A automedicação é uma problemática presente em grande parte do cenário brasileiro, principalmente em se tratando de medicamentos fitoterápicos e de uso controlado.
De acordo com RIBEIRO & HEINECK, 2010, “os medicamentos estocados em maior número foram: analgésicos (11,15%), seguidos dos diuréticos (6,42%), antibacterianos para uso sistêmico (5,82%), anti-inflamatórios (5,08%) e antiácidos (4,10%)”.
Fisiologicamente, o uso desinformado e desenfreado desses fármacos pode gerar prejuízos evidentes, já que possíveis efeitos colaterais poderiam ser desencadeados no organismo do indivíduo durante a ingestão desses fármacos, situação conhecida como Reação Adversa a Medicamentos (RAM) – potencializada na automedicação.
Principais efeitos fisiológicos
desencadeados pela automedicação
Dentre os
medicamentos mais estocados – de acordo com RIBEIRO & HEINECK, 2010 – os
anti-inflamatórios e antibióticos encaixam-se como aqueles que geram mais
prejuízos ao organismo humano quando ingeridos de maneira irracional, já que
são remédios de uso controlado e que podem gerar dependência e seleção natural
inapropriada de micro-organismos patógenos. Alguns desses efeitos também são
muito observáveis no uso de fármacos do tipo benzodiazepínicos, principalmente
dentre a comunidade idosa. Esta é uma classe de medicamentos que induz a um
tipo de dependência química e, inclusive, sintomas de abstinência,
desencadeando, portanto, riscos eminentes de saúde pública. (LARANJEIRA &
CASTRO, 1999)
Incidência da automedicação
A
automedicação é mais frequente entre as mulheres, já que este é um público que
possui uma maior preocupação em relação ao cuidado à saúde e, desse modo, busca
diversas formas para atenuar determinada patologia, por mais que estas
alternativas não sejam tecnicamente saudáveis a longo prazo (ARRAIS et al.,
2016). Assim, o cuidado integral em saúde em relação a essa temática deve se
atentar principalmente no público feminino, desenvolvendo estratégias de
promoção em saúde pública que visem a redução de agravos advindos da
automedicação na comunidade feminina.
A polifarmácia
Um ponto de
relevância clínica dentro do cenário do cuidado farmacológico é a ocorrência da
chamada polifarmácia na maioria das famílias brasileiras. Este fenômeno é
definido como uma extensa quantidade de medicamentos ingeridos por um indivíduo
que, na maioria das vezes, servem para a mesma finalidade terapêutica.
Importante salientar que tal situação ocorre principalmente na comunidade
idosa, já que esta frequenta diversos especialistas médicos que, na maioria dos
casos, atuam de maneira isolada uns aos outros, sem se atentar ao contexto
individual de cada paciente.
Exemplificando,
quando um determinado especialista nem sequer pergunta ao paciente quais os
fármacos ele já utiliza anteriormente à consulta, existe o risco de este
profissional da saúde recomendar o uso de medicamentos com um mesmo mecanismo
de ação dos já ingeridos pelo paciente, o que poderia gerar um distúrbio
fisiológico grave advindo do excesso medicamentoso no organismo deste usuário.
Portanto, o simples ato de indagar ao paciente quais os medicamentos ele já faz
o uso, para descartar a indicação de remédios já utilizados por este usuário de
saúde, contribui para evitar síndromes metabólicas advindas do excesso de
drogas laboratoriais. (SECOLI, 2020)
A paradoxal relação entre o modelo
biomédico de saúde e a orientação farmacêutica médica
O modelo
biomédico de saúde, ou seja, aquele que não leva em consideração o sujeito como
um todo num contexto único, é indiscutivelmente um grande empecilho no papel
ideal do profissional de saúde quando se trata de atenção básica. A principal
atribuição desses trabalhadores é a atenção integral aos usuários de saúde,
corroborando para um tratamento efetivo a uma determinada patologia e, desse
modo, impedindo determinados riscos terapêuticos. O médico, portanto, deve
explicitar e orientar o uso de todos os medicamentos indicados, apresentando a posologia
adequada, redigindo a receita com letra legível, além de atender cada caso como
sendo individual, atentando-se ao contexto de cada paciente. Num usuário
analfabeto, por exemplo, devem-se utilizar outras formas de receituário, para
que o tratamento seja um processo mútuo, entendível por ambas as partes.
(ALBUQUERQUE, et al., 2016)
Anti-hipertensivos – onde eles se
encaixam?
Em destaque,
existe uma problemática referente à falta de conhecimento em relação aos
anti-hipertensivos, uma vez que a maioria dos médicos os indicam
generalizadamente, ou seja, como se toda essa classe medicamentosa fosse
indicada numa só posologia e num só contexto. Esse descaso biopsicossocial em específico
pode, em algumas circunstâncias, não atender a casos singulares de crises
hipertensivas e, assim, desencadear ainda mais distúrbios cardiovasculares.
Um embaraçoso
contexto relacionado à automedicação no Brasil é a não atenção da população às
datas de validade. Assim como especificado em dados de uma pesquisa realizada
em Ibiá, no estado de Minas
Gerais, por Ribeiro & Heineck (2010), “embora exista no município um
sistema de recolhimento de medicamentos vencidos por parte dos Agentes
Comunitários da Saúde, foi encontrada uma proporção de 18,5% de medicamentos
com o prazo de validade expirado”. Esse contexto representa um grave risco à
fisiologia corpórea desses indivíduos moradores de Ibiá, uma vez que a ingestão
de medicamentos vencidos altera consideravelmente a homeostasia corporal.
Desse modo, é evidente que uma educação permanente em saúde que
foque na ampliação do uso racional de medicamentos é de suma importância para
atenuar os danos gerados pela automedicação no país. O fato de se ter um amplo
estoque de medicamentos na maioria das casas brasileiras deve ser revisto e o
desenvolvimento de políticas públicas para que todos os graves efeitos sejam
sanados são pontos de intervenções indispensáveis. Portanto, a orientação e o
planejamento de atenção básica são critérios chaves na perpetuação de uma saúde
pública eficiente e acolhedora.