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A insistente presença de parasitoses intestinais e o surgimento de novos “Jeca Tutu” | Colunistas

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“Jeca Tatu”, célebre personagem do escritor brasileiro Monteiro Lobato, descreve intrinsecamente a relação entre hospedeiro, parasita e meio ambiente no que tange o parasitismo intestinal e suas implicações na saúde, educação e sociabilidade do indivíduo acometido por patologias oriundas dessa interação ecológica. Vale ressaltar que a evolução tecnológica e médica não foram o suficiente para atenuar a infecção e a enfermidade por helmintos e protozoários no sistema digestório, haja vista, que muitos brasileiros e parte da população mundial ainda vivem em condições tal qual descrita por Monteiro Lobato as quais a falta de higiene, saneamento básico e ignorância social perante a problemática sentenciam essa parte social a viver com endoparasitas no sistema gastrointestinal.

1.    Vulnerabilidade 

As parasitoses intestinais estão intimamente ligadas às condições de vida da população que se caracteriza como carente de saneamento básico e de medidas de higiene, ressalta-se que 16% da população brasileira não conta com redes de distribuição de água tratada e 47% dos brasileiros não dispõem da seguridade do recolhimento de esgoto. Tais índices se tornam ainda mais alarmantes ao dimensionar a problemática ao cenário mundial nos continentes da África, Ásia, América do Sul e no Caribe. Essa situação se alia ao aglomerado desordenado de moradias, coleta inadequada de lixo e a baixa escolaridade da família em especial na figura da mãe em preconizar em seus filhos desde da infância, hábitos sadios de cuidado com o corpo e suas excreções. 

Fonte: https://autossustentavel.com/2017/09/saneamento-basico-brasil.html (2021)

Sendo assim, a insistente incidência de parasitoses intestinais é aliada de todas essas barreiras sociopolíticas que deixam os seres sociais, principalmente  as crianças, vulneráveis a protozoários e helmintos, sendo estas as responsáveis por quadros clínicos de grande maioria assintomáticos, todavia podendo ser agudos, subagudos e crônicos sem o devido tratamento e orientação, logo que esses seres infectantes são de transmissão oral fecal, por água e alimentos contaminados com ovos, larvas e cistos do parasito que desenvolve no mínimo um ciclo de vida no ser humano.

2. Principais parasitismos intestinais humanos 

2.1. Ascaridíase 

É causada pelo helminto, Ascaris lumbricoides. A principal forma de infecção por este parasita é a ingestão de seus ovos através de água ou alimento contaminado, bem como, pelo hábito de levar a mão não higienizada até à boca ou pela deglutição de ovos presentes no ar em regiões de clima seco. O principal público alvo desse helminto são as crianças que na sua grande maioria são assintomáticas, as quais só apresentam sintomas em estágio de uma numerosa infecção vérmica. 

Suas consequências mais nefastas estão relacionadas ao seu deslocamento pelo organismo que pode ocasionar a Síndrome Loffler, ou seja, uma pneumonia acompanhada de sibilância, dispneia e febre. O helminto também faz passagem pelo fígado e em casos avançados e de amplo desenvolvimento do parasita, este obstrui o intestino ou as vias aéreas. Vale ressaltar que essa parasitose acompanhada de desnutrição é causa de morte. 

2.2. Amebíase

Entamoeba histolytica, é o protozoário causador da Amebíase. Também está relacionada à ingestão de cistos por água ou alimentos contaminados e aos hábitos de higiene. Em estágio brando desenvolve no organismo cólicas abdominais, períodos de diarreia acompanhada ou não de muco e sangue e apresenta períodos de calmaria.

A forma intensa da protozoose ocorre após um mês de incubação do trofozoíto, as quais acometem no paciente longos períodos de diarreia, distensão e dor abdominal, distúrbios hidrolíticos e desnutrição proteico-calórica. Em casos mais graves, ocasiona inflamação e úlceras no cólon e no reto e também inflamações hepáticas através do deslocamento do trofozoíto pela veia mesentérica. Sua mortalidade está relacionada a debilidades imunológicas.

2.3. Teníase 

Taenia solium ou  Taenia saginata são as responsáveis pelo desenvolvimento da teníase ou popularmente conhecida como solitária.  A patologia é oriunda da ingestão de carne bovina e suína mal cozida com a presença de larvas do parasita. Nesta manifestação, o organismo é acometido de náuseas, diarreias e dor abdominal, em casos mais graves há o desenvolvimento da Neurocisticercose (somente se o homem for o hospedeiro intermediário das fases de vida do parasita) que desenvolve larvas do verme no cérebro humano que também pode ocorrer processo migratório para o coração e olhos. Seu amplo desenvolvimento também está relacionado a eliminação de proglotes grávidas do parasita nas fezes do indivíduo, as quais combinada com a falta de educação em saúde pela população e de saneamento básico, tudo isso possibilita a renovação do ciclo de vida do parasita. 

2.4. Ancilostomose 

É uma parasitose intestinal causada pelo Ancylostoma duodenale e Necator americanus, esse último mais comum em nosso país. Sua penetração no indivíduo ocorre de maneira ativa por via venosa ou linfática até atingir os pulmões, das vias aéreas até o intestino há a maturação do verme até a fase adulta. Ao chegar no intestino, fixa-se na parede do duodeno e jejuno em busca de nutrientes através do sangue, nessa tentativa de roubar micromoléculas essenciais para vida o endoparasita causa feridas e grande perda sanguínea que por consequência gera anemia. 

Pode ocorrer dermatite larvária, com a presença de prurido, eritema, edema e erupção papulovesiculosa. A pneumonite larvária é descrita, mas menos intensa que na infecção por ascaris. Na fase aguda do parasitismo intestinal pode ocorrer epigastralgia, náuseas, vômitos, bulimia, flatulência e diarreia. E na fase crônica: anemia ferropriva, anorexia, fraqueza, cefaleia, sopro cardíaco, palpitações, hipoproteinemia e edema por enteropatia perdedora de proteínas.

2.5. Giardíase

É a parasitose mais frequente entre os brasileiros, principalmente nas crianças. Causada pelo agente Giardia Lamblia que se desenvolve de duas formas, trofozoítos e cistos, os cistos são eliminados nas fezes e são formas de resistência, haja vista, que podem sobreviver ao ambiente e ser ingerido através de água e alimentos contaminados ao longo do período que o cisto se instala no meio de sociabilidade, ao adentrar no ser humano, transforma-se em trofozoíto e se instala no duodeno.

Seus sintomas são dependentes das questões imunológicas do indivíduo bem como da interação da microbiota intestinal com o protozoário. Nesse sentido, a parasitose ocasiona atrofia vilosidades intestinais, inflamação do intestino, disfunção dos ácidos biliares e dissacarídeos e como consequência desses mecanismos o ser apresenta má-absorção de açúcares, gorduras, vitaminas A, D, E, K, B12, ácido fólico, ferro e zinco. Dessa forma, há a presença de diarreia, dor abdominal, anorexia, náuseas, vômito e hipoproteinemia.

3. Detecção das doenças parasitárias intestinais

O diagnóstico de verminoses intestinais é imediatamente relacionado ao exame parasitológico de fezes, do qual deve ser feito em 3 amostras consecutivas ou intercaladas, logo que uma amostra não se torna suficiente para detectar os diversos ciclos de deposição de ovos e cistos dos helmintos e protozoários nas fezes.

Destaca-se que o médico ou profissional da saúde pode não requisitar o exame laboratorial e apenas observar e compreender o meio social que seu paciente interage, bem como, o nível educacional do ambiente doméstico para diagnosticar a presença de endoparasitas intestinais. Além disso tudo, vale frisar o tabu ainda persistente entre os indivíduos, em realizar o exame laboratorial ou buscar orientação médica em casos de suspeitas de verminoses, tal atitude é atrelada a vergonha pessoal de aceitação de posse da parasitose intestinal, haja vista, que estas doenças estão interligadas com a pobreza e falta de higiene. 

4. Prevenção

As profilaxias para as infecções por parasitas intestinais são sinônimo de mudança dos hábitos alimentares e de higiene e também de políticas públicas. A partir desse contexto, é primordial que seja preconizado desde da gênese humana os bons e sadios hábitos de higiene e de manipulação de alimentos e das excreções pessoais, essencialmente, essa educação deve ou deveria ser ensinada em primeiro plano pela família e em posterioridade pelas creches e por ações dos órgãos municipais de saúde, tendo em vista que a família imersa em um meio social de pobreza e insalubridade social e de saúde, não é o agente de mudança, no entanto o objetivo da mudança pelas ações governamentais. 

Outrossim, é de fundamental importância que seja introduzida no cotidiano social a desparasitação periódica, com o objetivo de atender com maior eficiência a parcela social carente de meios de saneamento básico e ignorantes quanto a necessidade do combate das doenças relacionadas aos vermes no intestino.  Com isso, a desparasitação periódica consiste em fornecer à população vulnerável tratamento contra helmintos e protozoários sem a necessidade do exame de fezes, logo que, o meio de vivência é o espelho do modo de vida e de higiene daquele povo.

Tal medida é recomendada pela Organização Mundial da Saúde, pela Organização Pan-Americana de saúde e pelo Centro de Controle de Doenças dos quais inferem que esta medida pode ser efetivada por professores e agentes comunitários de saúde treinados, na justificativa que estes estão em contato direto com a população necessitada de anti-helmínticos. A administração desses remédios é para crianças acima de 1 ano de idade com um tratamento de 2 vezes ao ano ou de uma única vez de acordo com os índices de infestação intestinal por parasitas. No que tange ainda a prevenção, o tratamento excessivo deve ser evitado levando em consideração um possível desenvolvimento de resistência ao medicamento pelo parasita.

Assim, deve-se instigar na sociedade os hábitos de higiene e de uso periódico de antiparasitários no controle da transmissão e da reinfecção e da cobrança ao poder público de medidas sanitárias já asseguradas na Política Nacional de Saneamento básico. Visando uma perspectiva de superação dos males oriundos dos helmintos e protozoários, tendo em vista, que esses são delimitadores das funções do intelecto, da nutrição e de um bom desempenho físico do organismo humano.

Fonte: https://corujabiologa.wordpress.com/2017/01/24/e-o-que-tinha-o-jeca-tatu/ (2021).

Urge, dessa maneira, imitar a literatura moderna de Monteiro Lobato, o qual “Jeca Tatu” após receber informações sobre o parasitismo intestinal, mudar seus hábitos comportamentais e realizar o tratamento correto contra a presença de vermes no seu organismo, passou a não ser mais sinônimo de doença e preguiça, entretanto de homem sadio e próspero, tal perspectiva é confirmada com a célebre frase do autor “Jeca não é assim, ele está assim”.

Autor: Caio Vinicius Soares da Silva

Instagram: caiosoare15_

E-mail: cavisi17@gmail.com 

Referências

Parasitoses intestinais: Uma revisão sobre seus aspectos sociais, epidemiológicos, clínicos e terapêuticos.Site: periodicos.ufjf.br. Disponível em: ≤https://periodicos.ufjf.br/index.php/aps/article/view/14508/7809≥ Acesso em: 6 de junho de 2021 às 08:00

Guia de bolso: Doenças infecciosas e Parasitárias. Site: bvsms.saude.gov.br. Disponível em: ≤http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_bolso_4ed.pdf≥ Acesso em: 6 de junho de 2021 às 08:20

LOBATO, Monteiro. Urupês. In: Obras completas de Monteiro Lobato. São Paulo: Brasiliense, 1957.



O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

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