Saúde mental dos médicos: estudo revela que 69,4% dos médicos já apresentaram sinais de depressão; entenda os desafios da saúde mental dos médicos.
Se você é médico ou estudante de medicina, é muito provável que já tenha se sentido esgotado emocionalmente, questionado o sentido do seu trabalho e talvez até o sentido da sua vida. Pelo menos é isso que dados de pesquisas nos mostram: estudo realizado no Brasil apontou que 69.4% dos médicos já apresentou sinais de depressão durante a vida, 26,8% têm um diagnóstico atual de depressão e 23,4% apresentam sintomas depressivos, mas não fazem acompanhamento.
É verdade que vivemos no Brasil como um todo uma crise severa de saúde mental. Dados da população geral fornecidos pelo Ministério da Previdência Social apontam um crescimento de 68% nos afastamentos por saúde mental de 2023 para 2024, um número que vem crescendo exponencialmente ano após ano, e que atingiu um número absoluto de 470mil afastamentos em 2024.
No entanto, é preciso saber que se você é profissional da área da saúde, o seu risco de desenvolver transtornos de saúde mental é aumentado em relação a população geral. 7 a cada 10 médicos apresentarão depressão ao longo da vida, além de ter um risco de suicídio de 3 a 5 vezes maior que a população geral.
Diversos fatores se correlacionam com essa elevada taxa de suicídio entre médicos, dentre eles questões relacionadas a transtornos psiquiátricos, como depressão, ansiedade, dependência química, mas também fatores ambientais, como questões relacionadas às condições de trabalho.
A síndrome de Burnout, ou síndrome de esgotamento profissional, é uma afecção caracterizada pela exaustão, esgotamento físico e mental relacionado ao trabalho, seja por uma sobrecarga de volume, excesso de pressão ou responsabilidade, ou mesmo ambiente inseguro.
Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos pelo Medscape identificou taxas de Burnout elevadíssimas entre as diversas especialidades médicas. Mas é preciso observar com especial atenção a Medicina de Emergência, que se encontra no topo dessa lista.

Médicos emergencistas trabalham na linha de frente do cuidado, na atenção direta aos pacientes que chegam em momentos agudos e críticos; lidam com a porta de entrada ao sistema de saúde no Brasil, com alto volume de pacientes, em geral baixa disponibilidade de recursos e sob uma pressão constante por resultados de métrica e produtividade. Além disso, a cada plantão são tomadas centenas de decisões clínicas relevantes. É um cenário de sobrecarga física, cognitiva e emocional, prato cheio para o desenvolvimento de Burnout.
Existe um outro problema que espreita essa situação: grande parte dos médicos trabalhando nos departamentos de emergência do Brasil não são emergencistas, mas recém-formados em seu primeiro emprego, pois esta é também a porta de entrada para o mercado de trabalho. Em um cenário já complexo, adiciona-se a falta de preparo técnico do profissional, e temos um cenário perfeito para o sofrimento mental.
É indispensável pensarmos sobre isso, se não porque desejamos cuidar dos nossos médicos, porque desejamos cuidar dos nossos pacientes: afinal, os dados já mostram que a saúde mental do profissional afeta os resultados obtidos no cuidado aos pacientes, também mentalmente adoecidos.
O filósofo Byung-Chul-Han cunhou o termo Sociedade do Cansaço, uma teoria segundo a qual cada época tem suas enfermidades e a enfermidade da nossa época são as patologias neuropsíquicas, que se alicerçam fortemente sobre uma sociedade do desempenho, da produtividade exagerada, da autocobrança e da autoafirmação por meio do trabalho.
A Sociedade do Cansaço seria uma expressão do neoliberalismo, em uma sociedade que transita do modelo disciplinar descrito por Focault, e passa a desempenhar a subversão da liberdade como um instrumento de controle.
Compreender esse novo cenário social no qual estamos imersos é essencial para que possamos descobrir quais os caminhos de transformação possíveis na prevenção dos transtornos mentais que afetam a categoria médica para além de ações individuais, mas visando modificações estruturais. É preciso cobrar aos órgão responsáveis que deem garantias de dignidade no trabalho.
É importantíssimo realizar acompanhamento psicológico, manter uma rotina de alimentação saudável e atividade física; garantir espaço no cotidiano para hobbies e relacionamento com a família e amigos. Mas além disso, medidas sistêmicas da estrutura ambiental tanto da sociedade quanto do espaço de trabalho precisam ser garantidas.
Nessa toada o Ministério do Trabalho anunciou a atualização da NR-1, norma que regulamenta as diretrizes sobre saúde no ambiente do trabalho. A fiscalização passa a ser mais intensa, na teoria, podendo render inclusive multas. Mas a sua publicação não é garantia e implementação. Ainda será preciso muita cobrança para garantir seu cumprimento.
Outra situação danosa para a saúde mental dos trabalhadores da saúde é a exposição a violência. Segundo dados publicados no site da ABRAMEDE o estudo BRAVE (Brazilian Workplace Violence in Emergency Department) conduzido com 769 profissionais de saúde de diferentes regiões do Brasil, a maioria médicos (84%), revelou que quase 80% dos entrevistados sofreram algum tipo de violência nos últimos seis meses. A maior parte dos casos envolve agressões verbais (79,5%), mas 12,1% relataram ter sido vítimas de violência física. Além disso, 40,3% afirmaram ter presenciado episódios de violência contra colegas durante o plantão. Os agressores incluem visitantes, pacientes e até outros profissionais de saúde.
Em 02/09/2025 o CFM publicou a resolução 2.444/25, estabelecendo garantias de segurança para o médico no exercício de sua profissão em qualquer unidade nacional, assegurando sua integridade física e emocional. A publicação da resolução é um passo na direção da construção de uma assistência a saúde mais segura para todos.
O número elevado de transtornos mentais e suicídios entre médicos precisa ser olhado com cautela. É um problema complexo, multifatorial, que precisa de ações coletivas e governamentais para ser enfrentado. As condições de trabalho precisam melhorar!
Durante o Setembro Amarelo é indispensável que nós nos dediquemos a divulgar medidas de prevenção ao suicídio. Mas é fundamental também buscarmos transformações sociais que nos mantenham seguros e saudáveis.
Atenção: Caso esteja apresentando ideação suicida, procure ajuda de um profissional! Você também pode encontrar apoio no Centro de Valorização da Vida através do telefone 188 ou no site https://cvv.org.br/