As vacinas disponibilizadas contra o Sars-CoV-2, causador da pandemia de COVID-19, fazem parte de um esforço mundial para barrar o avanço da doença, que já ceifou mais de 3 milhões de vidas, segundo a Universidade de Johns Hopkins, em Maryland, nos Estados Unidos. No Brasil, o plano de imunização contra a COVID-19 iniciou após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), autorizar, em 17 de dezembro de 2020, o uso emergencial das vacinas das indústrias AstraZeneca e Sinovac.
Incertezas na vacinação
Com mais de 12% da população vacinada e com uma série de estudos já publicados sobre a eficácia da vacina e com recomendações amplamente divulgadas, os brasileiros ainda enfrentam questionamentos, que impendem um maior alcance da vacinação no país, como a indagação de que o consumo de álcool poderia afetar a eficiência das vacinas disponibilizadas ou que quem ingeriu álcool não poderia ser vacinado. O país sofre com fakes news em geral, o que impacta diretamente na vacinação. Assim sendo, é profundamente importante a discursão sobre as contraindicações a respeito do consumo de álcool antes e depois de vacinados.
Segundo Evelin Placidos, presidente do diretório do Estado de São Paulo, da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm), entidade que ajudou o Ministério da Saúde a desenvolver o Plano Nacional de Imunização contra a COVID-19, “a ingestão de álcool não impossibilita que a pessoa seja vacinada, pois não existe uma interação com a vacina e o álcool’’. Porém, a calamidade publica que estamos vivendo, impede que seja efetivado um programa para entender as dúvidas e os principais problemas na vacinação por parte dos profissionais de saúde. Além do mais muitos profissionais foram deslocados dos seus postos de trabalho, o que influencia em erros e falta de conhecimentos básicos, o que implica na circulação de orientações em embasamento científico.
De acordo com Evelin, em muitos lugares, não vacinar um indivíduo embriagado, é perder uma oportunidade de imunizá-lo. Principalmente, quando se trata de regiões periféricas ou de populações de risco socioeconômico. E, portanto, profissionais de saúde devem estar seguros de que a ação de vacina não irá prejudicar ao indivíduo se ele estiver embriagado.
Atualmente, duas vacinas estão registradas para COVID-19, no Brasil, a Pfizer e AstraZeneca/FioCruz. As vacinas CoronaVac/Butantan e Janssen possuem autorização para uso emergencial. De acordo com documentos disponibilizados pelas farmacêuticas que desenvolveram as vacinas disponíveis no Brasil (Wyeth/Pfizer, FioCruz/AstraZeneca, Janssen/Janssen e Sinovac/CoronaVac) não existe quaisquer contraindicações ou precauções quanto ao consumo de álcool anteriormente ou posteriormente a imunização.
Consumo de álcool durante a pandemia
Sem dúvidas, o consumo de álcool durante a pandemia potencializou-se. E ele está relacionado diretamente com a danificação do microambiente gastrointestinal, que possui células que conferem uma primeira linha de defesa contra vírus e bactérias. Portanto, o consumo de álcool pode danificar as células como leucócitos, monócitos e outras muito importantes no sistema imunitário. Verificam-se também alterações dos níveis de citocinas, que são responsáveis pela sinalização da atividade do sistema imune. Em pacientes com COVID-19, verificou-se que elas são desajustadas pelo Sars-CoV-2 e impedidas de combater o vírus.
O uso regular e em maior quantidade durante o isolamento social ocasiona aumento da tolerância e dependência, em largo prazo. Entretanto, segundo Evelin Placidos, ‘’o uso crônico de álcool afeta a resposta imunológica do indivíduo por conta de uma deficiência do sistema imunológico, mas a vacina não leva risco do indivíduo desenvolver a doença, por se tratar de vacinas inativadas’’. Logo, a ingestão de álcool torna-se diretamente fator de risco para a infecção por COVID-19, mas a vacina não.
Efetividade das vacinas em uso no Brasil
Instituto Butantan/CoronaVac: a vacina utiliza vírus inativado, uma técnica que consiste na produção de vírus em larga escala em cultura de células, que serão posteriormente inativados por método físicos ou químicos. Os vírus utilizados nessa técnica não são capazes de replicação no organismo. A eficácia da vacina foi comprovada por meio de um arranjo contendo 2 doses em um intervalo de 2 a 4 semanas. Por meio dessa demonstração, foi possível verificar que a taxa de eficácia foi de 77,96% para casos sintomáticos que precisaram de assistência ambulatorial ou hospitalar e 100% contra casos graves e moderados. E apresenta uma eficácia geral de 50,38%, que considera casos leves da doença.
Fiocruz/AstraZeneca: contém partículas virais do vetor adenovírus recombinante (causador da gripe em chimpanzés), que não é capaz de replicar-se no interior das células humanas, e expressa a glicoproteína SARS-Cov-2 Spike (que é utilizada pelo vírus para ingressar nas células), que consequentemente desencadeia uma resposta do sistema imunológico contra essas partículas virais, gerando anticorpos. Para verificação de sua eficácia, foi utilizado um intervalo de 12 semanas entre duas doses, que demonstrou uma taxa de eficácia de 73,43% entre voluntários que tinham uma ou mais comorbidades. Tal taxa foi verificada também na população em geral.


Russos são recomendados a abstenção
Segundo o microbiologista que ajudou a desenvolver a vacina Sputinik V, Alexander Gintsburg, em seu Twitter, recomendou a abstenção de álcool três dias antes e depois de cada dose, não apenas com a Sputnik V, mas com todas as outras disponibilizadas até o momento. O governo Russo enfatizou a importância da abstenção 2 semanas antes da primeira dose e 6 semanas após, lembrando intervalo de 21 dias entre uma dose e outra. O que foi considerado por especialistas russos e americanos como extremista.
A Sputinik V foi desenvolvida pelo Instituto Gamaley, na Rússia, e divulgou recentemente os dados parciais da efetividade da vacina, com uma taxa de 91,6%, onde participou mais de 20 mil voluntários. O diretor executivo do Centro Internacional de Acesso a Vacinas, William Moss, da Universidade de Johns Hopkins, disse que não há dados para acatar conselhos para não consumir álcool antes ou após a imunização.
Conclusão
Como se verificou, é importante que o ministério da saúde possa auxiliar os profissionais de saúde sobre a vacinação, para que eles colaborem contra as fakes News de maneira mais efetiva. Diante do exposto, a informação de que o consumo de álcool pode imbuir a efetividade da vacina não é verídica ou que o consumo de álcool pode ser um agente facilitador para que o indivíduo seja infectado pelo Sars-Cov-2 após a vacinação, por se tratar de vacinas inativadas, ou seja, que não têm a capacidade de se multiplicarem no indivíduo. As vacinas inativadas geram uma resposta imunológica, que ocasiona a produção de anticorpos de memória contra o vírus.
Autor: Sebastião Ribeiro de Carvalho Neto
Instagram: @sribeirocn
Referências
– Brasil. Ministério da Saúde. Plano Nacional de Operacionalização de vacina contra COVID-19. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/media/pdf/2021/janeiro/29/planovacinacaocovid_v2_29jan21_nucom.pdf
– Russians have been told not to drink for 2 months after getting the COVID-19 vaccine: The Business Insider (Blogs on Demand). Dec 9, 2020; Newstex LLC, 2020. Language: English, Base de dados: Gale Academic OneFile
– Tempestade de citocinas pode explicar letalidade da covid 19, sugereestudo: https://www.cognys.com/materia/tempestade-de-citocinas-pode-explicar-letalidade-da-covid-19-sugere-estudo
– Efeito da Ingestão Aguda de Álcool na Microbiota do Trato Gastrointestinal e na Produção Local de IgA Secretora em Camundongos: https://doi.org/10.21876/rcsfmit.v1i1.30
– Consumo de álcool durante a pandemia da COVID-19: uma reflexão necessária para o enfrentamento da situação: https://scielosp.org/article/csp/2020.v36n10/e00124520/#:~:text=Durante%20o%20isolamento%2C%20essa%20associa%C3%A7%C3%A3o,da%20toler%C3%A2ncia%20e%20da%20depend%C3%AAncia.
– Covid-19: vacina Sputnik V tem 91,6% de eficácia, apontam testes de fase 3: https://super.abril.com.br/ciencia/covid-19-vacina-sputnik-v-tem-916-de-eficacia-apontam-testes-de-fase-3/
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
