Já
utilizamos este espaço para evidenciar a importância da escuta poli modal a
cada encontro clínico. Exercer a Medicina pressupõe o exercício cotidiano do
ouvir o outro da forma como for necessário, com as ferramentas disponíveis em
cada contexto. Este e outros elementos estão inseridos na relação
médico-paciente e precisam ser trabalhados desde o contato inicial com a
graduação médica.
Além
disso, é inconteste a necessidade de discutir os aspectos psicodinâmicos
envolvidos no atendimento médico! Ansiedade, medo, preocupação financeira,
traumas… São inúmeros os sentimentos que podem ser desencadeados por um
processo de adoecimento. A saúde ameaçada, seja a de si ou a daqueles por quem
se tem algum afeto, pode ser o gatilho para uma cascata de sentimentos que
podem interferir na relação médico-paciente. E precisamos também pensar nisso,
além de buscar avidamente as hipóteses diagnósticas e as modalidades de
tratamento que poderão ser utilizadas em cada caso.
Afinal, a literatura e a prática médicas evidenciam que não basta prescrever o fármaco correto, na apresentação adequada, com posologia devidamente ajustada: é preciso garantir a adesão do tratamento por parte de quem precisa recebê-lo (e/ou de seu cuidador, quando for o caso). E, para isso, é fundamental estabelecer um bom relacionamento médico-paciente. Só assim haverá a compreensão e a realização da conduta instituída pelo(s) profissional(is). Essa é uma excelente forma de se buscar e obter sucesso terapêutico.
Diante
disso, vale a pena o Médico utilizar alguns minutos da consulta para explicar
ao paciente e/ou seu acompanhante a hipótese diagnóstica em questão, quais
exames complementares ou procedimentos serão necessários, como será o tratamento
escolhido. Se os envolvidos estiverem cientes de tudo, a possibilidade de
aceitação e colaboração será bem maior. Ademais, deixar espaço para que o
paciente traga as suas angústias pode corroborar ou não o que você, caro
colega, está pensando clinicamente para aquele que está sentado na cadeira do
outro lado da mesa ou deitado no leito a sua frente. Pelo menos nas situações
em que esse momento seja possível. Obviamente, numa situação grave a prioridade
é fazer o que precisa ser feito. O diálogo mais livre poderá aguardar um pouco.
Outro
ponto importante a ser levantado nessa temática é a figura heroica do médico
visualizada por muitos. Alguns pacientes acham que podemos de imediato
solucionar todos os problemas da humanidade. E, cá entre nós, não é bem assim
(por mais que cada um queira fazer a diferença na sua prática profissional). Sentimos
sede, fome, sono. Cansamos. Enfrentamos congestionamentos no trânsito. Podemos
adoecer. Temos preocupações. Medos. Também possuímos nossas questões pessoais,
que demandam tempo e energia diariamente. Não somos de aço. Existe um ser
humano com suas próprias limitações dentro do jaleco branco bonito e imponente.
E tudo bem. Compreender e aceitar isso também se faz necessário por todos,
principalmente por nós mesmos. Por esses e outros motivos também precisamos de
cuidado. Cada estudante e profissional precisa encontrar a sua própria forma de
fazer isso.
Nesse
contexto, faz-se imprescindível encontrar um ponto de equilíbrio no exercício
profissional para a construção de um bom relacionamento médico-paciente.
Existem inúmeras ferramentas para isso: textos de autores renomados no ensino
da Medicina abordando questões como a cordialidade e o respeito no trato com
pacientes, acompanhantes e demais membros da equipe de trabalho, protocolos de
comunicação de más notícias, o cuidado com a entonação da voz e a escolha do
vocabulário. E tudo isso, sim, faz parte de uma relação eficiente e adequada
entre o profissional e o seu cliente. São elementos que devem ser valorizados
desde a faculdade e colocados em prática cotidianamente até a aposentadoria do
Médico. E, para somar aos elementos anteriores, é fundamental exercer a
empatia. É um clichê que precisa ser posto em prática verdadeiramente.
Colocar-se no lugar do outro o suficiente para compreendê-lo, sem, no entanto,
tomar para si as dores que não são e não devem ser suas. Não é fácil, porém se
faz necessário.
Em
meio a tantas outras coisas (cobranças pessoais e profissionais, serviços de
saúde caóticos, carga horária excessiva de trabalho e/ou de estudo – o
graduando também pode sofrer nos campos de práticas, apesar de infelizmente
isso nem sempre ser considerado pelas instituições educacionais), muitas vezes
é difícil ser empático. Frequentemente, estamos tão absorvidos em nossos
próprios problemas que perdemos a ternura do olhar e das palavras. Porém, não
podemos perder de vista a importância do bom exercício da Medicina. Pequenos
gestos nossos podem fazer toda a diferença na vida de alguém que está sem saúde
e fragilizado tanto física quanto emocionalmente com essa vivência.
Que tal ser um pouco mais empático de agora em
diante? Comece tentando por um dia, depois uma semana, um mês… Em casa e/ou
no trabalho. E reflita sobre a experiência! Enquanto isso, além de continuar
buscando meios de exercer a empatia, estarei pensando em como produzir o
próximo texto de modo a contribuir um pouco mais com as nossas boas práticas
médicas. Até lá!