Confira nesse post detalhes sobre a complexidade do paciente em uti e como a família é importante no processo terapêutico.
A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é um local em que os pacientes necessitam de uma monitorização e assistência ininterrupta. Um ambiente de acesso restrito e grande instabilidade, tanto para o médico e os outros profissionais de saúde quanto para o paciente e seus familiares.
É conhecida como a unidade de internação onde ocorrem atendimentos de alta complexidade a pacientes em situações críticas, como
- doenças graves,
- grandes traumas e
- cirurgias com risco de complicações.
O básico sobre o funcionamento da UTI
O controle terapêutico visa o cuidado do doente e não da doença, visto que as perspectivas de cura de algumas doenças podem ser limitadas.
A meta terapêutica seja a redução de danos, estabelecimento do bem-estar e reestruturação das capacidades vitais desse paciente na medida do possível.
Neste espaço de grande adrenalina e apreensão, aliar os valores humanísticos no atendimento e entender as visitas dos familiares como alicerce terapêutico é um grande desafio. Isso porque a UTI é um local conhecido pelas necessidades tecnicista e biologista do manejo da vida.
Qual é a realidade do paciente em UTI?
Sendo o paciente aquele
que está sob os maiores cuidados e também o agente principal do processo que
envolve toda a complexidade da UTI, é de suma importância destacar as
implicações da sua internação.
As consequências da
internação desse paciente se dão tanto à gravidade da doença quanto por conta
de fatores pertencentes ao ambiente da terapia intensiva.
A
maneira como o paciente enfrenta a hospitalização também vai depender de
fatores intrínsecos individuais, como personalidade, religião e estado
emocional, que culminam na aceitação ou não do cuidado e da sua condição.
Para o paciente em UTI, além da dor e sofrimento fisiopatológicas decorrentes da doença ou lesão, há também uma despersonalização decorrente das mudanças espaciais.
Estar fora do seu conforto cotidiano social e profissional. Bem como a exposição à diversos procedimentos invasivos em um ambiente de tensão, gera medo e ansiedade, podendo desencadear delírios, alucinações e psicoses que dificultam o processo de cuidado.
Além disso, esses pacientes sofrem pela privação do contato familiar, seu elo mais confiável e de maior conforto para lidar com sua nova realidade.
Equipe de profissionais na UTI
A UTI, com toda sua complexidade, necessita de uma equipe multiprofissional especializada.
É preciso estar preparada com conhecimento teórico, competência técnica e habilidades de comunicação para lidar com as peculiaridades que envolvem o local.
Quais são as particularidades desse ambiente de trabalho?
- carga horária extensa,
- elevado número de pacientes graves sujeitos à mudanças súbitas de estado geral,
- grande número de procedimentos,
- poucas horas de sono e
- a escassez de materiais são alguns dos fatores que levam ao estresse da equipe multiprofissional na UTI.
Esses são os fatores que, mais tarde, podem levar os profissionais a cometerem erros em procedimentos, investigação clínica, em medicações e uma maior dificuldade em tomar decisões cruciais para a vida dos pacientes.
Além disso, a alta carga de trabalho também distancia a equipe como um todo, diminuindo a comunicação e as discussões dos casos dos pacientes, o que empobrece o debate acerca das melhores alternativas terapêuticas para cada paciente.
Também distancia os profissionais do próprio paciente, dificultando o estabelecimento de uma relação de confiança entre quem cuida e quem é cuidado. Dificultando o processo terapêutico do mesmo, bem como distancia da família, que deveria ser um alicerce primordial para melhorar a qualidade de vida e o período de hospitalização do doente.
´Paciente em UTI: protocolo SPIKES
Sendo a UTI um local de grande instabilidade, os contatos com diversas sequelas e com a morte são inevitáveis e a comunicação de informações que repercutem negativamente na vida do paciente e seus familiares é recorrente.
Por isso, é importante sistematizar a comunicação de más notícias, sendo o protocolo SPIKES o mais conhecido e utilizado atualmente.
S – Preparando-se para o encontro (Setting Up the Interview)
Setting Up the Interview consiste em esquematizar e realizar um ensaio mental das colocações que serão feitas, o modo como vai se comunicar com o paciente e/ou sua família e a forma de responder às reações e aos questionamentos dos mesmos.
Além disso, também é importante ensaiar a postura, sendo o ideal sempre o contato visual demonstrando verdade e empatia.
P – Percepção (Perception)
“Antes de contar, pergunte”, ou seja, consiste em investigar o que a pessoa que está recebendo a notícia sabe sobre a condição do doente.
I – Convidando para o diálogo (Invitation)
Discutir a transmissão das informações com o paciente, ou seja, identificar até onde o paciente quer saber sobre sua condição.
K – Transmitindo as informações (Knowledge)
Consiste em transmitir as informações deixando claro que se tratam de más notícias, adequando-se ao vocabulário e nível de compreensão do paciente.
E – Expressando emoções (Emotions)
Dar tempo a quem está recebendo a notícia, aguardando suas reações emocionais, que podem ir do choro ao silêncio.
S – Resumindo e organizando estratégias (Strategy and Summary)
Discussão do plano de tratamento e das perspectivas futuras para o paciente.
A família e o paciente em UTI
É necessário entender que o paciente faz parte de uma família. A família é responsável pelo cuidado do mesmo. Tornando necessário o acolhimento desses entes queridos para que se tornem ativos no processo terapêutico do paciente. Então, de que forma a família pode ajudar?
- Comunicação: o familiar na UTI é de grande valia por tornar-se um elo de comunicação entre o paciente e a equipe de saúde. Uma vez que muitos pacientes sentem vergonha ou ficam desconfortáveis em falar com os profissionais. Além disso, o estímulo constante da comunicação faz o paciente se soltar mais e diminui a tensão presente no local.
- Movimentação e Percepções sensoriais: para muitos pacientes em condições graves que não conseguem falar, por exemplo, o estímulo da família através de percepções sensoriais como piscar os olhos ou mexer os dedos para confirmar ou negar algo já é de grande valia. Isso porque esses estímulos mantêm o paciente em uma funcionalidade adaptada à sua condição.
- Apoio emocional: a presença de alguém que o paciente já conhece e confia dá a esse familiar também um status de confidente. É com quem o doente pode dividir sua dor, seus medos, angústias e percepções sobre sua condição e seu tratamento, resultado do desgaste emocional daquela experiência.
Conclusão
Assim, a inserção dos familiares na UTI é de grande importância no enfrentamento da condição do paciente.
- Aumentando sua motivação,
- diminuindo o estresse,
- trazendo mais conforto e
- estabilidade emocional,
Mostrando que a família é um bem muito negligenciado na sociedade na área da saúde. Poderia ser introduzido de forma mais ativa no processo de manejo da vida dos pacientes em terapia intensiva.
Autor: Ian Kraychete
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