A apresentação da depressão em homens e sua relação com o suicídio | Colunistas
Segundo a OMS, o suicídio é a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo. No Brasil, o mesmo ocupa a terceira posição para essa faixa etária. Dentre esses jovens, a gritante maioria é composta de homens. O fato de os homens estarem se matando muito mais do que as mulheres pode estar relacionado a um problema que, por muito tempo, ficou silencioso: a masculinidade tóxica.
Homens crescem com a ideia de que devem reprimir tudo aquilo que os distancia do masculino. O medo de serem vistos como fracos ou frágeis começa na infância e se perpetua pela vida inteira, o que acaba gerando uma eterna tentativa de provar a si mesmos diante de outros homens. Esse receio de demonstrar emoções e procurar ajuda culmina em casos de adultos sobrecarregados e deprimidos que, num ato impulsivo, podem levar ao suicídio.
Afinal, o que é a masculinidade tóxica?
Na sociedade atual, masculinidade tóxica ou ideologia de masculinidade tradicional, como é chamada em outros países, se refere ao conjunto de comportamentos e ideias estereotipadas de que homens não devem expressar emoções, devem ser sempre fortes e devem ser provedores dentro de seus lares. Também há correlação com comportamentos violentos e prática sexual irresponsável, gerando danos ao próprio homem e também a quem convive no seu meio.
Relação entre suicídio e depressão
Um estudo feito nos Estados Unidos e publicado na revista JAMA Psychiatry demonstra a relação entre os efeitos colaterais da masculinidade tóxica e o risco de suicídio entre homens. O estudo concluiu que há efeitos indiretos no que diz respeito aos fatores de risco do suicídio, o que, nesse caso, faria referência ao fato de internalizar sentimentos, e acarretaria no desenvolvimento de distúrbios ou transtornos mentais.
Outra pesquisa, relatada na revista da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, analisou a publicação de 53 artigos sobre o suicídio, publicadas entre 2000 e 2010 e constatou que, do total, 41 desses artigos associaram o suicídio à depressão. Ainda nessa questão, a Associação Brasileira de Psiquiatria, em sua cartilha de prevenção ao suicídio, refere que, aproximadamente, 96% dos casos tinha relação com algum transtorno mental, sendo a maioria o transtorno de humor.
A depressão é definida pelo DSM 5, como uma mudança do funcionamento habitual do indivíduo, que inclui, pelo menos, 5 dos 10 sintomas (humor deprimido, diminuição do interesse ou prazer, mudanças no apetite e no peso, mudanças no padrão de sono, agitação ou retardo psicomotor, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inutilidade ou culpa, redução da concentração e da capacidade de raciocínio e pensamentos suicidas) por, no mínimo, 15 dias.
Tendo em vista essa definição, os pensamentos de morte ou a chamada “ideação suicida”, fazem parte do quadro clínico da depressão. Isso não quer dizer que todo deprimido é suicida e nem que todo suicida é deprimido, mas reforça o fato de que há uma forte correlação entre ambas as entidades. Embora seja mais comum em mulheres, a depressão em homens pode ser mais difícil de ser identificada, devido à complexidade dos sintomas e à dificuldade masculina de expressar seus anseios.
O gatilho do impulso suicida
No livro “O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão”, o escritor Andrew Solomon diz que “o suicídio não é um ato de passividade; é o resultado de uma ação”. O que ele quer dizer com isso é que o suicida age por uma combinação de vontade própria, dirigida por um pensamento rígido, e impulsividade. Mas de onde surge essa impulsividade?
Ainda em seu livro, Solomon cita um estudo post-mortem que relata que os cérebros de suicidas tinham um nível mais baixo de serotonina em certos pontos, o que favorecia a impulsividade. Nesse contexto, também cabe ressaltar que homens tendem a ter níveis mais baixos de serotonina que mulheres e que o estresse também é um importante fator de diminuição desse neurotransmissor.
Com isso, pode haver uma relação entre homens com sobrecarga de estresse, dificuldade em buscar ajuda terapêutica, seja pelos estigmas que acompanham os transtornos mentais ou pela aversão em demonstrar fraqueza, que em consequência disso possuem baixos níveis de serotonina, explicando a alta taxa de suicídio em pessoas do sexo masculino.
Abordagem do paciente suicida na emergência
O primeiro contato com o paciente deve ser feito de maneira cuidadosa, em um ambiente calmo, seguro e privado. É de suma importância que sejam retirados objetos que possam oferecer riscos à integridade do paciente e da equipe.
Se a tentativa foi consumada, deve-se atender primeiro os problemas médicos urgentes, como cortes ou intoxicação.
No caso da identificação de um potencial suicida, classificar o risco de suicídio:
| No ultimo mês: | NÃO | SIM |
| Pensou que seria melhor estar morto (a) ou desejou estar morto (a)? | 0 | 1 |
| Quis fazer mal a si mesmo (a)? | 0 | 2 |
| Pensou em suicídio? | 0 | 6 |
| Pensou numa maneira de se suicidar? | 0 | 10 |
| Tentou o suicídio? | 0 | 10 |
| Ao longo da vida: | ||
| Já fez alguma tentativa de suicídio? | 0 | 4 |
Resultado: 1-5 pontos = baixo risco; 6-9 pontos = risco moderado; ≥ 10 pontos = alto risco
Baixo risco: conversar com o paciente e indicar terapia psicológica, se possível.
Médio risco: Devido ao risco maior de repetição ou efetivação da tentativa, considerar internação psiquiátrica. Se não é possível, fazer acompanhamento médico periódico e trabalhar com a família do paciente.
Alto risco: Internação imediata ou encaminhamento psiquiátrico urgente.
Como ajudar a mudar essa realidade?
A depressão não é causada por um único fator. Sabe-se que há influência genética, neurológica e também do meio onde o indivíduo está inserido. Sendo assim, tendo em vista a incapacidade de modificar o fator genético, os meios de prevenção ficam restringidos à terapia medicamentosa e psicológica, com acompanhamento de psicólogos e/ou psiquiatras. Com respeito ao sexo masculino, é importante ressaltar que o melhor meio de acabar com os estigmas que a masculinidade tóxica e a sociedade patriarcal impõem é a conscientização. Devem ser feitas campanhas em prol do acolhimento de homens, principalmente àqueles que se encontram em etapas de formação de personalidade.
Sobre o suicídio, cabe reforçar que é necessário prestar atenção aos principais fatores de risco – a presença de transtornos mentais e tentativas prévias de suicídio – porém atentar-se a outros fatores importantes, como o uso de substâncias psicoativas, isolamento social, impulsividade, facilidade de acesso a meios letais e desesperança.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA. Disponível em: Suicidio-Comportamentosuicida.pdf (segurancadopaciente.com.br)
Association of High Traditional Masculinity
and Risk of Suicide Death: Secondary Analysis
of the Add Health Study. Disponível em: Association of High Traditional Masculinity and Risk of Suicide Death: Secondary Analysis of the Add Health Study | Psychiatry | JAMA Psychiatry | JAMA Network
Behr, De Oliveira, Dondonis, Spanemberg. MANEJO EM EMERGÊNCIA DO PACIENTE SUICIDA. Disponível em: MENINGIOMAS (bvsalud.org)
Maculinidade tóxica fará com que 1 em cada 5 homens nas Américas não alcancem os 50 anos. Disponível em: OPAS/OMS Brasil – Masculinidade tóxica fará com que 1 em cada 5 homens nas Américas não alcancem os 50 anos (paho.org)
Solomon, Andrew. O Demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão. Nova York. 2001.
Suicídio. Disponível em: Suicídio – OPAS/OMS | Organização Pan-Americana da Saúde (paho.org)
Suicídio no Brasil e América Latina: revisão bibliométrica na base de dados Redalycs. Disponível em: Vista do Suicídio no Brasil e América Latina: revisão bibliométrica na base de dados Redalycs (sprgs.org.br)