Puerpério compreende o período do final do terceiro estágio do trabalho de parto até o retorno do organismo ao estado pré-concepcional, podendo durar de 6 semanas até meses (no caso de amamentação)1.
No ponto de vista de uma abordagem integral e centrada na pessoa, é fundamental que, durante esse momento, leve-se em consideração questões psicológicas, culturais, econômicas e subjetivas, a fim de trazer maior qualidade de vida para a pessoa, a criança e a família.
Então, aspectos que envolvem o suporte e a educação autônoma, para ter bem estar nessa adaptação, faz parte da promoção à saúde, de modo que se sintam confortáveis a dividir as angústias e, assim, ter maior resolutividade nas condutas.
Aspectos da anamnese
Levando em consideração a individualidade de cada pessoa, a centralidade no indivíduo é parte crucial na escuta efetiva no período puerperal, porque assim se pode conseguir entender a dinâmica da pessoa nesse período e os sentimentos envolvidos nesse processo. Além disso, a participação ativa ajuda a desenvolver autonomia na hora de realizar as condutas e mostra respeito com os desejos subjetivos.
Com isso, é muito importante levar em conta: estado emocional, suporte familiar, tanto de rede de apoio quanto de cônjuge, as estratégias cotidianas de adaptação que estão acontecendo, seja familiar ou individual, bem como o processo de relação afetiva com bebê1. Acima disso, o estado geral, como sono e alimentação são grandes fatores a serem considerados também2.
Outras dessas questões, principalmente se o pré-natal foi realizado por profissional diferente, envolvem as condições da gestação, o rastreamento no pré-natal – exames de ISTs –, hipertensão e verificação de uso de drogas e outras substâncias, vacinações, o uso de medicamentos ou outras automedicações, a identificação de sinais de risco (amarelos ou vermelhos) e a amamentação1.
Alertas amarelos
Algumas questões frequentes que devem ser manejadas no puerpério incluem:
Dor no períneo
Nesses casos, realizar avaliação perianal para verificar existência de feridas, lacerações, infecções. Pode-se orientar sobre a utilização de compressas frias na região e sobre a importância de higiene no local, nas mãos e na troca de absorventes regulares2.
Dispareunia
Essa condição pode estar associada com alterações vaginais e patologias como edema, congestão e atrofia, que podem regredir após um tempo. Essa queixa também pode estar associada com modificações na vulva e no soalho pélvico por causa do trabalho de parto3. Algumas condutas ajudam nesses casos, como a utilização de gel lubrificante à base de água para controle do desconforto e conversa sobre sentimentos em relação às atividades sexuais2.
Incontinência urinária e/ou fecal
Esses casos têm alguns fatores de risco que são interessantes de serem levados em conta mesmo antes da realização do parto – o uso de fórceps, lacerações, tabagismo – e pesquisados durante as consultas4. Uma prevenção efetiva contra essa condição são os exercícios de fortalecimento do soalho pélvico1.
Constipação
A constipação pode ser manejada com avaliação da alimentação, observando a ingestão de líquidos, e fibras auxiliam nessa fase2.
Hemorroidas
Podem ser diminuídas controlando a constipação2.
Dor nas costas
Essa situação comum deve ser avaliada de acordo com as variáveis, podendo ter ajuda com a melhora da postura na amamentação e com cuidados na hora de carregamento do bebê1.
Cefaleia
Cuidados que se fazem presentes são: avaliação de pré-eclâmpsia – se associada à hipertensão ou proteinúria – e exame de imagem, caso resistente à terapia usual ou com doenças neurológicas concomitantes. Porém, nos casos de normotensão, verifica-se antecedentes e, sobretudo, cefaleia tensional5, o que se beneficia com técnicas de relaxamento e retirada de fatores desencadeantes2.
Fadiga
A fadiga persistente deve ser vista de forma multifatorial, avaliando o bem estar geral, com apoio em relação à realização das atividades diárias desde a alimentação até o tempo dedicado a si e ao bebê e perpassando pela anemia até causa psicológica2.
Depressão pós-parto
Essa condição é muito delicada e deve ser tratada como tal, porque interfere em muitos aspectos da vida, tanto pessoal quanto familiar, podendo dificultar algumas condutas6. Existem muitas alternativas e estudos para lidar com ela, como intervenções comportamentais, suplementações, fototerapias, massagens, acupuntura7, que devem ser pensadas individualmente e sempre ouvindo os desejos da pessoa, com muita compreensão e apoio.
Alertas vermelhos
Nessas condições, há necessidade de referenciamento para a emergência.
Pré-eclâmpsia/eclâmpsia
É uma condição que deve ser muito cuidada e envolve alguns sintomas neurológicos como cegueira cortical, cefaleia, mal estar, vômitos não relacionados a outras causas2.
Hemorragia pós-parto
Pode ser uma perda de sangue persistentemente aumentada ou de qualquer intensidade que acompanhe fraqueza, tontura ou palpitação/taquicardia1, mas como não se há consenso sobre como quantificar essa perda sanguínea, recomenda-se que seja considerada toda perda de sangue que afete o equilíbrio hemodinâmico do corpo2.
Tromboembolia
Alguns sinais de alerta para isso são dor na panturrilha, hiperemia ou edema, dispneia, dor no peito1 e fatores de risco, além dos da população em geral, devem ser observados: hiperêmese, desidratação, infecção grave, pré-eclâmpsia, perda de sangue excessiva, viagens longas, parto instrumental e prolongado e imobilização pós-parto2.
Sepse
Sinais presentes, sobretudo a febre persistente, pode estar acompanhada de calafrios, dor abdominal, subinvolução uterina e/ou importante perda de sangue vaginal1. Pode ser causada por vários fatores, como infecção de feridas operatórias, mas a principal causa é infecção no trato genital, principalmente uterina2.
Problemas associados à amamentação
Deve sempre haver encorajamento para dividir angústias e dificuldades em relação à amamentação, visto os estudos que mostram os benefícios dela, de forma a ouvir e a respeitar todo o processo envolvido com o bebê e observar fatores facilitadores e dificultadores, a fim de melhorar a conduta e a qualidade de vida.
Dor mamilar e fissuras mamilares
Mamilos podem apresentar eritema, edema, fissuras, bolhas, marcas brancas, amarelas ou escuras e equimoses. Além disso, é frequente que a criança apresente agitação e choro por causa da prega incorreta não permitir que se consiga retirar leite suficiente. Outra causa pode ser uma infecção secundária, como cândida, que pode gerar sensação de prurido, queimadura ou fisgada, persistindo após as mamadas3,9. Raramente, pode-se observar palidez por causa de vasoespasmos que costumam doer bastante após as mamadas (fenômeno de Raynaud)9.
Na orientação, é interessante falar que isso acontece no começo do processo de amamentação e não deve persistir2, sendo importante corrigir a prega e orientar, sempre que der, sobre os obstáculos9, para que essa fase seja levada da forma mais saudável possível.
Mamas ingurgitadas
Acontecem por estese linfática e venosa e obstrução de ductos lactíferos, causando dor e podendo causar febre2,3.
Para a conduta, mamadas prolongadas nas mamas afetadas, massagem e maior ingestão de água se mostram benéficas2.
Mastite
Sinal de inflamação local que pode aparecer em casos de ingurgitação não tratada de forma devida, com sintomas incluindo mal estar e febre2,3,9. O esvaziamento da mama faz parte do tratamento para mastite e formas que ajudam nesse esvaziamento, como massagem e a própria amamentação, são benéficas1,2,3.
Abscesso mamário
Pode ser visto com a palpação, mas nem sempre se pode excluir sua presença pelo exame clínico. Toda ação que previna a mastite irá prevenir o abscesso9.
Conclusão
Então, o puerpério é uma fase que demanda muito cuidado e apoio, tanto no individual quanto no coletivo, porque influencia a família e o processo de adaptação com o bebê, fazendo parte da saúde tornar esse processo o mais tranquilo possível. E com a abordagem centrada na pessoa, se permite a escuta qualificada e empática, sempre com apoio às realidades de todos os envolvidos.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS:
1. Tratado de medicina de família e comunidade: princípios, formação e prática [recurso eletrônico] /Organizadores, Gustavo Gusso, José Mauro Ceratti Lopes, Lêda Chaves Dias; [coordenação editorial: Lêda Chaves Dias]. – 2. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2019. 2 v. Ana Cristina Vidor, capítulo 133, pág 3339-3366.
2. National Collaborating Centre for Primary Care. Postnatal care. Routine postnatal care of women and their babies. London: Royal College of General Practitioners; 2006.
3. Brasil. Ministério da Saúde. Pré-natal e puerpério: atenção qualificada e humanizada. Brasília: Ministério da Saúde; 2005.
4. Guise JM, Morris C, Osterweil P, Li H, Rosenberg D, Greenlick M. Incidence of fecal incontinence after childbirth. Obstet Gynecol. 2007;109(2 Pt 1):281-8.
5. Stella CL, Jodicke CD, How HY, Harkness UF, Sibai BM. Postpartum headache: is your work-up complete? Am J Obstet Gynecol. 2007;196(4):318.e1-7.
6. Haran C, van Driel M, Mitchell BL, Brodribb WE. Clinical guidelines for postpartum women and infants in primary care–a systematic review. BMC Pregnancy Childbirth. 2014;14:51.
7. Deligiannidis KM, Freeman MP. Complementary and alternative medicine therapies for perinatal depression. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2014;28(1):85-95.
8. Moussa HN, Alrais MA, Leon MG, Abbas EL, Sibai BM. Obesity epidemic: impact from preconception to postpartum. Fut Sci OA. 2016;2(3):FSO137
9. Giugliani ERJ. Problemas comuns na lactação e seu manejo. J Pediatr (Rio J). 2004;80(5 Supl):S147- S54.