O termo pneumonia tem sua origem no grego e significa “inflamação dos pulmões”1. É uma inflamação do tecido pulmonar causada, geralmente, por um agente infeccioso1.
O termo pneumonia infantil pode ser referido aos quadros de pneumonia adquirida na comunidade (PAC) em menores de 5 anos. PAC é definida pela presença de sinais e sintomas de pneumonia em pessoas, até então saudáveis, e que não precisaram de hospitalização recente2.
Epidemiologia e fatores de risco da pneumonia infantil
A pneumonia é a causa mais comum de mortes em bebês e crianças menores de cinco anos, sendo responsável por 15% dos óbitos1,2. Conforme o departamento de informática do Sistema Único de Saúde do Brasil (DATASUS), entre março de 2021 a março de 2022, ocorreram 118.040 internações de menores de 9 anos referentes a quadros de pneumonia3.
Desse dado, 96,5% dos atendimentos foram urgentes; quase 86% das crianças tinham menos de 5 anos; 54,8% eram do sexo masculino e a maioria das internações ocorreram nos meses de outubro, novembro e dezembro3.
Fatores de risco
Os fatores de risco para PAC são:
- desnutrição,
- baixa idade,
- comorbidades e gravidade da doença,
- baixo peso ao nascer,
- permanência em creche,
- episódios prévios de sibilos e pneumonia,
- ausência de aleitamento,
- vacinação incompleta,
- variáveis socioeconômicas e ambientais2.
Causas de pneumonia infantil
Os agentes etiológicos que causam a pneumonia variam conforme a idade, doenças prévias, maturidade, condição do sistema imunológico e sazonalidade1.
Os vírus são os grandes responsáveis por pneumonias em lactentes e pré-escolares, seu principal representante é o vírus sincicial respiratório (VSR), seguido do vírus influenza, parainfluenza, adenovírus e rinovírus2.
E as bactérias? Esses microrganismos estão relacionados a maior gravidade e mortalidade2. Seus principais representantes são: Streptococcus pneumoniae (pneumococo), Haemophilus influenzae e Staphylococcus aureus1.
Quadro 1- Principais agentes etiológicos da pneumonia comunitária:

Sintomas da pneumonia infantil
O quadro clínico da pneumonia infantil pode variar conforme a idade, o estado nutricional, presença de doença de base e o agente etiológico. Classicamente os sinais e sintomas são1,2:
- Febre de início agudo;
- Taquipneia e dispneia;
- Tosse.
A febre nem sempre estará presente nos lactentes com infecção por Chlamydia trachomatis, Bordetella pertusis ou Ureaplasma1. Os menores de 5 anos costumam apresentar pródromos (febre baixa e rinorreia) devido a infecção viral prévia em via aérea superior2.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu alguns “sinais de perigo” que indicam internação hospitalar imediata, conforme a idade da criança2.
Quadro 2- Sinais de alarme:

Outros sinais de gravidade são: saturação de oxigênio menor do que 92%; abolição do murmúrio vesicular; derrame pleural, empiema e desnutrição grave2.
Classificação e diagnóstico
“A pneumonia infantil é grave? ” A resposta para essa questão é depende. A OMS define a pneumonia grave conforme o Fluxograma 1. Nesse caso, deve-se proceder com a internação imediata. Fora desses critérios, trata-se de uma PAC sem gravidade, porém, com necessidade de acompanhamento ambulatorial2. O diagnóstico é essencialmente CLÍNICO1,2.
Vale dizer que Sociedade Brasileira de Pediatria reforça que crianças MENORES DE 2 MESES, que além da tosse e dificuldade respiratória, apresentarem frequência respiratória elevada (FC ≥60 irpm), com ou sem tiragem subcostal, são pacientes GRAVES e DEVEM ser INTERNADOS1.
Se não houver gravidade, o tratamento poderá ser iniciado sem os exames complementares. A própria radiografia de tórax não é recomendada se o paciente não tiver indicação de internação.
Fluxograma 1 – Critérios de gravidade da pneumonia infantil:

Tratamento da pneumonia infantil
No Brasil, a penicilina é o tratamento de primeira linha para tratamento ambulatorial1,2. Utiliza-se2:
- 1ª Opção: Amoxicilina (VO): dose 50mg/Kg/dia de 12/12h, por 7 dias.
- 2ª Opção: Amoxicilina + clavulanato (VO): 45mg/kg/dia de 12/12h, 7 dias.
Se criança com reação de hipersensibilidade NÃO mediadas por IGE à penicilina, usa-se1,2:
- Cefalosporinas de 2ª ou 3ª geração:
- Cefuroxima (VO): dose 30 mg/kg/dia de 12/12h, 5-7 dias
- Ceftriaxona (IM ou EV): dose 75mg/Kg/dia, dose única, 5-7 dias.
Se criança com reação de hipersensibilidade MEDIADAS por IGE à penicilina OU crianças menores de 6 meses, considera-se1,2:
- Macrolídeo:
- 1ªG: Eritromicina (VO): dose 40mg/kg/dia de 6/6h, por 7 a 10 dias.
- 2ªG: Claritromicina (VO): dose 15mg/kg/dia de 12/12h, por 7 a 10 dias.
- 2ªG: Azitromicina (VO): dose10mg/kg/dia, dose única, por 5 dias.
A criança deve ser reavaliada entre 48 a 72 horas em busca de sinais de melhora. Considera-se falha terapêutica: a persistência da febre, queda do estado geral, piora clínica, sinal de gravidade (tiragem subcostal, batimento das asas do nariz, gemência etc1,2. Nesses casos, indica-se a internação2.
Então, se a pneumonia infantil for grave ou tiver falha terapêutica, necessita-se da internação. Para isso, recomenda-se o uso de amoxicilina como primeira linha terapêutica (se não usado antes). A ampicilina ou penicilina com aminoglicosídeo podem ser iniciadas nos seguintes casos: menores de 2 meses, septicemia ou pneumonia complicada1,2.
- Ampicilina (IV): dose 50mg/Kg/dose de 6/6h.
- Penicilina cristalina: 150.000UI/Kg/dia de 6/6h.
Se lactentes menores de dois meses, a Gentamicina pode ser associada com penicilina cristalina ou ampicilina. Outra opção, caso não queira usar o aminoglicosídeo, é substituí-lo por Cefotaxima (e não Ceftriaxona)1.
- Gentamicina 7,5mg/Kg/dia de 12/12h & Ampicilina ou Penicilina.
Além disso, o uso de broncodilatadores, hidratação venosa, correção de distúrbios hidroeletrolíticos, oxigenioterapia (quando a saturação de O2 < 92%), podem ser necessários para a criança hospitalizada 2.
Conclusão
A pneumonia infantil pode sim ser grave. Ela é a principal causa de morte em crianças menores de cinco anos e a grande maioria das internações foram urgentes.
Por isso, uma excelente abordagem clínica permite uma correta classificação e avaliação da gravidade, bem como a precocidade do tratamento junto a um melhor desfecho.
Edy Alyson Costa Ribeiro
Instagram: @e.alysonribeiro
Referências:
1- de Pneumologia (2019-2021), D. C. (2021). Abordagem Diagnóstica e Terapêutica das Pneumonias Adquiridas na Comunidade Não Complicadas. https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23054d-DC-Pneumonias_Adquiridas_Nao_Complicadas.pdf
2- Pediatria, S.B. D. (2021). Tratado de pediatria (volume 2) (5th edição). Editora Manole.
3- DATASUS – Ministério da Saúde. (n.d.). Gov.br. Retrieved June 4, 2022, from https://datasus.saude.gov.br/
Recomendação de leitura: Rev Panam Salud Publica/Pan Am J Public Health 15(6), 2004.
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