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A morte na percepção da criança: uma breve revisão literária | Colunistas

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Diante das dificuldades da elaboração do luto por adultos, e
entendendo que as crianças podem passam pelo mesmo tipo de exposição, é
importante entender sobre como esse mesmo processo se desenvolve a partir da
visão da criança, com a perda de um ente querido.

Foi realizado um estudo bibliográfico, de
revisão narrativa, a respeito da percepção da criança diante da morte de um
ente querido. Entende-se por criança seres humanos na idade de 0 a 12 anos, de
acordo com a terminologia jurídica, contudo, na presente revisão, será
analisado a partir de 2 até 12 anos.

A morte

De acordo com Pazin Filho (2005) a morte
é um processo natural na qual envolve diversas representações culturais,
filosóficas e biológicas. Entende-se por essa afirmação, que a perspectiva
sobre ela está submetida aos diferentes princípios culturais vigentes.
Portanto, em primeira análise, deve-se considerar a definição mais aceita,
embasada em conceitos médicos, de que a morte “é o término das funções vitais”.

Combinato e Queiroz (2006) tratam a morte
como um fenômeno complexo que carrega um valor simbólico cultural, muito profundo. É um assunto
tratado de diversas maneiras, em diferentes comunidades e em diferentes épocas
da história do homem. Contudo, é um tema que contém, intrinsecamente, uma
dimensão simbólica, impregnado de valores socioculturais e históricos.

Para Kovács (1992) o indivíduo constrói,
através das influências culturais, familiares e experienciais, sua própria
perspectiva de morte. A morte é parte natural do desenvolvimento, vivenciada
desde a mais tenra idade, diante das perdas relacionadas ao crescimento do
indivíduo e aos relacionamentos afetivos. Entretanto, Torres (1979) diz que o
adulto nega a necessidade de comunicar sobre a morte com as crianças pois, de
modo geral, a associa à velhice. Já Freud (1997), afirma que “temos uma
tendência patente a prescindir da morte, a eliminá-la da vida […] mas quando
esta acontece, sentimo-nos sempre profundamente comovidos e como que abalados
nas nossas expectações”.

O diálogo com o adulto

Partindo para o entendimento da criança,
Kovács (1992) diz que à medida que a criança processa o seu desenvolvimento
afetivo e emocional, tenta compreender o que se passa com as experiências das
mortes efetivas que a rodeiam. As pessoas evitam falar sobre a morte com as
crianças, pois entendem que esse assunto poderia deixá-las confusas e tristes,
como a própria se sente diante da perda. Contudo, afirma que “o ocultamento da
verdade perturba o processo de luto da criança e a sua relação com o adulto”.
Essa atitude provoca uma confusão que interrompe o processo de luto, pois o
adulto reforça a ideia de negação, que é o mesmo desejo naturalmente
manifestado pela criança, dificultando a superação dessa fase do trabalho do
luto.

De acordo com Pinto (1996), quando a
criança acaba vivenciando a angústia de sua própria morte, a desesperança do
fim da vida, como no caso de crianças gravemente enfermas, existe uma
dificuldade muito grande de se elaborar o luto. Contudo, isso ainda pode ser
intensificado pelo adulto acompanhante, pois, por algum motivo o adulto pode
projetar na criança a sua parte infantil, aquela rejeição à situação, fazendo
com que dificulte a elaboração, não só do seu luto pessoal, mas também do luto
da criança.

A visão da criança

Segundo Torres (1979), a criança,
precocemente, é capaz de conceber a ideia de morte e por isso se faz necessário
uma abordagem mais específica sobre o tema, respeitando os limites de
compreensão da criança. “É fundamental para a criança que ela tenha a oportunidade
de discutir a morte com sua família, antes que ocorra crise, sem que esta
camufle as explicações, pois nada há que a criança necessite mais do que a
verdade”.

A criança também
possui o desejo de se encontrar com o falecido, assim como o adulto, contudo,
quando muito nova, existe uma dificuldade maior de se entender a
irreversibilidade da morte, de forma que a possibilidade de um encontro seja
algo factível. O enfrentamento da morte é difícil em qualquer época da vida,
ainda mais quando não se possui maturidade suficiente para superar a perda.
Para a criança, a morte dos genitores, pode ser ainda mais intensa pois
perde-se parte da identidade que seria incorporada durante essa fase da vida,
na constituição de sua personalidade (LOUZETE, GATTI, 2007).

Quando a criança tem experiência prévia

Para crianças que já possuem contato com
morte, em estado terminal ou moribunda, Pinto (1996) explana a necessidade de
terapia em grupo e acompanhamento individual, além de um programa que
proporcione assistência à família da criança. “Essas crianças necessitam de
oportunidade para falar dos seus medos, da sua angústia, da sua doença e das
suas fantasias sobre a morte.”

Uma forma de
auxiliar o sujeito nesse processo, é estimulá-lo a falar sobre o que está
sentindo, de forma que ela consiga vivenciar os sentimentos do luto. A criança,
por não saber se expressar verbalmente, pode realizar essa tarefa através de
brincadeiras, vivenciando fantasias internalizadas, memórias passadas, por meio
da simbolização de suas ansiedades. Da mesma forma, “ela poderá expressar sua
dor através de comportamentos agressivos e de irritabilidade” (LOUZETE, GATTI,
2007; FRANCO, MAZORRA, 2007).

Quanto mais
significativo o falecido for para a criança, mais influência isso terá sobre
seu desenvolvimento, pois coloca em prova sua capacidade de viver sem ele.
Poderá afetar seu convívio social, sua qualidade emocional e afetiva e, até
mesmo, contribuir para a construção de um “sentimento de inferioridade por
acreditar que só ela que não possui um pai ou uma mãe”. Contudo, o nível de
conhecimento sobre a causa da perda e os relacionamentos familiares anteriores
a isso, poderiam aplacar essa influência perniciosas. (LOUZETE, GATTI, 2007;
FRANCO, MAZORRA, 2007)

De acordo com
Almeida (2005), apesar do sofrimento, a hospitalização seria uma oportunidade
de conhecimento e amadurecimento. Através de brincadeiras lúdicas, elas poderiam
exercitar funções motoras e aprender a lidar com os seus próprios sentimentos.
“Assim, a hospitalização pode ser uma forma de estimulação, se a criança
receber o apoio e a atenção necessária do adulto”. (ALMEIDA, 2005)

Percepção por idades

As análises por idades serão expostas e classificadas de acordo com a
divisão de Piaget (in Terra, 2001), sobre o desenvolvimento humano de 2 a 12
anos de idade, para a melhor compreensão sobre o entendimento da morte em cada
faixa etária proposta pelo autor.

Período pré-operatório (2 a 7 anos)

De acordo com
Torres (1979), as crianças desse grupo não possuem a capacidade de diferenciar
entre seres que morrem e que não morrem. A morte, em suas percepções, está
diretamente ligada à vida e não compreendem sua irreversibilidade. Afirma que
as “crianças do
subperíodo pré-operacional evidenciam o predomínio de noção restrita,
caracterizada por explicações limitadas, nas quais a distinção entre animados e
inanimados não está suficientemente clara”. (TORRES, 1979)

Torres (1979)
reafirma isso dizendo que não são claras e amplas a identificação sobre o que morre ou não –
“seres orgânicos e inorgânicos” – questionam sobre a morte de entidades
inanimadas, como se tivessem vida. Paiva (2011) explica
que nesse período, as crianças apresentam pensamentos voltados a si mesmos, com
características mágicas, pois para elas tudo é possível. Franco e Mazorra
(2007) acrescentam que o sentimento de culpa e abandono foi notado em crianças
na fase pré-operatório juntamente com o pensamento egocêntrico.

 De acordo
com Torres (1979), as crianças nessa fase sabem da existência da morte, porém
acreditam que há vida também na morte. Não a definem de maneira definitiva e
irreversível, mas tratam os mortos como se ali estivessem presentes e
precisando de ajuda. O primeiro contato da criança com a morte normalmente
ocorre através dos desenhos animados e como uma hipótese, poderia se entender a
interpretação sobre irreversibilidade da morte, devido ao fato de que os
personagens sempre voltar a viver, independente do que aconteça.

 Período operações concretas (7 a 11 ou 12 anos)

Paiva (2011) aponta que as crianças nessa
faixa etária compreendem a oposição entre morte e vida, uma predominância do
pensamento concreto, contudo, não são capazes de explanar sobre as causas da
morte. Torres (1979) reafirma dizendo que elas são mais avançadas que o período anterior,
porém não conseguem dar explicações lógicas de causalidade.

Segundo Pinto (1996), possuem uma extensa
capacidade de percepção e observação para tudo que ocorre ao seu redor. Em sua
representação de mundo, quando em contado com a morte, “ela pode ser acometida
de intensas crises de angústia, que ora se evidenciam explicitamente, ora se
escondem”. Torres (1979) afirma que sabem sobre a irreversibilidade da morte e
entendem que não é mais atribuído a vida ao sujeito após o falecimento. A
partir de então o conceito fica ligado a cessação de movimento.

Período operações formais (11 ou 12 anos em diante)

Paiva
(2011) explica que nessa faixa etária o conceito de morte “torna-se mais
abstrato, devido ao pensamento formal”. Já compreendem a morte como “inevitável
e universal, irreversível e pessoal”. Segundo Torres (1979), há compreensão de
aspectos biológicos, imprescindíveis para o conceito de morte associada à
explanação teológica. São capazes de compreender amplamente e fazer distinções claras sobre
seres animados e inanimados com conceitos biológicos e lógicos de causalidade.
Entendem que todas as coisas podem acabar, mas morrer só um ser vivo.

Sentimentos e diálogos

Segundo Sengik
(2013), Kovacs (1992), Franco e Mazorra (2007) e Vendruscolo (2005), pode haver
dificuldades na elaboração do luto quando há ausência de espaço para expressão
de sentimentos, ou quando esses sentimentos não são trabalhados antes da
notícia da morte. Segundo Sengik (2003), “as palavras, os diálogos se
materializam e estão sempre carregados pela intencionalidade do enunciador, que
escolhe palavras específicas às situações de interação.”

Sengik (2013) e
Kovacs (1992) apontaram que segredos em relação a forma como ocorreu ou o fato
de esconder a morte, podem instigar sentimentos negativos e desconfiança da
criança para com o enunciador. Ao perceberem os sinais de que algo está errado,
muitas das vezes acabam por se sentirem inseguras com essa pessoa que está
viva.

Segundo Mello
(2013) a família tem o papel de fonte de segurança e proteção para a criança.
Devem estar sempre abertos para o diálogo de maneira clara e verdadeira. O
autor ainda afirma que a escola tem papel importante na elaboração do luto e na
preparação para o mesmo, pois através do lúdico devem propiciar espaços de
diálogos e reflexões para os alunos.

Alguns dos artigos
analisados, como Mello (2013), Sengik (2013), Franco e Mazorra (2007) e
Vendrusco (2005), refletem sobre a necessidade de um acompanhamento psicológico
para o sujeito responsável. Acreditam que a dificuldade para os adultos
entenderem as necessidades da criança, seja pelo fato de também estarem em
processo de luto.

 Fatores

Segundo Franco e Mazorra (2007), Louzete e Gatti
(2007) a criança pode fantasiar esse sentimento como formações que representam
seus desejos durante a elaboração do luto. Franco e Mazorra (2007) classificaram
alguns fatores facilitadores e dificultadores, o primeiro como: expressão dos
sentimentos da criança no âmbito familiar ou psicoterapêutico, funcionamento
egoico da criança e da família na posição depressiva; e os fatores
dificultadores foram separados entre a família, criança e a circunstância da morte:
no âmbito familiar o não fornecimento de informações, negação, distanciamento afetivo do
genitor sobrevivente, exigência consciente ou não de ocupação do lugar do
genitor morto, atitude de negação. Na criança:
relação com o genitor morto: ambivalência, ser do mesmo sexo, apego ansioso,
desenvolvimento cognitivo e emocional. E por fim na circunstância da morte: segredo, repentina, tabu, descuido do
genitor, violenta, testemunho da criança no momento da morte.

Considerações

Diversos fatores exercem influências
sobre a maneira como a criança percebe a morte, entre eles, o papel da família
na orientação e o estágio de desenvolvimento da criança. A necessidade de um
acompanhamento psicológico também pode ser fundamental durante a infância,
principalmente por elas, muitas vezes, não conseguirem compreender ampla e
claramente o conceito de morte.

Os diferentes períodos cognitivos devem ser trabalhados de maneiras
diferentes, o que fica evidente diante da exposição das dificuldades que
existem na elaboração do luto, pelos artigos trabalhados. O espaço para o
diálogo entre a família e a escola colabora para a melhor compreensão da
criança sobre seu sofrimento, propiciando a superação dos medos e das
inseguranças que, por ventura, aparecerão.

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