1. Introdução
Nas ciências médicas é muito comum nos
depararmos com as famosas tríades, um conjunto de sinais e/ou sintomas que
dizem respeito à uma patologia em questão e levam o nome dos estudiosos que as
documentaram (epônimos). Como foi visto no artigo ‘’Se
vira nos 3’’: 10 tríades clássicas na medicina que você precisa conhecer de
Wallyson Pablo de Oliveira – Colunista Sanar, evidenciando as 10 tríades mais
faladas na medicina. Elas são usadas a fim de facilitar o diagnóstico, pois com
a identificação de seus componentes no paciente, sabe-se muito a respeito de
determinada doença.
Nesse universo, encontramos a Tríade de Virchow (Figura 1), que identifica a formação de trombos nos leitos vasculares ou até nas próprias câmaras cardíacas, devido a desequilíbrios da hemostasia nesses locais.
Trazida à luz por Rudolf Virchow, patologista e político alemão, que foi considerado o pai da patologia moderna, no ano de 1884, é composta pela lesão endotelial, alterações do fluxo sanguíneo normal (turbulência ou estase venosa) e um estado de hipercoagulabilidade, que serão descritos adiante. As tríades são tão famosas na faculdade que eu já me deparei com muitas logo nos primeiros períodos. E você, me conta se já conhece essa e que outras você já se deparou.
Recomendação de leitura: https://www.sanarmed.com/se-vira-nos-3-10-triades-classicas-na-medicina-que-voce-precisa-conhecer-colunistas

2. A tríade
2.1) Lesão endotelial
Esse componente envolvido na tríade é de extrema importância, visto que pode ocorrer tanto independente de outros fatores, quanto devido a alterações do fluxo sanguíneo normal, levando à formação do trombo, como veremos adiante.
A lesão pode ocorrer dentro das câmaras cardíacas, no leito arterial ou venoso, promovendo a exposição da matriz extracelular subendotelial, permitindo a adesão e ativação plaquetárias, favorecendo a formação trombótica pela liberação de seus grânulos e alterações em sua forma. Ocorre também a exposição do fator tecidual pelo endotélio, que perdeu sua integridade, promovendo dessa forma, a ativação da via extrínseca da cascata de coagulação (Figura 2).
Além desses fatores coagulantes, o endotélio lesado é capaz de promover a redução de substâncias que promovem a anticoagulação, como o PGI2 (prostaciclina) e os ativadores de plasminogênio. Uma situação clínica onde a lesão endotelial possui grande relação é o processo de aterosclerose nas artérias.
Acredita-se que a exposição a diversos componentes nocivos, como a fumaça do cigarro, produz um estado de dano tecidual crônico, que contribuirá junto com outros fatores, como a oxidação de partículas de LDL, para a formação da placa aterosclerótica. Com a instalação da placa, o fluxo sanguíneo é comprometido, podendo predispor o organismo a diversas patologias, como o infarto agudo do miocárdio.

2.2) Alterações no fluxo sanguíneo
normal (turbulência ou estase venosa)
Fisiologicamente, o caminho que o sangue percorre dentro de um vaso obedece a um fluxo laminar, onde as plaquetas se movimentam no meio do vaso, separadas do endotélio por uma zona clara de plasma que possui um fluxo mais lento e, dessa maneira, o tecido dos vasos se mantém íntegro.
Porém, com a ocorrência de alterações nesse fluxo, seja por uma turbulência ou por estase sanguínea, o fluxo laminar é interrompido, os fatores responsáveis pela coagulação e anticoagulação perdem sua homeostase e há uma maior ativação dos componentes celulares do endotélio, pela lesão desse tecido, predispondo à ocorrência de trombos.
Uma situação muito comum na prática clínica que cursa com o quadro de estase venosa gerando trombos é a estenose da válvula mitral, que ocorre principalmente por cardiopatia reumática. Com a válvula estenosada, há dificuldade em sua abertura, fazendo com que o sangue passe a ficar mais represado no átrio esquerdo, ao invés de seguir um fluxo normal em direção ao ventrículo esquerdo, logo a câmara começa a sofrer dilatação e, somado a isso, muitas vezes acontece conjuntamente a fibrilação atrial.
A conjunção da arritmia com um átrio expandido promove uma estase sanguínea importante, por isso é muito comum nesses quadros encontrar a formação de trombos intracavitários, que podem até mesmo se desprender e embolizar.
2.3) Hipercoagulabilidade
O estado de hipercoagulabilidade pode ser definido como qualquer alteração na via de coagulação sanguínea, como deficiência de moléculas anticoagulantes e até excessos de componentes responsáveis pela coagulação sanguínea, podendo ser por causas genéticas ou adquiridas.
Uma causa fisiológica e transitória de hipercoagulabilidade muito comum nas mulheres é a gravidez, por conta de um estado hiperestrogênico causado pelos hormônios, que com o passar dos trimestres gestacionais, propicia o aumento dos fatores de coagulação, culminando em elevação da trombina, juntamente com a diminuição de algumas substâncias anticoagulantes, como a proteína S e antitrombina, por isso, é necessário para as mulheres grávidas que realizem atividades físicas, a fim de diminuir a estase venosa, contrabalanceando com seu estado hipercoagulável, reduzindo assim as chances de desenvolver um trombo.
3. Conclusão
Nota-se, portanto, que a lesão endotelial e a alteração do fluxo sanguíneo são dois componentes da tríade de Virchow que conversam entre si, pois um pode levar ao outro, contribuindo juntos ou separados para a formação do trombo.
Porém, dependendo da patologia em questão, cada componente pode se mostrar mais ou menos evidente na fisiopatologia, como por exemplo na insuficiência cardíaca, onde a estase venosa é de grande valia; já na ocorrência de traumas, a lesão vascular deve prevalecer, enquanto na ocorrência de neoplasias, a explicação pela hipercoagulabilidade pode estar mais presente.
No entanto, mesmo havendo um componente que se mostre mais em determinada doença, a tríade deve ser enxergada por completo e deve-se ter a consciência de que muitas vezes os fatores conversam entre si e uma doença pode se apresentar a partir dos três componentes, de dois deles e até de apenas um, levando a um mesmo produto final: a trombose.
Diante disso, a Tríade de Virchow é de extrema importância para o diagnóstico dos processos trombóticos, visto que seus componentes, agindo sozinhos ou em conjunto, favorecem a ocorrência de diversas patologias importantes, como as que foram exemplificadas ao longo do artigo.
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Autora: Larissa Durão, Estudante de Medicina
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