A tecnologia vestível para a avaliação do sono está se tornando rapidamente um dos produtos de saúde mais populares para o consumidor. Essa adoção pelo público está sendo ampliada devido a uma maior conscientização sobre os aspectos do sono que promovem o bem estar e as possíveis consequências adversas oriundas da má qualidade do sono ou redução na quantidade de sono.
São incluídos as categorias de tecnologias vestíveis:
- Sensores colocados diretamente no corpo como pulso, tórax ou quadril;
- Sensores acoplados diretamente em roupas ou acessórios como pingente, pulseira ou relógio;
As tecnologias vestíveis são usadas para fins de atividade física autoguiada, monitoramento do sono, gerenciamento do sono e mudança comportamental.
Qualidade e quantidade do sono
Em um estudo, publicado pela J Clin Sleep Med, é debatido como um dispositivo vestível pode ser usado para a melhora da percepção da qualidade do sono (redução da perturbação do sono) em voluntários saudáveis. O estudo descobriu que um dispositivo vestível usado no pulso melhorou a percepção da qualidade do sono e uma redução média na pontuação do Sistema de Informações de Medição de Resultados Relatados pelo Paciente (PROMIS).
Essa diferença na PROMIS foi equivalente a 1,69, sendo essa diferença maior que a metade do desvio padrão do escore de distúrbios do sono PROMIS de 2,9, sugerindo que essa mudança foi significativa e de efeito moderado. Outro ponto levantado pelos pesquisadores, foi o mecanismo subjacente para a melhora na qualidade do sono ou redução nos distúrbios do sono, que foi considerado incerto. Porém, é levantado que uma melhora na qualidade do sono pode ter sido causada pela redução na duração do sono noturno, que ao restringir a duração do sono noturno, melhorou a qualidade do sono auto-relatado, esses achados são observados em pacientes com insônia, sendo a restrição do sono um importante componente da terapia cognitivo-comportamental.
Reduções do sono facilitadas por aplicativos
As reduções na duração do sono, relatadas pelos pacientes, podem ter sido facilitadas pelo aplicativo de telefone que é sincronizado com o dispositivo vestível e fornece instruções ao participante na manhã seguinte, aconselhando-o a aumentar ou diminuir a duração do sono com base nos comportamentos de sono-vigília recentes. Embora essa melhoria possa ser um efeito placebo dos smartwatches na qualidade do sono, a melhoria da qualidade do sono acompanhada pela restrição do sono apóia um efeito biológico.
Outra explicação para a melhora observada na qualidade do sono pode ser que, ao usar o dispositivo, os participantes podem ter aumentado o grau de atividade física, o que, por sua vez, pode ter melhorado a qualidade do sono. Alguns estudos anteriores mostraram que os rastreadores de atividade física em conjunto com notificações, podem melhorar a atividade física em comparação com o monitoramento da atividade apenas pelo usuário.
Aumento da atividade física
O aumento da atividade física, demonstrou melhorar a qualidade do sono noturno. Entretanto, outros pesquisadores mostraram que os wearables que monitoram a atividade física não alteram o comportamento sedentário. Porém, neste estudo, a atividade física com base em incrementos na frequência cardíaca aumentou ao longo dos 7 dias de uso do dispositivo. Os algoritmos do aplicativo e as notificações, podem ter desempenhado um papel nesse aumento observado na atividade física do estudo. Essas descobertas estão de acordo com as melhorias observadas na variabilidade da frequência cardíaca ao longo do período de 7 dias de uso do dispositivo e a associação positiva conhecida entre o aumento da atividade física e a variabilidade da frequência cardíaca.
Capacidade dos dispositivos vestíveis de estimar o sono
Em outro estudo, publicado pela International Journal of Environmental Research and Public Health, foi realizado uma análise descritiva da medida do sono entre os dispositivos vestíveis baseados em acelerômetros e um dispositivo de grau de pesquisa para medir comportamentos do sono entre os adultos e jovens saudáveis em um ambiente de vida livre. Os monitoramentos aconteceram por 24 horas por 3 noites consecutivas para testar se esses dispositivos eram capazes de avaliar o sono em comparação com um diário de sono.
Em suma, o resultado desta pesquisa parece consistente com os outros estudos sobre actigrafia e medidas do sono. Nas outras pesquisas, é mostrado consistentemente que os dispositivos vestíveis tem uma alta sensibilidade e baixa especificidade, quando comparados a actigrafia com polissonografia. Embora o estudo da Journal of Environmental Research and Public Health não seja capaz de avaliar a sensibilidade e especificidade, devido a limitações de tempo, é possível observar uma associação semelhante dos resultados.
Apontamentos finais
Embora necessite-se de mais estudos para uma evidência mais clara se é possível ou não usar os dispositivos vestíveis como uma ferramenta médica, esses dispositivos oferecem uma alternativa de baixo custo para o rastreio do sono em populações de pessoas saudáveis. Entretanto, a supervisão regulatória de wearables e mHealth é cercada de incertezas e são necessárias mais validações e avaliações científicas dos efeitos destes dispositivos nos comportamentos. Com os avanços da tecnologia, nestes wearables, será possível observar que serão oferecidas alternativas mais viáveis e confiáveis para medir os padrões de sono.
Autor: Carlos Roberto Filho
Instagram: @carlosrobertofilho13
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
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Referências
BERRYHILL, Sarah et al. Effect of wearables on sleep in healthy individuals: a randomized crossover trial and validation study. Journal Of Clinical Sleep Medicine, [S.L.], v. 16, n. 5, p. 775-783, 15 maio 2020.
LEE, Jung-Min et al. Comparison of Wearable Trackers’ Ability to Estimate Sleep. International Journal Of Environmental Research And Public Health, [S.L.], v. 15, n. 6, p. 1-13, 15 jun. 2018.