles produzidos por serpentes, no Brasil os acidentes que possuem maior relevância, são dos gêneros:
- Bothrops
- Crotalus
- Lachesis
- Micrurus
As serpentes podem ser peçonhentas e não peçonhentas, e na maioria das vezes, a distinção se dá pela fosseta loreal, (orifício entre os olhos e a fossa nasal) presente em serpentes peçonhentas. As serpentes peçonhentas também podem apresentar anéis coloridos (pretos, vermelhos e/ou brancos).
Acidente Botrópico
São responsáveis por mais de 85% dos acidentes produzidos por serpentes. Dentro do gênero Bothrops, a serpente mais conhecida é a Jararaca.
No local da picada o paciente apresenta dor, edema precoce e sangramento, pois o veneno gera um quadro inflamatório e hemorrágico. As principais complicações são:
- Síndrome compartimental: por edema que comprime o feixe vasculonervoso.
- Infecções: a boca da serpente pode estar inundada de germes.
- Insuficiência renal: ação do próprio veneno sobre o rim ou pela hipoperfusão gerada pela hipotensão arterial.
Não deve ser realizado incisão ou torniquete no local da picada, e muito menos a sucção do veneno. A conduta é realizada mediante a classificação de gravidade:
| Gravidade | Quadro clínico | Conduta |
| Leve | Dor e edema pouco evidente, hemorragia discreta. | Uso de três ampolas de soro antibotrópico (SAB) por via IV. |
| Moderado | Dor e edema evidente, que ultrapassam o segmento anatômico. Pode estar acompanhado de hemorragias à distância: epistaxes, hematêmese e hematúria. | Uso de seis ampolas de SAB por via IV. |
| Grave | Dor e edema endurado. Pode estar acompanhado de bolhas e de sinais de isquemia (síndrome compartimental).Presença de hipotensão arterial, choque, anúria e hemorragia intensa. | Uso de doze ampolas de SAB por via IV. |
Além do soro, é importante manter o paciente hidratado, fazer alivio da dor com analgésicos e se houver indícios de infecção, fazer uso de antibióticos. Na falta do SAB, administrar antibotrópico-laquética (SABL) ou antibotrópico-crotálica (SABC).
Acidente Crotálico
São responsáveis por quase 10% dos acidentes produzidos por serpentes. Dentro do gênero Crotalus, a serpente mais conhecida é a Cascavel (a que possui chocalho).
O acidente por Crotálicos gera um quadro clinico bem diferente do acidente por Botrópicos, pois o veneno desse gênero de serpente gera um quadro neurotóxico e miotóxico. O paciente pode apresentar a face miastênica: oftalmoplegia, ptose palpebral e diplopia. Além disso, acompanha o quadro: mialgia, e diferente do acidente por Botrópicos, o paciente refere pouca dor no local da picada.
A conduta é realizada mediante a classificação de gravidade:
| Gravidade | Quadro clínico | Conduta |
| Leve | Face miastênica ausente e sem alteração na cor da urina | Uso de cinco ampolas de Soro anticrotálico (SAC) por via EV. |
| Moderado | Face miastênica evidente e a urina pode ter alteração na cor. | Uso de dez ampolas de SAC por via EV. |
| Grave | Face miastênica intensa, e há presença de alteração na cor da urina (escura). | Uso de vinte ampolas de SAC por via EV. |
Acidentes escorpiônicos
Os acidentes no Brasil produzidos por escorpiões que possuem maior relevância são pertencentes ao gênero Tityus, são eles:
- T. serrulatus: escorpião amarelo
- T. bahiensis: escorpião marrom
Os escorpiões predominam nas zonas tropicais, maiormente no verão – uma estação quente e que chove muito, eles possuem hábitos noturnos, sendo comum a histórica clinica de um paciente com dor no local, acompanhada de manifestações sistêmicas, como: diarréia, sialorreia, vômitos, dispnéia e confusão mental.
O tratamento é feito com soro antiescorpiônico em casos moderados e graves, e em casos leves o tratamento é feito com analgésico.
Acidentes por aracnídeos
Os acidentes no Brasil produzidos por aranhas que possuem maior relevância são pertencentes aos gêneros:
- Phoneutria: aranha armadeira/ aranha macaca
- Loxosceles: aranha marrom
A picada da aranha armadeira produz dor imediata no paciente. O sitio da picada pode manifestar edema, eritema e sudorese. No exame físico, o médico pode observar a marca de dois pontos decorrente da picada. O tratamento sintomático é feito com infiltração anestésica local, e em casos de acidentes graves é indicado à soroterapia.
A picada da aranha marrom é considerada o acidente mais grave no Brasil por acidentes aracnídeos. O paciente refere dor em queimação. No Exame físico é comum encontrar febre, cefaléia, exantema morbiliforme, vômitos e diarréia.
O tratamento é indicado para pacientes graves, com soro antiloxoscélico (SA-Lox) ou com soro antiaracnídico (SAAr).

Autora: Jaqueline Assunção
Instagram: JaqueeAssuncaoo
Referências
COSTA, A. F.; CROZATTI, L. L. Apostila Base da Medicina 2022: Clínica Médica VI – Infectologia e Terapia Intensiva.
Estadão. Arranha marrom – Loxosceles gaucho.
FERNANDA, B. Jararaca é venosa? Onde vivem?. Portal dos animais.com.
Instituto Butantan. Escorpiões: quem são essas formas de vida que há 450 milhões de anos habitam a Terra? Disponível em: https://butantan.gov.br/noticias/escorpioes-quem-sao-essas-formas-de-vida-que-ha-450-milhoes-de-anos-habitam-a-terra Acesso em: 08/05/2022
MACHADO, C. Acidentes com cobras: o que fazer? Disponível em: https://saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra/acidentes-com-cobras-o-que-fazer/ Acesso em: 07/05/2022
Ministério da Saúde. Acidente por escorpiões.
Museu de Zoologia e extensão da ciência. Aranha – armadeira Disponível em: www.muzec.com.br/2020/06/aranha-armadeira.html Acesso em: 08/05/2022
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