Gattaca, genoma e os anos 90
Em seu filme Gattaca, A Experiência Genética,
Andrew Niccol brinca com o imaginário de milhares ao criar um futuro distópico
– ou próximo – em que os seres humanos moldados pela engenharia genética
possuem vantagens em relação aos concebidos biologicamente.
A narrativa tem como protagonista Vincent
Freeman (Ethan Hawke), homem “biológico”, míope e com problemas cardíacos, que
sonha em se tornar astronauta, mas tem suas ambições podadas por um sistema
social que emprega o sequenciamento genético humano para selecionar os melhores
candidatos – leia-se geneticamente modificados – a preencher determinada vaga
de emprego.
O filme lançado em 1997 não escolheu a
temática por acaso, afinal a década de 90 fora fortemente marcada pelo
revolucionário e desafiador Projeto Genoma Humano (1990 – 2003).
O projeto, chefiado inicialmente por
James Watson, consistiu num esforço internacional e numa verdadeira corrida
para o mapeamento do genoma humano e sequenciamento dos nucleotídeos que o
compõem.
Publicados em 15 e 16 de fevereiro de
2001 nas revistas Nature e Science, os artigos traziam em seu corpo
“O Livro do Homem” e a certeza de que estavam inaugurando uma nova era
autodenominada “genômica”.¹
A era genômica trouxe consigo
infindáveis possibilidades e dilemas quanto à aplicação de tecnologia e
remodelamento do nosso genoma para criação de seres humanos mais “aptos à
sobrevivência”, palavras do próprio Watson.
Mais do que isso, o Projeto Genoma
Humano ensejou na comunidade científica a busca pelo desconhecido e misterioso,
pelos desdobramentos da genética, e permitiu que o tema, antes pertencente às
prateleiras de ficção científica, esteja nos maiores congressos de inovação do
mundo atual.
Uma vez decodificado, que tal alterá-lo?
Tornar o ser humano mais apto à sobrevivência ou ao menos limpar
seu genoma, para que doenças sabidamente com forte caráter genético sejam
extirpadas do seu DNA, é algo, no mínimo, controverso.
A polêmica reside não só na possibilidade de emancipar o indivíduo
dos seus encargos relacionados a doenças hereditárias, mas principalmente na
capacidade de alterar o seu mapa genético para melhor. Aos poucos, a engenharia
genética começa a flertar com a ideia de “pós-humanos”, livres de quaisquer
limitações impostas pela natureza física.
Logo, discernir entre livrar o indivíduo da herança genética
desfavorável (e muitas vezes letal) da simples melhora do genoma é o grande xis
da questão. Afinal, quem poderá definir o que é melhor para cada indivíduo?
A esquizofrenia e a criatividade, onde devemos melhorar?
Indivíduos esquizofrênicos, na sua maioria jovens, sofrem de uma
perturbação gradual e irreversível das suas faculdades mentais. Muitos passam a
ouvir vozes, executar ações estranhas e despropositadas, além do quase sempre
presente isolamento social devido a alterações na afetividade, comportamento,
vontade, percepção e linguagem.
Em 2013, um estudo realizou o sequenciamento paralelo massivo de
genes de 623 indivíduos jovens com esquizofrenia cujos familiares não
apresentavam a doença. Concluiu-se que, em 80% deles, a mutação ocorria no
cromossomo paterno e a idade do pai era um fator de risco.²
Também, o gene em questão fora encontrado em diversas famílias
independentes entre si, o que reforçava substancialmente a correlação do mesmo
com o transtorno.
A título de curiosidade, há relatos robustos na literatura que
indicam uma forte e intrigante relação do gene associado ao sistema do
complemento (C4). Observou-se que, em pacientes esquizofrênicos, a mutação do
gene C4 aumenta a quantidade e a atividade das proteínas C4A e C4B, resultando
numa poda sináptica excessiva durante o desenvolvimento.³
Você provavelmente, a esta altura do texto, está otimista com a
cura da esquizofrenia, certo? Temos fortes indícios de uma correlação genética
com a doença (aproximadamente 80%) e o gene, ao que tudo indica, foi
localizado.
Entretanto, o possível mapeamento do gene “doente” não é
suficiente para definir que a enfermidade se manifeste. É necessário avaliar
também as famigeradas penetrância e expressividade, o que, em outras palavras,
é assumir que não sabemos com exatidão o grau em que a doença pode vir a se
manifestar em cada portador do gene.
As variantes da esquizofrenia são diversas, das mais graves às mais
leves, e usualmente podem ser associadas com habilidades excepcionais dos
pacientes, como uma criatividade extraordinária por exemplo.
Neste sentido, um grande estudo organizado pela psicóloga Kay
Redfield Jamison, denominado Touched With
Fire, fez a correlação entre loucura e criatividade e compilou uma lista de
pessoas tocadasem certo grau pelo
transtorno, tais como Vincent Van Gogh, Virginia Woolf e Robert Lowell.⁴

Neste cenário, identificar e corrigir o gene dissonante da
esquizofrenia sem olhar para suas diversas variantes e graus de penetrância é,
talvez, eliminar o próximo Van Gogh da Terra.
Siddhartha Mukherjee, por outro lado, ressalta em seu livro “O
Gene” que, por mais que seja tentador romantizar a doença psicótica, não
podemos esquecer dos milhares de homens e mulheres que sofrem paralisantes
distúrbios mentais, cognitivos, sociais e psicológicos e que provocam, nas suas
palavras, “feridas devastadoras ao longo de toda uma vida”.⁵
Em vista disso, observe que, mesmo reduzindo o espectro da terapia
gênica para uma única e singular doença, com seus diversos desdobramentos
negativos, ainda não podemos falar em um posicionamento uníssono, pois o
assunto é, em seu âmago, controverso.
A terapia gênica
Já sabemos que o tema é problemático e
sua aplicabilidade vai além da simples aptidão tecnológica para realizá-lo,
mas, discussões à parte, podemos separar as terapias conceitualmente em dois tipos.
Primeiro, a terapia gênica em células
consideradas não reprodutíveis. Significa que sua modificação altera seu
funcionamento, mas não atinge o genoma humano e por isso não é passado de
geração em geração. A mudança não será transmitida ao embrião humano.⁵
Essa modalidade teve sua eficácia
relatada em um estudo publicado em 2014 no New
England Journal of Medicine para o tratamento de hemofilia. A doença,
resultado de uma alteração no fator de coagulação sanguínea, foi uma das
primeiras a ser atribuída a um único gene; fator de coagulação IX.⁶
No estudo, dez homens foram submetidos
a uma injeção contendo o vírus portador do gene fator IX e os resultados,
apesar da concentração baixa do gene, foram considerados potentes na
terapêutica dos pacientes com uma redução de até 90% em acidentes hemorrágicos.
O segundo, mais perigoso e deveras
polêmico, é através da modificação de células reprodutíveis, no qual a
alteração perpetrada na célula é transmitida de geração em geração. Neste caso,
a mudança é transmitida ao embrião humano.⁵
A alteração de células reprodutíveis
com o envolvimento do embrião humano foge da simples aplicabilidade da
tecnologia na correção de erros do genoma e adentra em questões mais profundas
que a ciência por si só dificilmente conseguirá resolver.
Infelizmente, nesta seara, nós
colecionamos alguns exemplos ruins, como o caso chinês de 2015, chefiado por
Junjiu Huang, que utilizou 86 embriões humanos de uma clínica de fertilização
in vitro.⁷
Dos 86 testados, 71 sobreviveram e
apenas em 4 descobriu-se que tiveram o gene inserido corretamente. Uma
verdadeira catástrofe, que fez com que o experimento fosse interrompido e
preocupou a comunidade científica aumentando o supervisionamento e a reprovação
de estudos mal feitos, com ampla violação da segurança e normas étnicas.
A fim de evitar tragédias que abalam o
meio científico, Mukherjee, em sua obra literária, fala sobre o triângulo do
limite, pois apenas “genes de alta penetrância, sofrimento extraordinário e
intervenções justificáveis” seriam passíveis de serem alvo da engenharia
genética.⁵ Os demais pertencem à linha tênue e ainda incompreensível dos
possíveis efeitos na humanidade.
CRISPR-Cas9, a democratização da engenharia genética
Em 2012, Doudna e Charpentier publicaram na revista Science o sistema de defesa microbiano
conhecido como CRISPR-Cas9. A proteína bacteriana possui uma habilidade
singular de edição e corte do genoma de uma maneira limpa e precisa, o que faz
com que basicamente qualquer gene consiga ser implantado no local desejado.⁸
O método, considerado padrão ouro quando o assunto é engenharia
genética, aumentou a acurácia das modificações e permitiu que o trabalho de
copiar e colar no genoma humano seja muito mais simples e barato.
Engana-se quem pensa que, assim como no filme Gattaca, somente os
ricos e poderosos terão acesso à engenharia de remodelação e melhora do genoma.
Pois, com o fácil acesso a determinados insumos, a ciência genética fervilha em
verdadeiros laboratórios de fundo de quintal.
É o que mostra, por exemplo, o documentário original da Netflix,
“Seleção Artificial”, em que o biohacker Josiah Zayner, ex-cientista da NASA,
trabalha com a mais alta e recente tecnologia de edição de genes na garagem de
casa.⁹

Zayner não só trabalha com algo
passível de alterar o rumo da humanidade, editando o livro do homem, como
comercializa kits prontos pela internet para que interessados, muitos sem
expertise na área, possam também brincar de mini-engenheiros da modificação
genética.
Assim, ficção e realidade mesclam-se neste novo mundo marcado pela
engenharia genética de alta precisão e fácil acesso, em que os que se aventuram
nessa tecnologia brincam de colocar à prova nossa concepção de raça humana.
Mesmo que não estejamos vivendo, ainda, numa distopia onde seres
humanos biológicos devam brigar por espaço com os geneticamente modificados,
como Vincent Freeman em Gattaca, a humanidade caminha, ao que tudo indica, a
passos largos para algo assustadoramente semelhante e que está logo ali, basta
dobrar a esquina. Aliás, não foi à toa que a NASA o elegeu como filme de ficção
científica mais plausível.
Geneticistas necessitam impreterivelmente adentrar no debate moral
do melhoramento genético e discriminação de fenótipos a fim de pacificar
questões e direcionar a evolução da humanidade de forma sábia, dado que não
sabemos como a bioética atuará para moldar essa ferramenta e evitar a eugenia
moderna do século 21.
No final, por mais que o retratado nesse texto pareça extraído
daquele filme mainstream de ficção
científica que não emplaca na bilheteria e é alvo de críticas mordazes, arrisco
dizer que estamos vivenciando a maior revolução tecno-científica da história da
humanidade.
Autor: Rafael Lobo de Souza
Instagram: @rafaelloboz