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A medicina e suas caixinhas: abordando questões psiquiátricas e sociais no ambulatório de gastroenterologia | Colunistas

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Ambulatório de gastroenterologia do CHC-UFPR. Paciente J, 56 anos, queixa-se de dor abdominal crônica, de forte intensidade. Paciente chega na consulta referindo piora do quadro desde a última consulta (há 4 meses), sem fatores de melhora. Dando sequência ao atendimento, fazemos todas aquelas perguntas sobre as especificidades de cada sintoma, para entender um pouco mais da doença, o que ela ainda tem causado no paciente e para saber de que forma vamos ajudá-lo.

Logo na sequência questionamos:

– Seu J, aqui temos uma lista de 5 medicamentos que foram recomendados para o senhor na última consulta, tem conseguido tomar todos eles? Sentiu alguma melhora com esses medicamentos? – perguntamos.

– Olha, eu só tomando esses 3 aqui, os outros 2 eu não consegui comprar. Não sobrou dinheiro esse mês, sabe, doutor?! A situação difícil, cuido sozinho da minha mãe que tem 92 anos, e ela passou mal esses dias – diz ele, já com os olhos cheio de lágrimas. – Enfim, não dá nem vontade de viver. difícil pra mim. 

Ficamos todos em silêncio. Na minha cabeça já desenhava o quadro psicológico do paciente, listando novas perguntas para investigar um transtorno depressivo. Queremos ajudar, mas vamos ter calma. Hoje estamos no ambulatório de Gastroenterologia, Psiquiatria é em outro dia.

Ainda está difícil colocar os pacientes em caixinhas de especialidades. Queríamos poder resolver todas as queixas de todas as especialidades, em 30 minutos.

– Tem uma fila ali fora de outros pacientes com suas queixas gastrointestinais e temos que aproveitar os especialistas que estão aqui para auxiliar nesses casos, e eles são gastroenterologistas – penso alto, convencendo a mim mesmo. – E se fizermos essas perguntas sobre a saúde mental, vamos ter respaldo suficiente para resolver? E se não soubermos o que fazer?

Mesmo sendo desconfortável, às vezes, precisamos usar as caixinhas.

Enquanto aguardamos o passar do silêncio, observando o paciente, alguns segundos depois ele ergue a cabeça e, mesmo lutando para conter as lágrimas, continua falando:

– E nem aquele leite diferente, sem lactose, eu consegui comprar. Aí, quando eu tive muita dor, acabei tomando mais um desse primeiro remédio da lista, que eu consigo pegar no posto quando acaba. Mas parece que não resolveu nada.

– Realmente, esse não é pra dor, seu J – explico –, é pra diminuir a secreção ácida no estômago. Mas vamos ver o que podemos fazer.

– Não sei o que acontecendo, eu não melhoro. E aquele exame que a doutora pediu na outra consulta, a “colono alguma coisa”, eu também não consegui fazer, porque precisa de acompanhante e eu não tenho ninguém pra ir comigo.

Continuo tentando entender a situação como um todo e explicar o que posso.

– Seu J, entendemos que a situação é complicada. Sentimos muito pela situação que o senhor está passando. E, com relação ao seu problema na barriga, vamos tentar mais alguns ajustes na sua alimentação. O seu esforço para seguir a dieta vai ser muito importante no tratamento. Vamos tentar ajustar também algo nos seus medicamentos, priorizar aqueles que tem na Unidade de Saúde.

E deu certo! Depois de passar e discutir o caso com a professora, saímos com uma receita nova. Seu J vai poder pegar todos os medicamentos no SUS.

– Mas, antes de mais nada, seu J – não resistimos –, as doenças gostam de tristeza e percebemos que o senhor está triste. E isso também nos deixa tristes. Sabemos que o senhor está passando por um momento difícil e gostaríamos de orientá-lo a buscar ajuda com relação aos outros problemas que o senhor nos relatou; cuidar também da sua saúde mental. Podemos fazer uma carta de encaminhamento para outras especialidades e também pedir auxílio ao serviço social da sua Unidade de Saúde para tentar resolver a questão da falta de acompanhante, para que o senhor possa realizar o exame. O que acha?

O paciente balança a cabeça concordando.

Entregamos os papéis, explicamos como tudo funcionaria e ele diz ter entendido. Pedimos então que ele nos explique o que entendeu – esse é o procedimento para garantir que ele tenha entendido tudo corretamente. E, tudo certo, ele entendeu!

– Seu J, tudo de bom para o senhor. Desejamos melhoras. Se cuide!

O paciente dá um suspiro de ânimo, ergue a cabeça. Pega o maço de papel que entregamos, entre guias, receitas e encaminhamentos. Levanta, novamente com os olhos cheios de lágrimas, agradece, nos cumprimenta com um soquinho na mão e volta para sua rotina.

O que representaram essas lágrimas? Um momento de esperança? Um receio para voltar a vida difícil? O que vai acontecer daquele consultório pra fora? Queríamos saber como seu J vai ficar com os novos medicamentos, se vai conseguir fazer o exame, se conseguimos, de fato, nem que seja um pouco, ajudá-lo. Seu retorno será apenas daqui 3 meses. Que ansiedade! Bom seria ter notícias com frequência pra poder acompanhar… apesar de que não daríamos conta de tantos pacientes. 

Mais uma história que passa a fazer parte das nossas histórias. Eu e a minha amiga, dupla do estágio que acompanhou o caso junto comigo, concordamos com a dificuldade daquela consulta e nos deparamos com os mesmos questionamentos ao final do dia. Não nos preocupamos tanto em relação ao conhecimento clínico, por mais complexo que às vezes pareça. Esse a gente vai aprendendo e desenvolvendo a cada dia. Mas, com relação às nossas incapacidades diante dos sentimentos e dificuldades dos nossos pacientes, como vai ser? Vamos aprender um dia a lidar com a frustração de não poder fazer mais? Aproveito para encerrar com a famosa frase do nosso sábio Hipócrates: “Curar quando possível; aliviar quando necessário; consolar sempre”.

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