A Medicina Intensiva é uma das especialidades mais fascinantes e desafiadoras da prática médica. Dedicar-se ao cuidado do paciente crítico dentro da UTI representa, diariamente, a oportunidade de gerar impacto real na vida de pacientes e familiares.
No entanto, como toda especialidade médica — especialmente uma relativamente jovem — a Medicina Intensiva ainda é cercada por estereótipos e mitos, muitos deles perpetuados até mesmo entre médicos em formação.
Hoje, a sociedade reconhece cada vez mais a importância do especialista no cuidado do paciente grave. Se você está saindo da faculdade e ainda acredita que o intensivista é apenas o médico da “droga vasoativa e do monitor”, este texto é para você.
1. “Todo mundo que trabalha em UTI é intensivista”
💬 De jeito nenhum!
Assim como realizar uma lavagem de ouvido não transforma ninguém em otorrinolaringologista, ou interpretar um eletrocardiograma não faz um cardiologista, dar plantão em UTI não qualifica automaticamente um médico como intensivista.
A Medicina Intensiva exige formação estruturada e competências específicas, que envolvem:
- Reconhecimento e tratamento de condições agudas potencialmente fatais
- Planejamento do cuidado e da reabilitação
- Gerenciamento de equipes
- Realização de procedimentos
- Noções de gestão da unidade
Do ponto de vista ético e legal, é considerado intensivista o médico que concluiu residência em Medicina Intensiva e/ou foi aprovado na Prova de Título de Especialista em Medicina Intensiva, realizada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB).
2. “Médico intensivista só lida com paciente que vai morrer”
💬 Mentira!
Embora a UTI concentre pacientes mais graves, a maioria se recupera e recebe alta. Atualmente, a taxa de sobrevivência supera 80% na maioria dos hospitais.
Além disso, a análise da mortalidade isoladamente é inadequada. Devem ser considerados fatores como:
- Motivo da admissão (clínico, cirúrgico eletivo ou de urgência)
- Idade e comorbidades
- Gravidade na admissão
Mais do que reduzir mortalidade, o intensivista atua ativamente na recuperação funcional e reabilitação. A UTI moderna não olha apenas para a deterioração clínica, mas também para o pós-UTI.
3. “Na UTI, a tecnologia resolve tudo”
💬 Errado!
A tecnologia é uma ferramenta, não uma solução mágica.
Julgamento clínico, individualização da conduta, comunicação efetiva e trabalho em equipe continuam sendo pilares essenciais da boa prática intensivista.
4. “Não dá para criar vínculo com o paciente na UTI”
💬 Absolutamente errado!
Mesmo em pacientes sedados ou intubados — que não representam a maioria nas UTIs modernas — o vínculo com a equipe e com os familiares é fundamental.
A humanização do cuidado é um dos pilares da Medicina Intensiva contemporânea e traz benefícios claros para:
- Pacientes
- Familiares
- Profissionais de saúde
Curiosamente, UTIs que colocam o paciente no centro do cuidado apresentam menor incidência de burnout entre os profissionais. Cuidar bem dos outros também faz bem a quem cuida.
5. “Medicina Intensiva não tem futuro”
💬 Fake news total!
A demanda por intensivistas cresce de forma contínua, impulsionada por:
- Envelhecimento populacional
- Aumento da complexidade clínica
- Avanços no suporte à vida
Além disso, muitas regiões do Brasil apresentam grave escassez de intensivistas, com menos de 3 especialistas por 100 mil habitantes.
Dados detalhados podem ser consultados no documento da AMIB: “A Medicina Intensiva no Brasil: Perfil dos Profissionais e Serviços de Saúde (2024)”.
6. “O intensivista vai viver de plantão para sempre”
💬 Errado!
Antes de tudo, vale lembrar: dar plantão não é algo necessariamente ruim.
Ainda assim, a Medicina Intensiva oferece diversas possibilidades além do plantão:
- Atuação como diarista
- Responsável técnico de UTI
- Gestor hospitalar
- Docente ou pesquisador
- Consultor
Além disso, muitos intensivistas atuam em nichos como Cuidados Paliativos e Terapia Nutricional, desde que cumpram os pré-requisitos específicos de cada área.
7. “Preciso de título de especialista para dar plantão em UTI”
💬 Não é obrigatório!
Para atuar como diarista ou responsável técnico, o título de especialista é obrigatório.
Já o médico plantonista pode atuar sem título, desde que possua experiência e capacitação mínima para o cuidado do paciente grave.
8. “O diarista da UTI só passa visita e vai embora”
💬 Esse tempo ficou no passado — e faz mal ao paciente.
UTIs com presença contínua de intensivistas apresentam menor mortalidade e melhores desfechos.
Além da visita multiprofissional, o diarista também atua em:
- Mediação de conflitos entre especialidades
- Reuniões familiares
- Educação continuada da equipe
- Gestão de indicadores
- Melhoria contínua da unidade
9. “O intensivista não tem autonomia para decidir”
💬 Muito pelo contrário!
O intensivista lidera a equipe e coordena o cuidado do paciente crítico.
Em instituições que prezam pela segurança do paciente, decisões passam pelo intensivista — muitas vezes de forma compartilhada, sem perda de autonomia.
O diálogo com outras equipes, pacientes e familiares faz parte de uma prática moderna e ética.
10. “Se eu sei intubar e passar cateter, estou apto a dar plantão em UTI”
💬 Cuidado com essa armadilha!
Procedimentos são importantes, mas não definem o intensivista.
O que realmente diferencia esse profissional é a capacidade de:
- Pensar de forma crítica
- Reconhecer gravidade
- Tomar decisões complexas
- Trabalhar em equipe
- Comunicar-se com clareza e empatia
Não deixe de ser médico para virar apenas um “técnico de suporte orgânico”.
Conclusão
A Medicina Intensiva é uma especialidade viva, dinâmica e cheia de propósito. Para quem gosta de raciocínio clínico, trabalho em equipe e impacto direto na vida das pessoas, vale muito a pena conhecer de perto. E quem sabe… se apaixonar!
Referências
- European Society of Intensive Care Medicine (ESICM). Intensive Care Medicine as a Career. 2023.
- Society of Critical Care Medicine (SCCM). Critical Care Workforce Statement. 2022.
- Cassenote A et al. A Medicina Intensiva no Brasil: perfil dos profissionais e serviços de saúde. 2024.
- ANVISA. RDC nº 7/2010.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução nº 2.271/2020.
- Vincent JL et al. Work-life balance in critical care medicine. Intensive Care Med. 2021.
- Kotani J, Russotto V. The role of the intensivist in modern critical care. Crit Care Med. 2024.
- Pronovost PJ et al. Preventing bloodstream infections. Crit Care Clin. 2020.
- Wunsch H et al. Staffing models and outcomes in the ICU. Crit Care Med. 2021.
- Vincent JL et al. ICON audit. Lancet Respir Med. 2022.




