1. Princípios da ética
Um conjunto de
regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo
social ou de uma sociedade. Essa é uma das definições de ética. Ou seja:
a ética depende do grupo que a determina. O que pode parecer moralmente
condenável no Brasil pode ser muito bem aceito em alguns países árabes ou
europeus, por exemplo. Obviamente, existem princípios que devem ser respeitados,
pois se confundem com a própria essência da medicina.
Alguns deles são os princípios da beneficência,
não maleficência, autonomia, equidade e Justiça. Explicando resumidamente cada
um deles:
Beneficência:
tratamento para o bem dos enfermos, maximizar os benefícios;
Não
maleficência: não prejudicar, não causar danos, minimizar os
prejuízos;
Esses dois primeiros princípios fazem parte da
base do que é a medicina. O próprio juramento de Hipócrates discorre sobre o
assunto. Que ideia representaria melhor a medicina do que fazer o melhor pelos
seus pacientes com uma ressalva adicional de não fazer nada que possa
prejudica-los?
Seguindo para uma abordagem mais atual,
falaremos dos princípios da autonomia, equidade e justiça.
Na graduação, repete-se diversas vezes a importância
de respeitar a autonomia do paciente, fornecendo apenas orientações e expondo
as possíveis consequências das decisões que eles possam vir a tomar em relação
ao seu quadro.
Esse é um ponto crucial no tocante à ética,
visto que, mesmo muitas vezes sabendo o que é melhor para o paciente, o médico,
por respeitar as decisões dele e da família, acaba entrando em um dilema
ético/moral em concordar com condutas que acredita serem ruins para o paciente.
O exemplo mais clássico, inclusive abordado no
próprio código de ética médica, versa sobre a realização de transfusões
sanguíneas em pacientes pertencente a religiões que não aceitam o procedimento
de transfusão sanguínea. Sabidamente, o médico deve respeitar a decisão do
paciente e familiares até o momento em que esse paciente se apresente em risco
de morte.
Mas isso faz mesmo sentido? Tratar alguém que
está em curva de piora com medidas que vão surtir efeitos paliativos e aguardar
uma piora importante para que se tome atitudes que realmente farão diferença
para salvar a vida daquele paciente? Sabemos que, em um paciente crítico, um
único episódio de hipotensão ou dessaturação piora sua morbidade e mortalidade.
Logo, protelar uma medida salvadora pelo
fato de o paciente “não estar tão mal ainda” não vai contra o verdadeiro motivo
pelo qual muitos de nós entregamo-nos à medicina: salvar vidas?
Muito mais que tentar responder essa pergunta
tão complexa e desafiadora, convido-os a refletir. No mundo moderno, temos cada
vez mais defensores do que julgam ser correto, acusando tudo e todos que não
são uníssonos às suas opiniões de preconceituosos e até mesmo fascistas.
Controversamente, os mesmos que apontam para seus “opositores” e os acusam
tratam a todos que não pertencem aos seus grupos com extrema intolerância e
discriminação, geralmente impedindo quaisquer tentativas de diálogo. Não há
espaço na medicina para esse tipo de comportamento. Necessitamos caminhar
juntos em prol da vida dos nossos doentes.
Para nós, que trabalhamos em emergências, essa
ideia fica ainda mais clara: escolhemos uma vida em que nossos pacientes não
podem escolher seu médico. Decidimos atender igualmente a todos, independente
de sexo, cor, religião, opção sexual ou mesmo da educação com que esses
pacientes nos tratam. Em um dia comum, o Emergencista encontra várias pessoas
que estão nos piores dias de suas vidas. Não cabe a nós julgar atitudes,
posturas e ideias de quem quer que seja. Devemos ser resilientes e focados:
nosso foco é manter nosso paciente vivo (se assim ele desejar).
Uma das posturas mais éticas que se pode ter é
estudar incansavelmente e atender todos os pacientes como iguais. Atender como
gostaria de ser atendido (tanto em postura como em nível de conhecimento e
capacidade).
Ao fazer isso, sendo parciais (pelo nosso
paciente) e sinceros com nossos pacientes e seus familiares, garantimos uma
consciência tranquila e, certamente, um menor número de “dilemas éticos” em
nossas mentes.