A medicina, assim como todas as áreas de conhecimento, requer atualização e estudo constantes. As novas tecnologias vêm tomando o espaço das nossas atividades diárias, fazendo-se cada vez mais necessárias. Durante a pandemia que se instaurou no mundo, surgiram diversas reflexões de como seremos após esse acontecimento e quais serão as suas consequências.
Percebemos nossa vulnerabilidade e entendemos que, muitas vezes, fazer o óbvio pode não ser suficiente. “Pensar fora da caixa” vem sendo uma estratégia importante para lidar com as adversidades impostas nos últimos tempos.
“Mas será que agir desta maneira é
algo que se possa treinar?”, você deve estar se perguntando. E podemos
responder que, diante dos últimos acontecimentos, cada vez mais o mercado
espera que sejamos habilidosos em áreas que vão bem além do conteúdo técnico da
faculdade: são as soft skills. Você
já ouviu falar nessa expressão?
Soft skills (uma expressão em inglês que, traduzindo livremente para o português, significa algo como “habilidades interpessoais”) podem ser definidas como competências comportamentais a serem desenvolvidas a partir de experiências subjetivas, sendo, portanto, difícil de mensurá-las em números ou expô-las no currículo Lattes. São elas, contudo, que podem fazer a diferença em grandes projetos e o mais importante: impactar e gerar valor para as pessoas e para o mundo.
Essa ideia, na verdade, é oriunda das áreas mais relacionadas aos negócios, porém vem sendo incorporada pelas demais grandes áreas de conhecimento devido à necessidade que temos em desenvolver pessoas para servir adequadamente o público (que também é feito de pessoas).
Vamos conferir abaixo quais as
soft skills que todo médico e estudante de medicina devem ter.
1) Comunicação: essa é a habilidade número um e da qual todo médico precisa se apropriar! Há diversos dados relacionados à dificuldade de comunicação entre o médico e o paciente (e a relação com o aumento da judicialização da medicina), médico e equipe (e os erros médicos provenientes deste problema) e o do médico em canais de comunicação (como vimos, recentemente, a dra.
Maria Van Kerkhove, chefe da unidade de doenças emergentes da Organização Mundial da Saúde, que afirmou que a transmissão do novo coronavírus por pacientes assintomáticos poderia ser algo “muito raro”).
Poderíamos fazer um artigo apenas sobre comunicação e teríamos muito a conversar porque, sem dúvidas, essa é a grande habilidade a ser desenvolvida. A dica para melhorar em relação à comunicação é treinar sempre que possível: procure apresentar trabalhos e se expor sempre!
As oportunidades surgirão e, aos poucos, você aprenderá a se expressar de forma adequada. Aqui vale a pena lembrar que, além de saber falar, é importante saber ouvir. E que precisamos ajustar o nosso discurso ao público que estamos conversando, afinal, você não vai falar termos técnicos ao seu paciente na Unidade Básica de Saúde, não é?
2) Inteligência emocional e autoconhecimento: outra habilidade chave para sair na frente é a inteligência emocional. Saber se adequar às adversidades, ser flexível e atento ao todo; entender os seus limites, mas saber trabalhar sob pressão; todas essas podem ser habilidades relacionadas à inteligência emocional.
Neste caso, assim como na comunicação, você precisa se expor aos ambientes que propiciem o treino necessário para evolução nesse quesito. Além disso, meditar sobre o que aconteceu no dia e avaliar suas atitudes, além de pedir um retorno a pessoas próximas (e que queiram o seu bem) sobre sua evolução quanto a essas habilidades pode ser uma boa solução.
3) Proatividade: é por meio dela que você vai adquirir a maior parte das outras habilidades, visto que só aprende quem erra, e só erra quem tenta. Logo, você precisa se expor às situações para que possa aprender com elas e, assim, tornar-se um profissional e uma pessoa melhor.
Colocamos esse ponto para lembrar que ser proativo faz parte da estratégia e que você pode treinar esse automelhoramento a qualquer momento! Basta estar voluntariamente disposto e dar o melhor de si a partir do momento que se comprometer com algo.
4) Incorporação de novas tecnologias: essa é uma habilidade treinável e muitos podem até se intimidar por fazer parte das soft skills. É importante, porém, que você entenda o novo jogo e, na realidade atual, é impossível que voltemos atrás quanto às tecnologias (principalmente na medicina).
já fazem parte do nosso mundo, mas ainda farão muito mais. Aceite a ideia e, mais que isso, domine todas as tecnologias possíveis. Informe-se e leia sobre inovação em saúde por meio da telemedicina, inteligência artificial, Big Data, robótica e outros termos que possam ainda ser obscuros para você.
5) Positividade: você pode não ser um monge e pode nem gostar de meditação, mas já há diversas evidências sobre a positividade e a modulação do humor, assim como os benefícios dessa atitude no enfrentamento dos problemas cotidianos.
Entender as situações da vida e, mesmo que essas não sejam as ideais, praticar a gratidão e procurar enxergar o lado bom de todas as coisas é, igualmente, difícil e lindo. Ser positivo não é estar alienado diante das situações, mas sim escolher focar no que há de ensinamento em cada vivência.
6) Liderança e gestão de equipe: mesmo não estando em altos cargos, o médico precisa aprender a liderar. Muitas vezes, é dele que parte a decisão final de determinadas situações e, em casos mais difíceis, como dar uma má notícia a um familiar, é do médico que se espera um posicionamento. Colocar-se para liderar situações e equipes não é tarefa fácil, mas é essencial na construção de um bom profissional.
Gerir uma equipe, estar sensível às necessidades do todo, ser empático com os demais são atitudes que fazem a diferença na carreira médica e que refletem positivamente no cuidado aos pacientes.
7) Ética: esta é uma habilidade mais polêmica, pois muitos podem achar que não é algo treinável. A ética, porém, faz parte de um exercício profissional exemplar e o médico é um ator social que influencia o todo; portanto, é esperado desse profissional toda a seriedade e respeito exigidos de alguém que lida com vidas.
Entenda que a ética vai bem além de “fazer o correto quando ninguém está olhando”; é o estabelecimento de uma fronteira na qual não há exceções. A pontualidade, a não exposição do paciente e suas dores e o compromisso com a verdade são algumas das pautas relacionadas à habilidade.
Procure ler o código de ética médica e todas as principais resoluções do Conselho Federal de Medicina nesse sentido; busque montar situações-problema e imaginar como poderia resolver tal situação sem ferir os princípios éticos. Este é um tema muito importante e que jamais deve ser negligenciado.
8) Gestão do tempo: essa a gente deixa para o final, porque sabemos que esse tema gera tensão! A gestão de tempo, sem dúvidas, é uma das maiores queixas do estudante de medicina e, claro, do médico! Ou você pensa que na residência terá tempo para viver? Brincadeiras à parte, procure aprender a gerir seu tempo para ter o máximo rendimento nos estudos e no trabalho, mas sem deixar de aproveitar a vida (algo muito comum entre os médicos).
Essa é uma habilidade essencial em um mundo de milhões de informações e atrativos e pode ser a diferença entre uma vida sem muitas realizações e uma vida bem vivida. Aprenda a dizer NÃO para o que talvez não agregue ou não faça sentido em relação aos seus sonhos. Aprenda a delegar e a “soltar” alguns projetos que são interessantes, mas não são estratégicos para o seu ponto de chegada.
Bônus – Marketing e Finanças: essas duas são extremamente importantes para o médico de hoje, que entende que precisa gerir uma empresa chamada consultório e que não quer passar a vida contando quantos plantões precisará dar para pagar as contas no final do mês.
Não se engane! O médico da vida real não cuida apenas dos pacientes (o que, por si só, já é bastante): ele utiliza todas essas soft skills para se sair bem no mercado e estar realizado com a profissão que escolheu.
Afinal, a gente ama o que faz e jamais pensaria em fazer outra coisa da vida, né? Procure estudar esses temas e adequá-los a sua realidade, pois são ferramentas importantíssimas para a prática médica hoje.
E aí, você enxerga em quais habilidades já é bom e em quais precisa melhorar? Compartilha esse artigo com aquele amigo que precisa dessas dicas!
Amanda Martins Hartel – médica
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