Cada vez mais a vacinação contra a COVID-19 avança no mundo, mas será que ela avança de forma igualitária? A desigualdade na distribuição global das vacinas foi tema de artigo publicado na revista JAMA Network, e pretendemos discutir aqui alguns dos pontos levantados pelos autores.
A pandemia está onde as vacinas não chegaram
Estamos vivenciando uma mudança no quadro global da pandemia. Uma assimetria começa a se delinear.
Conforme países como EUA conseguem controlar consideravelmente os casos, em outros locais temos ainda recordes de mortes e novos casos surgindo.
O centro da pandemia mudou-se para a região sul global. Juntos, sudoeste asiático e américa latina respondem por 75% das mortes semanais ao redor do mundo.
A américa latina também possui o maior número de mortes per capita. Mas, o que pode ter ocasionado esta mudança do centro da pandemia?
Certamente precisamos olhar para os números relacionados às vacinas para entender o novo contexto.
A desigualitária distribuição das vacinas
Se considerarmos os países de baixa e média baixa renda, estes representam 40% da população mundial.
Agora, ao considerar o suprimento das vacinas recebidos por estes países, a discrepância se evidencia: eles receberam apenas 15,2% do suprimento global.
O contraste se acentua quando comparamos com os dados nos EUA, por exemplo, onde mais da metade da população adulta já está vacinada.
Se mudarmos de lado no globo, a situação é ainda mais delicada. Na África Subsaariana, há doses suficientes para vacinar apenas 18% dos profissionais de saúde e idosos.
Fatores que explicam a distribuição desigual das vacinas
Alguns fatores podem explicar a distribuição desigual das vacinas. Um deles é que os países de renda mais alta compraram antecipadamente doses que cobririam toda a sua população.
Um outro fator limitante é que alguns acordos feitos com objetivo de prevenir a distribuição assimétrica não foram totalmente cumpridos.
Isto porque algumas empresas não conseguiram cumprir com a entrega das doses combinadas nestes acordos.
Algumas soluções propostas para resolver a desigualdade vacinal
Os autores do artigo que aqui resumimos apontam algumas medidas que poderiam amenizar a situação.
Um deles é a isenção da propriedade intelectual das vacinas, que poderia permitir que produtores locais produzissem mais vacinas da COVID-19.
A renúncia da propriedade intelectual, alinhada com o compartilhamento de como fazer as vacinas (métodos, tecnologias necessárias, etc.), de fato poderia acelerar o processo de fabricação de mais vacinas.
Isto certamente iria requerer um esforço enorme de autoridades políticas, sanitárias e representantes comerciais.
Uma outra forma, um tanto mais delicada, porém mais rápida, seria promover a realocação das vacinas já compradas.
Alguns países já doaram doses para a iniciativa COVAX, que das 2 bilhões de doses previamente acordadas, só conseguiu entregar até o momento 88 milhões.
Caso as doações fossem mais aceleradas, com maior número de países doando um maior número de vacinas, talvez fosse possível amenizar a desigualdade na distribuição das vacinas da COVID-19 ao redor do mundo.




