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Ablação cardíaca: princípios eletrofisiológicos e indicações clínicas

Profissional de saúde auscultando o tórax de um paciente com estetoscópio, em contexto de avaliação para ablação cardíaca.

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A ablação cardíaca por cateter ocupa um lugar central na terapêutica das arritmias, sobretudo porque o eletrofisiologista consegue intervir diretamente no substrato eletrofisiológico responsável por início e manutenção do ritmo anômalo.

Além disso, o procedimento permite combinar diagnóstico mecanístico e tratamento definitivo no mesmo ato, o que, por sua vez, reduz recorrência, sintomas e uso crônico de fármacos em cenários bem selecionados.

Fundamentos eletrofisiológicos que sustentam a ablação

O miocárdio gera e conduz potenciais de ação por meio de correntes iônicas transmembrana, e, consequentemente, qualquer alteração em automatismo, disparos deflagrados ou condução pode produzir arritmias. Portanto, antes de definir o alvo, o eletrofisiologista precisa reconhecer o mecanismo predominante, porque cada mecanismo “pede” uma lógica de ablação diferente.

Automatismo e focos ectópicos

O automatismo fisiológico nasce no nó sinusal; entretanto, tecidos atriais, juncionais ou ventriculares também podem adquirir automatismo aumentado em contextos como estresse adrenérgico, distúrbios hidroeletrolíticos, hipoxemia ou inflamação. Assim, um foco automático tende a “dirigir” o ritmo com aceleração gradual (warm-up) e desaceleração gradual (cool-down). Nesse contexto, o eletrofisiologista busca o ponto de ativação mais precoce no mapeamento e, em seguida, entrega energia para silenciar o foco.

Atividade deflagrada (afterdepolarizations)

Além do automatismo, disparos deflagrados surgem a partir de pós-despolarizações precoces ou tardias, frequentemente moduladas por cálcio intracelular e catecolaminas. Por isso, extrassístoles e taquicardias focais podem depender de gatilhos intermitentes, o que exige, portanto, provocação farmacológica e reprodutibilidade no laboratório para orientar o alvo.

Reentrada: o mecanismo “clássico” de muitas taquiarritmias

A reentrada exige, em termos práticos, (i) um circuito anatômico ou funcional, (ii) heterogeneidade de condução e (iii) diferença regional de refratariedade, de modo que a frente de onda encontre tecido recuperado e consiga perpetuar o circuito.

Assim, a ablação funciona como “interrupção” do istmo crítico, porque o operador cria uma lesão linear ou focal que bloqueia a condução na região necessária ao circuito. Consequentemente, taquicardias por reentrada costumam responder muito bem quando o operador identifica e elimina o istmo obrigatório.

Como a ablação cria lesões: energia, contato e biologia tecidual

A ablação depende de lesão miocárdica controlada; portanto, o operador precisa entender como energia, tempo, contato e resfriamento interagem.

Radiofrequência (RF)

A RF entrega corrente alternada que aquece o tecido por aquecimento resistivo próximo ao eletrodo e, em seguida, por condução térmica para camadas mais profundas. Assim, o operador busca temperatura e potência que produzam necrose coagulativa transmural quando necessário, porém sem carbonização ou “steam pop”.

Além disso, a irrigação do cateter permite maior potência com menor superaquecimento superficial, o que, por consequência, amplia profundidade e segurança em muitos alvos.

Crioablação

A crioenergia reduz a temperatura tecidual, forma cristais de gelo e altera membranas celulares, o que culmina em necrose. Portanto, a crioablação oferece vantagens específicas em regiões com risco de bloqueio AV, porque o operador consegue testar efeito com “criomapeamento” antes de consolidar lesão permanente.

Ainda assim, o médico precisa reconhecer que a física térmica muda, e, consequentemente, a durabilidade pode variar conforme anatomia, contato e tempo de congelamento.

Contato e estabilidade

O cateter precisa manter contato consistente com o miocárdio; caso contrário, o operador cria lesões superficiais e descontínuas e, portanto, aumenta recorrência. Além disso, movimentos respiratórios, contractilidade e geometria atrial/ventricular desafiam estabilidade, de modo que sistemas de navegação, força de contato e bainhas direcionáveis frequentemente melhoram consistência.

Mapeamento: do eletrograma ao alvo terapêutico

A ablação moderna integra mapeamento eletroanatômico, fluoroscopia seletiva, ecocardiografia intracardíaca e sinais intracavitários. Assim, o operador transforma eletrogramas em hipóteses mecanísticas e, em seguida, testa essas hipóteses com estimulação programada.

Estratégias principais

  • Mapeamento de ativação: o operador procura o ponto mais precoce em taquicardias focais; além disso, ele reconstrói sequência de ativação para reconhecer circuitos macroreentrantes
  • Mapeamento de entrainment: o operador estimula durante taquicardia sustentada e, portanto, identifica se o local participa do circuito
  • Mapeamento de substrato: sobretudo em taquicardia ventricular associada a cicatriz, o operador identifica áreas de baixa voltagem, potenciais tardios e canais de condução lenta; assim, ele direciona ablação para reduzir “vias” capazes de sustentar reentrada.

Indicações clínicas: quando a ablação muda desfecho, sintomas e qualidade de vida

O raciocínio clínico começa com três perguntas, e, portanto, o médico deve responder a todas:

  • A arritmia causa sintomas relevantes ou risco clínico?
  • A ablação oferece alta probabilidade de controle com risco aceitável?
  • O paciente deseja estratégia invasiva após discussão estruturada?

Taquicardias supraventriculares (TSV) por reentrada (AVNRT e AVRT)

O eletrofisiologista frequentemente indica ablação como terapia de primeira linha para AVNRT e para AVRT associada a via acessória, sobretudo quando o paciente apresenta sintomas, recorrências, limitação funcional ou intolerância a fármacos. Além disso, a ablação costuma oferecer altas taxas de sucesso, e, consequentemente, reduz idas a pronto atendimento e uso crônico de antiarrítmicos.

Ainda assim, o operador deve ponderar risco de bloqueio AV em alvos septais; por isso, ele seleciona energia, cateter e estratégia com foco em segurança do sistema de condução.

Taquicardia atrial focal e taquicardias juncionais

Quando a taquicardia atrial focal provoca palpitações persistentes, taquicardiomiopatia ou falha terapêutica medicamentosa, o médico frequentemente recomenda ablação. Assim, o operador busca ativação atrial precoce e correlaciona com morfologia de onda P e sequência intracavitária.

Da mesma forma, ele tenta reproduzir a arritmia com isoproterenol ou estimulação, porque a reprodutibilidade aumenta precisão do alvo.

Flutter atrial típico (cavotricuspídeo-dependente)

O flutter típico representa um exemplo paradigmático de macroreentrada com istmo anatômico definido; portanto, a ablação do istmo cavotricuspídeo costuma oferecer controle robusto. Além disso, muitos pacientes apresentam sintomas intensos e frequência ventricular elevada, e, consequentemente, o procedimento frequentemente reduz recorrência e necessidade de cardioversões.

Ainda assim, o clínico deve manter vigilância para fibrilação atrial coexistente, porque muitos pacientes alternam mecanismos ao longo do tempo.

Na imagem abaixo observa-se a representação esquemática do circuito de reentrada (seta vermelha) do flutter atrial típico (tipo 1). O impulso de reentrada gira no sentido anti-horário ao redor do anel tricúspide (AT). A crista terminal (CT) e a rede de Eustáquio (RE) funcionam como linhas de bloqueio, impedindo que o impulso “corte caminho” pelo anel. A ablação é realizada no istmo entre a veia cava inferior (VCI) e o anel tricúspide, que é uma parte obrigatória do circuito.

Fonte: UpToDate, 2025.

Fibrilação atrial (FA): princípios e indicações práticas

Na FA, o operador normalmente direciona o tratamento para isolamento elétrico das veias pulmonares, porque disparos oriundos dessas veias frequentemente iniciam episódios, sobretudo em FA paroxística. Assim, o eletrofisiologista cria linhas de lesão circunferenciais ao redor dos antros das veias pulmonares e confirma isolamento por critérios eletrofisiológicos. Além disso, em FA persistente, o médico pode considerar estratégias adicionais em casos selecionados, porém ele precisa balancear complexidade e risco incremental.

Do ponto de vista clínico, o médico costuma considerar ablação quando o paciente apresenta FA sintomática, quando ele não tolera antiarrítmicos, ou quando ele mantém recorrências apesar de terapia medicamentosa bem conduzida. Além disso, em alguns cenários, o médico escolhe ablação precocemente para controle de ritmo, sobretudo quando o paciente valoriza melhora de sintomas e redução de carga arrítmica. Ainda assim, o clínico precisa alinhar expectativas: a ablação reduz recorrência e melhora qualidade de vida em muitos pacientes, porém ela não elimina totalmente risco de recorrência, e, portanto, o seguimento clínico e a gestão de comorbidades permanecem mandatórios.

Comorbidades e substrato: por que a ablação não atua sozinha

A FA “nasce” e “amadurece” em terreno favorável: hipertensão, apneia do sono, obesidade, álcool, cardiopatias estruturais e inflamação atrial contribuem para remodelamento elétrico e estrutural. Assim, quando o clínico trata agressivamente esses fatores, ele aumenta durabilidade do controle de ritmo após ablação.

Portanto, o plano terapêutico deve integrar perda ponderal quando indicada, controle pressórico, manejo de apneia, redução de álcool e otimização de insuficiência cardíaca.

Anticoagulação e segurança tromboembólica

Mesmo quando o paciente mantém ritmo sinusal após ablação, o médico precisa basear anticoagulação no risco tromboembólico (por exemplo, escores clínicos) e não apenas na percepção de “cura”.

Portanto, o cardiologista deve individualizar decisão, e, além disso, deve monitorar recorrências silenciosas, porque muitos pacientes não percebem episódios.

Taquicardia ventricular (TV) e extrassístoles ventriculares (EV)

Em TV associada a cardiomiopatia isquêmica ou não isquêmica, a ablação pode reduzir carga de TV e choques de CDI, sobretudo quando o paciente apresenta tempestade elétrica ou recorrências apesar de fármacos. Assim, o operador frequentemente combina mapeamento de substrato (cicatriz) com ablação de canais e potenciais tardios. Além disso, ele planeja acesso endocárdico e, quando necessário, epicárdico, embora isso aumente complexidade e exija seleção cuidadosa.

Em EV frequentes, o clínico deve suspeitar de taquicardiomiopatia induzida por extrassístoles quando o paciente apresenta disfunção ventricular sem outra causa evidente e alta carga de EV no Holter. Assim, a ablação do foco pode melhorar fração de ejeção e sintomas em casos selecionados, sobretudo quando o foco apresenta anatomia acessível e boa reprodutibilidade no laboratório. Ainda assim, o médico deve excluir causas estruturais e otimizar terapia clínica concomitante.

Riscos, complicações e como o médico reduz eventos adversos

Qualquer procedimento invasivo envolve risco; portanto, o médico precisa discutir complicações com clareza e registrar consentimento informado robusto. Além disso, a equipe deve reduzir risco por padronização de anticoagulação, imagem e monitorização.

Complicações possíveis incluem tamponamento por perfuração, lesão vascular, tromboembolismo, estenose de veias pulmonares (quando o operador ablaciona de forma muito ostial), lesão esofágica em ablação de parede posterior do átrio esquerdo, além de bloqueio AV em alvos septais. Assim, o laboratório deve usar monitorização apropriada (por exemplo, ecocardiografia intracardíaca quando disponível), controle de anticoagulação e técnicas que privilegiem lesões antrais em FA. Por fim, o seguimento pós-procedimento deve rastrear recorrência, ajustar fármacos e manejar fatores de risco, porque a durabilidade depende de intervenção contínua e não apenas do ato ablativo.

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Referências bibliográficas

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